Por alguns segundos, ninguém naquele salão pareceu entender o que Sônia tinha acabado de dizer.
Eu entendi.
Ou pelo menos achei que tivesse entendido.
Olhei para Rafael e esperei que ele reagisse como qualquer homem injustamente acusado reagiria. Que perguntasse quem tinha inventado aquilo. Que exigisse uma explicação. Que dissesse que era absurdo.
Mas ele continuou olhando para o chão.
Foi aquilo que me destruiu.
— Rafael.
Minha voz saiu tão baixa que quase não reconheci.
Ele levantou os olhos.
Eu conhecia aquele rosto havia quatro anos. Conhecia a pequena cicatriz perto da sobrancelha esquerda, o jeito como ele apertava os lábios quando estava preocupado, até a forma como mexia os dedos quando precisava contar alguma coisa difícil.
Naquele momento, seus dedos estavam tremendo.
— Diz que isso é mentira.
Rafael respirou fundo.
— Camila, não aqui.
Eu senti alguma coisa dentro de mim se partir.
— Não aqui?
Apontei para as mesas, para os convidados, para as flores que eu tinha escolhido durante meses, para o bolo com nossas iniciais, para as fotografias espalhadas pelo salão contando uma história que, de repente, talvez nunca tivesse existido.
— Você me trouxe até aqui. Você colocou uma aliança no meu dedo na frente de todo mundo. Então vai falar aqui.
Helena deu um passo em nossa direção.
— Camila, por favor...
— Não fala comigo.
Ela parou.
Rafael fechou os olhos por um instante.
— Houve dinheiro.
O salão explodiu em murmúrios.
Meu pai, Augusto, empurrou a cadeira para trás com tanta força que ela caiu.
— Que dinheiro?
Rafael passou a mão pelo rosto.
— Foi antes de eu e Camila começarmos a namorar.
Minha garganta secou.
— Antes?
Ele assentiu.
Aquilo era pior do que eu imaginava.
— Então alguém pagou para você se aproximar de mim?
— Não exatamente.
— Para de escolher palavras!
Eu gritei pela primeira vez.
Rafael ficou imóvel.
Minha mãe começou a chorar silenciosamente atrás de mim.
Helena se virou para ela.
— Eu disse que isso precisava ser contado antes da cerimônia.
Sônia a encarou.
— E eu disse que não podia ser daquele jeito.
Eu virei para as duas.
— Vocês duas sabiam?
Nenhuma respondeu imediatamente.
Meu pai avançou.
— Sônia?
Minha mãe abaixou os olhos.
Foi então que percebi outra coisa.
Meu pai não sabia.
A raiva dele não era atuação.
— Há quanto tempo você sabe? — ele perguntou.
Sônia apertou as mãos.
— Três semanas.
Augusto empalideceu.
— Três semanas e você deixou nossa filha chegar ao altar?
— Eu estava tentando descobrir quem estava por trás disso.
— E descobriu?
Minha mãe olhou para mim.
— Parte.
Eu soltei uma risada sem humor.
Parte.
Minha vida inteira parecia ter se transformado em partes incompletas de uma mentira.
Tirei a aliança.
Rafael percebeu.
— Camila, não.
— Não encosta em mim.
Coloquei a aliança sobre a mesa mais próxima.
O som pequeno do metal tocando o vidro foi mais doloroso do que qualquer grito naquele salão.
— Quem te pagou?
Rafael ficou em silêncio.
— Quem?
— Eu não sei o nome verdadeiro.
Meu pai avançou e agarrou Rafael pelo paletó.
— Augusto! — minha mãe gritou.
Rafael não tentou se defender.
— Ele entrou em contato comigo através de um advogado — disse rapidamente. — Eu estava endividado. Minha empresa tinha quebrado. Meu pai estava internado. Eu precisava de dinheiro.
Helena levou a mão à boca.
Aquilo parecia ser novidade até para ela.
— Quanto? — perguntei.
Rafael me encarou.
— Cento e vinte mil reais.
Senti minhas pernas perderem força.
Quatro anos.
Quatro aniversários.
Viagens.
Domingos com nossas famílias.
O pedido de casamento na Lagoa da Pampulha.
Tudo começou por cento e vinte mil reais.
— E qual era o serviço?
Rafael hesitou.
Meu pai apertou ainda mais o paletó dele.
— Responde.
— Eu precisava conhecer Camila.
— Conhecer?
— Me aproximar dela. Ganhar a confiança dela.
Minha respiração ficou curta.
— E depois?
Rafael olhou para mim como se soubesse que a próxima frase seria imperdoável.
— Conseguir acesso a uma coisa.
Eu não consegui falar.
Foi Helena quem perguntou:
— Que coisa?
Rafael engoliu em seco.
— Documentos.
Meu pai soltou o paletó dele.
Algo mudou no rosto de Augusto.
Foi rápido.
Talvez ninguém mais tenha percebido.
Eu percebi.
— Que documentos?
Rafael abriu a boca.
Mas meu pai respondeu antes.
— Não existe documento nenhum.
A rapidez daquela resposta fez todo mundo olhar para ele.
Minha mãe empalideceu ainda mais.
— Augusto...
— Chega.
— Pai — eu disse lentamente. — Que documentos?
Ele me olhou.
Pela primeira vez naquela noite, meu pai parecia com medo.
Rafael deu um passo em minha direção.
— Camila, eu nunca entreguei nada.
— Mas procurou.
Ele não respondeu.
Isso bastou.
Peguei minha bolsa e comecei a caminhar para a saída.
Rafael veio atrás.
— Camila, espera.
— Acabou.
— Não acabou porque você ainda não sabe a parte mais importante.
Eu parei perto das portas do salão.
Não queria me virar.
Mas virei.
— Existe alguma parte que torne isso menos nojento?
Rafael respirou fundo.
— Eu aceitei o dinheiro. Eu me aproximei de você pelo motivo errado. Isso é verdade.
Seus olhos estavam vermelhos.
— Só que três meses depois eu tentei devolver tudo.
Helena franziu a testa.
— Três meses?
— Porque eu me apaixonei por ela.
Eu fechei os olhos por um segundo.
Era exatamente a frase que eu não queria ouvir.
— Não usa amor para limpar o que você fez.
— Eu não estou tentando.
Rafael tirou o celular do bolso.
— Quando tentei sair, eles ameaçaram meu pai.
Meu pai ficou rígido.
— Eles?
Rafael desbloqueou a tela e começou a procurar alguma coisa.
— Durante anos eu achei que o objetivo era uma pasta de documentos que Camila receberia quando completasse trinta anos. Nunca soube exatamente o que havia nela.
Meu aniversário de trinta anos tinha sido dois meses antes.
Senti um frio percorrer meu corpo.
— Eu nunca recebi pasta nenhuma.
Rafael me encarou.
— Porque alguém pegou antes de você.
Silêncio.
Minha mãe deu um passo para trás.
Meu pai ficou completamente imóvel.
Rafael abriu uma fotografia no celular e estendeu o aparelho para mim.
Era uma imagem antiga, tirada de longe, em frente ao prédio onde meus pais moravam.
Minha mãe aparecia saindo do carro.
Ao lado dela estava um homem que eu nunca tinha visto.
Ele segurava uma pasta preta.
— Quem é esse? — perguntei.
Sônia levou a mão à boca.
Rafael respondeu:
— O intermediário que me contratou quatro anos atrás.
Minha mãe começou a chorar.
— Não pode ser.
Eu virei para ela.
— Você conhece esse homem?
Sônia demorou alguns segundos para responder.
Quando respondeu, sua voz saiu quebrada.
— Conheço.
Meu pai fechou os olhos.
E foi nesse momento que percebi que ele também conhecia.
— Quem é ele?
Minha mãe olhou para Augusto como se esperasse permissão.
Não recebeu.
Então voltou os olhos para mim.
— O nome dele é Marcelo Valença.
Ela respirou com dificuldade.
— E, Camila... ele não apareceu na nossa vida por causa do Rafael.
Meu coração disparou.
— Então por quê?
Sônia enxugou uma lágrima.
— Porque ele trabalha para a pessoa que tentou tirar você de mim quando você nasceu.







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