“ A palavra ficou suspensa entre nós como uma ameaça que só eu conseguia compreender.
— Genebra.
Meu corpo inteiro enrijeceu.
Por alguns segundos, deixei de ouvir os policiais, os convidados, os celulares tocando, até mesmo a voz de minha mãe sendo amparada por uma médica que estava entre os presentes. Tudo desapareceu atrás daquela única palavra.
Genebra não era apenas uma cidade.
Era uma lembrança que minha família havia enterrado vinte e oito anos antes.
Rafael percebeu imediatamente a mudança no meu rosto.
E sorriu.
Foi um sorriso pequeno, quase imperceptível, mas carregado da satisfação de quem acabara de descobrir que ainda possuía uma arma.
— Então você sabe — murmurou.
Aproximei-me dele.
— Onde você ouviu isso?
Dois policiais já estavam a poucos metros de nós. Um segurança do hotel mostrava as gravações do salão a um deles, enquanto outras pessoas descreviam o que Rafael havia feito com minha mãe.
Ele deveria estar preocupado com aquilo.
Mas não estava.
Seus olhos permaneciam presos aos meus.
— Pergunte ao seu pai — respondeu.
Meu estômago se contraiu.
— Meu pai morreu quando eu tinha doze anos.
— Foi isso que te contaram sobre muita coisa.
Antes que eu pudesse segurá-lo pelo braço, um policial se colocou entre nós.
— Senhor Rafael Montenegro, precisamos que o senhor nos acompanhe para esclarecer a agressão ocorrida aqui.
Rafael abriu os braços teatralmente.
— Foi um acidente.
Uma mulher perto do palco respondeu imediatamente:
— Eu gravei tudo.
Outra voz surgiu entre os convidados:
— Eu também.
Rafael olhou ao redor e, pela primeira vez naquela noite, percebeu que a plateia que ele havia usado para humilhar minha mãe agora testemunhava contra ele.
Seu rosto perdeu parte da cor.
Mesmo assim, enquanto o policial o conduzia para longe, ele se virou.
— Isabela.
Parei.
— Ligue para Augusto Albuquerque.
Meu coração falhou uma batida.
Augusto era meu tio.
Presidente do conselho do Grupo Albuquerque desde a morte de meu pai.
O homem que administrava boa parte do patrimônio da família até eu assumir oficialmente minha posição.
Rafael inclinou a cabeça.
— Pergunte a ele sobre a mulher do quarto 417.
Então foi levado embora.
Fiquei imóvel.
Quarto 417.
Genebra.
Augusto.
Três peças que jamais deveriam estar juntas.
— Bela...
A voz fraca de minha mãe me trouxe de volta.
Corri até ela.
Helena estava sentada em uma cadeira próxima ao palco, com uma compressa branca pressionada contra a testa. O ferimento parecia menos grave do que eu temera, mas havia sangue em seu cardigã.
Aquilo bastou para reacender minha raiva.
Ajoelhei-me diante dela.
— Vamos para o hospital.
— Eu estou bem.
— Não está.
— Isabela...
— Mãe, por favor.
Ela tocou meu rosto.
— O seu casamento...
Soltei uma risada vazia.
— Acabou antes de ele anunciar.
Seus olhos se encheram de lágrimas.
— Você escondeu tanta coisa para fazê-lo funcionar.
— Esse foi o meu erro.
Olhei para Rafael sendo conduzido através das portas do salão.
— Eu achei que humildade faria ele revelar quem realmente era.
— E revelou.
Minha mãe apertou minha mão.
— Só demorou mais do que eu queria admitir.
Meu telefone vibrou.
Uma ligação de Marcelo Nogueira, diretor financeiro da holding que controlava os investimentos privados do meu fundo.
Atendi.
— Fale.
— Isabela, as ordens foram executadas.
Olhei para o palco destruído.
— Todas?
— Linha de crédito suspensa. Fundo de emergência congelado. Garantias pessoais retiradas. A participação indireta do seu fundo na Montenegro Systems está sendo colocada sob revisão jurídica.
Marcelo respirou fundo.
— Mas existe um problema.
— Que problema?
— Rafael tentou movimentar dinheiro há três dias.
Meu olhar endureceu.
— Quanto?
— Quatro milhões e oitocentos mil reais.
— Para onde?
Houve um pequeno silêncio.
— Uma conta na Suíça.
Meu sangue gelou novamente.
— Em Genebra?
— Sim.
Levantei-me tão depressa que minha mãe me olhou assustada.
— Marcelo, não toque em nada dessa transferência.
— Isabela...
— Nada. Quero saber quem é o beneficiário.
— Já pedi ao jurídico.
— E?
— A conta não está no nome de Rafael.
— Então no nome de quem está?
Outro silêncio.
Desta vez, longo demais.
— O beneficiário aparece como H. Varela.
Olhei para minha mãe.
Helena Varela Albuquerque.
Esse havia sido o nome dela antes do casamento.
— Repita.
— H. Varela.
Minha mãe empalideceu.
O telefone quase escorregou da minha mão.
— Mãe...
Ela desviou o olhar.
E aquele gesto me assustou mais do que qualquer resposta.
— Você conhece essa conta?
— Não.
A resposta veio rápida demais.
— Então por que está tremendo?
— Porque acabei de levar uma bandeja na cabeça diante de quatrocentas pessoas.
— Não é por isso.
Ela fechou os olhos.
A ambulância havia chegado, e dois paramédicos se aproximavam, mas minha mãe levantou uma mão pedindo alguns segundos.
— Isabela, vá devagar.
— Rafael acabou de tentar mandar quase cinco milhões para uma conta em Genebra associada ao seu sobrenome.
Ela abriu os olhos novamente.
Havia medo neles.
Não confusão.
Medo.
— Você sabia sobre Genebra.
Minha mãe ficou em silêncio.
— Mãe.
Ela apertou a compressa contra a testa.
— Eu sabia que esse dia poderia chegar.
Senti meu peito se fechar.
— Que dia?
Antes que ela respondesse, meu celular tocou novamente.
Desta vez, Augusto Albuquerque.
Olhei para o nome na tela.
Minha mãe também viu.
E segurou meu pulso.
— Não atenda.
Foi a primeira vez em toda a minha vida que ouvi medo verdadeiro na voz dela.
— Por quê?
— Porque, se Rafael mencionou Genebra, seu tio já sabe que você descobriu alguma coisa.
O telefone continuava vibrando.
Atendi.
— Augusto.
Não houve cumprimento.
A voz do meu tio veio baixa e tensa.
— Onde está sua mãe?
Olhei para Helena.
— Comigo.
Ele soltou o ar lentamente.
— Não diga nada a ninguém sobre Genebra.
— Tarde demais.
Silêncio.
— Rafael sabe.
— Rafael não sabe de nada — respondeu Augusto.
— Ele sabe sobre o quarto 417.
Dessa vez, meu tio ficou completamente calado.
Minha mão apertou o telefone.
— Quem estava naquele quarto?
A resposta demorou vários segundos.
— Isabela, escute com muita atenção. Pegue sua mãe e saia do hotel agora.
— Por quê?
Ouvi uma porta bater do outro lado da ligação.
Depois, a voz dele ficou quase um sussurro.
— Porque a mulher do quarto 417 não morreu.
Meu coração disparou.
— Quem é ela?
Augusto respirou fundo.
— A mulher que deu à luz você. “







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