— Escolhida primeiro para quê?
Minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia. Talvez porque, no fundo, eu já tivesse entendido que qualquer resposta mudaria alguma coisa entre mim e Felipe. Ele continuava parado perto da porta da cozinha, com as chaves do carro na mão e o rosto tenso. Beatriz cruzou os braços. Minha mãe parecia procurar uma saída que não existia.
— Juliana, senta — Márcia pediu.
— Eu não quero sentar. Quero saber o que vocês estão escondendo.
Olhei diretamente para Felipe.
— Você sabia que minha irmã tinha sido “escolhida primeiro” para quê?
Ele apertou a mandíbula.
— Eu soube depois.
— Depois de quê?
Beatriz soltou uma risada curta, sem humor.
— Depois que percebeu que eu não aceitaria.
Felipe virou-se para ela.
— Não foi assim.
— Então explica você.
O silêncio ficou tão pesado que até o barulho da geladeira pareceu alto demais.
Minha mãe finalmente puxou uma cadeira e se sentou.
— Há muitos anos, antes de você conhecer Felipe, eu e Helena já nos conhecíamos.
Helena era a mãe dele.
Eu sabia que nossas mães tinham se encontrado algumas vezes desde o início do nosso namoro, mas sempre achei que aquilo tivesse começado por nossa causa.
— Desde quando?
— Quase vinte anos.
Senti o estômago apertar.
— Você nunca me contou isso.
— Porque não havia motivo.
Beatriz inclinou-se sobre a mesa.
— Havia, sim.
Minha mãe fechou os olhos por um instante.
— O pai de Felipe e o seu pai trabalharam juntos.
Aquela frase me atingiu de uma maneira estranha.
Meu pai, Augusto, havia morrido quando eu tinha quinze anos. Depois disso, minha mãe raramente falava sobre os negócios dele. Eu sabia apenas que ele tivera uma pequena participação em empresas de construção e que, nos últimos anos de vida, havia enfrentado dificuldades financeiras.
Felipe finalmente entrou na cozinha.
— Meu pai não trabalhava exatamente com o seu. Eles eram sócios em um empreendimento.
— Qual empreendimento?
Ninguém respondeu imediatamente.
Minha irritação começou a superar o medo.
— Vocês conseguem entender que eu vou me casar em nove dias e acabei de descobrir que minha família e a família do meu noivo escondem alguma coisa há décadas?
Felipe passou a mão pelo rosto.
— Juliana, eu devia ter contado.
— Contado o quê?
Ele olhou para minha mãe antes de responder.
— Existe um acordo antigo entre nossas famílias.
Eu ri de nervoso.
— Que tipo de acordo? Isso não é novela.
Beatriz puxou a cadeira diante dela e se sentou.
— Infelizmente, parece.
Minha mãe lançou um olhar de advertência.
— Beatriz.
— Ela merece saber.
Minha irmã abriu a bolsa e tirou o celular.
— Ontem, Helena me ligou porque achou que eu poderia mudar de ideia.
— Mudar de ideia sobre quê?
Beatriz desbloqueou a tela, procurou alguma coisa e colocou o aparelho sobre a mesa.
— Escuta.
Uma gravação começou.
A voz de Helena era inconfundível.
“Beatriz, você sabe que tudo teria sido mais simples se tivesse aceitado quando sua mãe falou com você anos atrás.”
Minha respiração travou.
Depois veio a voz da minha irmã.
“Eu tinha vinte e dois anos. Vocês estavam falando da minha vida como se estivessem escolhendo quem ficaria com uma empresa.”
Helena respondeu:
“Não era assim.”
“Era exatamente assim.”
Houve alguns segundos de silêncio.
Então Helena disse:
“Agora sua irmã está prestes a ocupar o lugar que originalmente seria seu.”
Olhei para Felipe.
Ele estava pálido.
— Que lugar?
Beatriz interrompeu a gravação.
— Eu ainda não sei tudo.
— Mas sabe mais do que eu.
— Sim.
Ela não tentou negar.
Minha mãe respirou fundo.
— Quando seu pai morreu, ele deixou uma participação em uma empresa. Não estava registrada diretamente no nome dele. Era parte de uma estrutura societária complicada que ele criou com o pai de Felipe.
— Que empresa?
Felipe respondeu:
— Costa Norte Participações.
O nome não significava nada para mim.
— E o que isso tem a ver com casamento?
Minha mãe apertou as mãos sobre o colo.
— A participação da nossa família ficou vinculada a determinadas condições.
— Que condições?
Dessa vez, ninguém queria falar.
Foi Beatriz quem acabou fazendo isso.
— Uma delas dizia que, se uma das filhas de Augusto se casasse com um descendente direto da família de Alberto Farias, determinados direitos societários seriam consolidados.
Demorei alguns segundos para entender.
Depois olhei para Felipe.
— Você está dizendo que meu casamento transfere ações?
— Não exatamente — ele respondeu depressa. — É mais complicado.
— Então simplifica.
Felipe se aproximou.
— Juliana, eu não comecei a namorar você por causa disso.
— Mas sabia antes de me pedir em casamento?
Silêncio.
Meu coração acelerou.
— Felipe.
Ele fechou os olhos.
— Sim.
A palavra caiu entre nós como uma porta batendo.
Dei um passo para trás.
— Há quanto tempo?
— Um ano e meio.
— Estamos noivos há onze meses.
Ele não respondeu.
Eu fiz as contas sem querer.
Felipe descobrira o acordo meses antes de me pedir em casamento.
— E você achou que eu não precisava saber?
— Eu queria resolver tudo antes.
— Resolver o quê?
Foi então que minha mãe levantou a cabeça.
— Felipe descobriu que os documentos originais talvez tenham sido alterados.
Beatriz franziu a testa.
Até ela pareceu surpresa.
— Alterados por quem?
Márcia olhou para Felipe.
Ele demorou a responder.
— Pelo meu pai.
A cozinha ficou em silêncio outra vez.
— Seu pai morreu há três anos — eu disse.
— Eu sei.
— Então como você descobriu isso agora?
Felipe colocou as chaves do carro sobre a mesa.
— Porque há seis meses encontrei uma cópia do acordo original no escritório dele.
Minha mãe levantou-se de repente.
— Você nunca me disse que tinha encontrado o original.
— Porque eu não tinha certeza se era autêntico.
Beatriz aproximou-se.
— O que estava diferente?
Felipe não respondeu imediatamente. Em vez disso, olhou para mim.
— No documento que todos conhecem, basta que uma filha de Augusto se case com um herdeiro da família Farias.
— E no original?
Ele respirou fundo.
— O casamento não era a condição principal.
Senti um arrepio subir pelos braços.
— Então qual era?
Felipe abriu a boca, mas antes que pudesse responder, seu celular tocou.
Na tela apareceu o nome de Helena.
Ele recusou a chamada.
Um segundo depois, chegou uma mensagem.
Felipe leu.
Seu rosto mudou.
— O que foi? — perguntei.
Ele continuou olhando para a tela.
— Minha mãe está vindo para cá.
— Ótimo. Ela pode explicar pessoalmente.
— Não é só isso.
Felipe virou o celular para nós.
A mensagem dizia apenas:
“Não deixe Juliana ver a página sete.”
Beatriz ficou imóvel.
Minha mãe perdeu a cor.
Eu olhei de uma para a outra.
— Que página sete?
Felipe não respondeu.
Mas Márcia respondeu.
Quase num sussurro.
— A página onde está o nome da sua mãe verdadeira.







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