Bruno olhou para Eduardo como se tivesse ouvido uma frase em outro idioma. Por alguns segundos, ninguém disse nada. Até Patrícia perdeu o sorriso. O barulho da rua pareceu aumentar de repente: um carro passando devagar, o portão do vizinho fechando, alguém cochichando atrás de uma janela entreaberta.
— O que você disse? — Bruno perguntou, finalmente.
Eduardo não mudou a expressão.
— Eu perguntei se você ainda não sabia que Mariana comprou esta casa antes de vocês se casarem.
Bruno virou o rosto para mim.
— Isso é mentira.
Eu senti algo apertar dentro do peito, mas não era medo. Era cansaço. Durante seis anos de casamento, Bruno tinha falado daquela casa como se fosse uma conquista nossa. Depois, aos poucos, passou a tratá-la como se fosse dele. Eu nunca o corrigi diante de amigos ou familiares porque acreditava que um casamento não precisava ser uma disputa sobre quem possuía o quê.
Naquela manhã, porém, ele tinha jogado minhas roupas na calçada.
— A escritura está no meu nome — respondi.
Patrícia cruzou os braços.
— Então por que você nunca falou isso?
— Porque ninguém tinha me expulsado da minha própria casa até hoje.
Bruno desceu mais um degrau.
— E esse homem? O que ele tem a ver com isso?
Eduardo abriu a pasta que carregava, mas não tirou nenhum documento.
— Meu nome é Eduardo Farias. Sou advogado.
Bruno soltou uma risada nervosa.
— Advogado? Você passou a noite com um advogado e espera que eu ache normal?
— Eu não passei a noite com ele — falei. — Passei a noite no escritório dele.
— Que diferença maravilhosa.
— Faz muita diferença quando você está tentando impedir que alguém use seu nome para assumir uma dívida de quase oitocentos mil reais.
O rosto de Bruno mudou.
Não foi surpresa completa. Foi pior.
Reconhecimento.
Pequeno, rápido, mas eu vi.
Eduardo também.
— Bruno — eu disse devagar. — Por que você fez essa cara?
— Não fiz cara nenhuma.
— Fez, sim.
Patrícia se aproximou dele.
— Mariana, chega. Você desaparece a noite inteira, aparece com um homem e agora inventa uma história sobre dívida?
Eduardo finalmente retirou um conjunto de folhas da pasta.
— Não é uma história.
Ele colocou os documentos sobre o capô do meu carro.
Eu não precisava olhar novamente. Já tinha passado horas encarando aquelas páginas na noite anterior.
Tudo começara com uma ligação do banco às cinco e vinte da tarde. Uma funcionária havia pedido confirmação sobre uma operação de crédito vinculada a uma empresa da qual eu supostamente seria garantidora. Pensei que fosse fraude. Depois descobri que havia cópias dos meus documentos, comprovantes financeiros e uma assinatura muito parecida com a minha.
Parecida demais.
Foi por isso que liguei para Eduardo, advogado que havia cuidado da compra da casa anos antes e que ainda guardava documentos antigos meus.
Nós passamos a noite comparando assinaturas, datas e registros.
Às três da manhã, encontramos algo pior.
— Essa empresa — Eduardo disse, apontando uma das folhas — foi aberta oito meses atrás.
Bruno não olhava para os documentos.
Eu, sim, olhava para ele.
— O nome dela é BPR Empreendimentos — continuei. — B de Bruno. P de Patrícia. R de Ribeiro.
Patrícia empalideceu.
Bruno apertou os punhos.
— Coincidência.
Eduardo soltou um suspiro baixo.
— A senhora Patrícia Ribeiro aparece formalmente como sócia.
O silêncio que veio depois foi tão pesado que até os vizinhos pararam de cochichar.
Patrícia virou-se para o irmão.
— Bruno...
Aquele único chamado foi suficiente para me mostrar que ela sabia alguma coisa.
Talvez não tudo.
Mas alguma coisa.
— Você sabia? — perguntei.
Ela abriu a boca e fechou.
Bruno avançou e pegou os documentos do capô.
— Isso não prova nada.
— Então me explica por que uma empresa de vocês tentou conseguir crédito usando meu patrimônio como garantia.
Ele começou a folhear as páginas rápido demais para realmente lê-las.
— Você está exagerando.
— Minha assinatura foi falsificada.
— Você não sabe disso.
— Sei que eu não assinei.
Meu tom permaneceu baixo. Isso pareceu irritá-lo mais do que se eu estivesse gritando.
Bruno amassou uma das folhas.
Eduardo imediatamente estendeu a mão.
— Eu não faria isso. Temos cópias, mas destruir um documento agora não vai melhorar sua situação.
Bruno o encarou.
Foi nesse instante que Patrícia recuou um passo.
Eu percebi.
Ela estava com medo.
Não de mim.
De Bruno.
— Patrícia — chamei. — O que você sabe?
— Nada.
— Olha para mim.
Ela não conseguiu.
Bruno segurou seu braço.
— Entra em casa.
— Solta ela — falei.
— Você não manda mais aqui.
Eu quase sorri diante da ironia.
— Acabamos de estabelecer que, juridicamente, mando um pouco mais do que você imaginava.
Ele soltou Patrícia.
Foi quando Eduardo fechou a pasta e falou algo que mudou completamente o clima.
— Mariana, precisamos entrar.
— Por quê?
Ele olhou para uma das janelas do segundo andar.
— Porque existe uma coisa que ainda não verificamos.
Bruno ficou imediatamente tenso.
— Ninguém vai entrar.
Eduardo me encarou.
— Ontem encontramos uma divergência nos documentos da casa. Há uma tentativa recente de registrar uma alteração ligada ao imóvel.
Meu coração acelerou.
— Que alteração?
— Uma procuração.
Olhei para Bruno.
Dessa vez ele não conseguiu esconder.
— Você fez uma procuração no meu nome?
— Claro que não.
Eduardo continuou:
— O documento teria sido assinado por Mariana três semanas atrás e daria poderes para negociar o imóvel.
Eu senti um frio subir pelos braços.
Três semanas antes, eu estava em Florianópolis cuidando da minha mãe depois de uma cirurgia. Bruno sabia disso.
— Onde está essa procuração?
— Ainda não sabemos quem está com o original.
Patrícia levou a mão à boca.
Eu vi o movimento.
Pequeno.
Instintivo.
— Patrícia — falei.
Ela começou a chorar.
Bruno virou-se para ela.
— Não fala nada.
Meu estômago se contraiu.
Eduardo deu um passo à frente.
— Patrícia, se existe um documento falso envolvendo um imóvel, esconder informação pode piorar muito as coisas.
Ela olhou para o irmão.
Depois para mim.
— Eu não sabia que ele ia usar sua assinatura.
Bruno explodiu.
— Cala a boca!
Patrícia se assustou.
Eu fiquei imóvel.
— Ele quem?
Ela respirou com dificuldade.
— Bruno disse que precisava da casa só por alguns meses. Disse que depois tudo voltaria ao normal.
A raiva subiu tão rápido que precisei respirar antes de falar.
— Usar a casa para quê?
Patrícia balançou a cabeça.
— Eu não sei tudo.
— Então fala o que sabe.
Bruno avançou em direção a ela, mas Eduardo entrou no caminho.
— Chega.
Patrícia chorava agora sem tentar esconder.
— Tem um homem chamado César. Ele começou a aparecer faz uns seis meses. Bruno dizia que era investidor. Depois começaram as dívidas. Eu emprestei meu nome para a empresa porque Bruno jurou que era temporário.
— Patrícia!
— Eu não vou para a cadeia por você! — ela gritou.
Bruno parou.
Aquilo foi a primeira rachadura real entre os dois.
Patrícia puxou o celular do bolso com as mãos tremendo.
— Ontem à noite, César me mandou uma mensagem.
Bruno tentou pegá-lo.
Eu fui mais rápida.
Patrícia colocou o aparelho na minha mão.
Na tela havia uma conversa curta. Não precisei ler muito.
Uma mensagem enviada às 23h48 dizia:
“Se Mariana descobrir antes da transferência, acabou. Amanhã precisamos da casa vazia.”
Levantei os olhos lentamente.
As malas na calçada.
A acusação de traição.
A pressa para me expulsar.
Tudo ganhou outro significado.
— Você não me colocou para fora porque achava que eu tinha outro homem — murmurei.
Bruno não respondeu.
Eduardo olhou novamente para a casa.
— Mariana, não entre ainda.
— Por quê?
Ele apontou discretamente para a garagem.
Foi então que percebi que havia um carro preto estacionado lá dentro.
Não era de Bruno.
Não era de Patrícia.
E eu nunca tinha visto aquele veículo antes.
Patrícia ficou pálida outra vez.
— É o carro dele.
— De César?
Ela assentiu.
Antes que alguém pudesse dizer mais alguma coisa, a porta principal da minha casa se abriu.
Um homem que eu nunca tinha visto apareceu no corredor.
Ele vestia um terno escuro e carregava uma pasta fina de couro.
Olhou primeiro para Bruno.
Depois para mim.
E sorriu como se já soubesse exatamente quem eu era.
— Mariana Ribeiro? — perguntou.
Segurei o celular de Patrícia com mais força.
— Quem está perguntando?
O homem desceu lentamente o primeiro degrau.
— César Almeida.
Bruno não se mexeu.
César abriu a pasta e retirou uma única folha.
— Ótimo. Você chegou antes do cartório fechar.
Então estendeu o documento na minha direção.
No canto inferior da página havia uma assinatura com o meu nome.
E acima dela, em letras impressas, estava a autorização para venda da minha casa.







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