— Quem colocou meu nome nesse contrato?
Fernanda ainda segurava meu cartão entre os dedos. A pergunta pareceu mudar o peso do ar ao redor da mesa. Caio, que minutos antes havia decidido que meu cartão provavelmente seria recusado sem sequer tentar passá-lo, agora estava imóvel ao lado dela, como se tivesse percebido tarde demais que aquela noite podia terminar de uma maneira muito diferente da que imaginara.
Fernanda olhou discretamente para as outras mesas. Alguns clientes já fingiam não prestar atenção, embora claramente estivessem ouvindo.
— Talvez seja melhor conversarmos no escritório — disse ela.
— Talvez seja melhor você me responder primeiro.
Minha voz não saiu alta. Nunca fui homem de fazer espetáculo em restaurante. Passei quase quarenta anos trabalhando com números, contratos e pessoas que acreditavam que falar mais alto as tornava mais importantes. Aprendi cedo que silêncio e precisão costumavam assustar muito mais.
Fernanda colocou meu cartão sobre a mesa.
— O contrato de locação comercial tem uma garantia vinculada ao seu nome.
Senti uma pressão estranha no peito.
— Garantia de quê?
— Financeira.
— Eu nunca garanti este restaurante.
Ela franziu a testa.
— O senhor tem certeza?
Olhei para ela por alguns segundos antes de responder.
— Trabalhei com auditoria contábil por trinta e sete anos. Se existe uma coisa que eu sei é onde coloquei minha assinatura.
Caio tentou se afastar.
— Fernanda, eu volto para o salão.
Ela virou o rosto imediatamente.
— Fica.
Ele parou.
Fernanda respirou fundo e puxou a cadeira diante de mim.
— Senhor Henrique, eu não tenho acesso a todos os documentos jurídicos. O grupo que administra o restaurante assumiu esta unidade há quase seis anos. Quando houve uma renegociação com o proprietário do imóvel, recebemos uma cópia resumida das garantias anteriores. Seu nome estava lá.
— Desde quando?
— Muito antes de eu trabalhar aqui.
Alguma coisa dentro de mim se moveu.
Não era exatamente uma lembrança. Era mais uma sensação, aquela impressão desagradável de encontrar uma porta em casa que você jurava ter deixado fechada.
— Qual era o nome da empresa no contrato original?
Fernanda hesitou.
— Almeida & Vasconcelos Participações.
Eu não ouvi mais o barulho das taças, dos talheres ou das conversas ao redor.
Só aquele nome.
Almeida & Vasconcelos.
Fazia dezessete anos que eu não o pronunciava.
— Henrique? — Fernanda chamou.
Passei a mão lentamente pelo rosto.
— Essa empresa acabou.
— Pelo que consta nos documentos, não.
Levantei os olhos.
— Como assim?
— Pelo menos juridicamente, ela ainda aparece vinculada à garantia do imóvel.
Minha primeira reação foi dizer que aquilo era impossível. A Almeida & Vasconcelos havia sido criada por mim e por Augusto Vasconcelos quando ainda éramos jovens demais para entender que amizade e dinheiro raramente envelhecem bem juntos. Não era uma grande empresa. Administrávamos investimentos de clientes pequenos e médios, fazíamos estruturação contábil, participávamos de alguns negócios imobiliários. Depois de quase vinte anos de sociedade, Augusto tomou uma decisão que eu considerava irresponsável: quis usar capital da empresa para entrar num projeto de restaurantes.
Eu me recusei.
Discutimos.
E aquela discussão acabou destruindo nossa sociedade.
Meses depois, assinamos a dissolução.
Ou pelo menos foi isso que eu acreditara durante todos aqueles anos.
— Preciso ver esse contrato — falei.
Fernanda balançou a cabeça.
— Eu consigo mostrar a cópia digital que temos no sistema interno, mas não sei se posso entregar.
— Não quero levar. Quero ler.
Ela assentiu.
Antes de levantarmos, olhei para Caio.
— Passe o cartão.
Ele piscou.
— Senhor?
— A conta. Foi por isso que tudo isso começou, não foi?
Caio ficou vermelho.
Fernanda abriu a boca para falar alguma coisa, mas fiz um gesto para que não interferisse.
— Passe.
Ele pegou o cartão com as duas mãos. Dessa vez, foi até a máquina sem fazer qualquer comentário. Digitou o valor, aproximou o cartão e poucos segundos depois o comprovante saiu.
Pagamento aprovado.
Caio permaneceu olhando para a máquina.
— Algum problema? — perguntei.
— Não.
— Então imagino que da próxima vez você deixe a máquina decidir antes de decidir pela pessoa.
Ele baixou os olhos.
Não senti prazer em vê-lo constrangido. Talvez vinte anos antes eu tivesse sentido. Naquela noite, porém, minha atenção já estava em outro lugar.
Fernanda me levou por um corredor estreito nos fundos do salão até uma pequena sala administrativa. Havia duas telas, caixas de documentos e uma cafeteira que parecia trabalhar mais do que qualquer funcionário dali.
Ela abriu o sistema, procurou uma pasta e digitou uma senha.
— Aqui.
Apareceu na tela uma cópia escaneada de um documento antigo.
Reconheci imediatamente o endereço.
Reconheci o nome da empresa.
Reconheci o CPF abaixo do meu nome.
E então vi a assinatura.
Meu estômago se contraiu.
Ela parecia minha.
Muito.
O jeito de formar o “H”, a inclinação das letras, até a pequena linha que eu costumava fazer no final do sobrenome.
Mas havia algo errado.
Aproximei o rosto da tela.
— Pode ampliar?
Fernanda ampliou.
Fiquei alguns segundos olhando.
Então percebi.
Aquela assinatura tinha sido copiada de um documento específico.
Eu sabia porque durante anos assinara de duas maneiras diferentes. Em contratos empresariais, escrevia “Henrique A. Almeida”. Em documentos pessoais, assinava apenas “Henrique Almeida”.
A assinatura naquela garantia era a pessoal.
— Isso foi falsificado.
Fernanda perdeu a cor.
— Tem certeza?
— Absoluta.
Ela fechou a porta do escritório.
— Senhor Henrique… se isso for verdade, nós temos um problema muito maior.
— Nós?
— O restaurante está atrasado com o aluguel.
Parei.
— Quanto?
Ela demorou antes de responder.
— Quase oitocentos mil reais entre aluguel, encargos e multas.
Soltei uma risada curta, sem humor.
— E alguém acredita que eu vou pagar isso?
— Não sei. Mas há três semanas chegou uma notificação extrajudicial mencionando especificamente o garantidor.
Meu corpo ficou rígido.
— Meu nome?
Ela assentiu.
— O jurídico da empresa disse que estava tentando localizar o senhor.
— Ninguém me procurou.
Fernanda passou para outra página do arquivo.
— Aqui consta um endereço para correspondência.
Quando vi a rua, minha garganta secou.
Era o endereço da casa onde Augusto Vasconcelos morava quando éramos sócios.
— Isso não faz sentido — murmurei.
— O senhor conhece o endereço?
— Conheço.
Fernanda me observou com cuidado.
— Talvez tenha sido um erro antigo.
— Não.
Eu já sabia que não era.
Porque naquele instante outra lembrança voltou inteira.
Poucos meses antes de nossa sociedade terminar, Augusto havia pedido uma cópia autenticada dos meus documentos pessoais. Disse que precisava atualizar o cadastro bancário da empresa.
Eu entreguei.
Nunca pedi de volta.
Peguei o celular do bolso.
Fazia quase quinze anos que não falava com ele. Nem sequer sabia se o número continuava o mesmo.
Procurei entre contatos antigos.
“Augusto V.”
Ainda estava lá.
Antes que eu decidisse ligar, Fernanda disse:
— Henrique, tem mais uma coisa.
Ela abriu a última página da pasta.
No rodapé havia um campo chamado “representante responsável pela renovação”.
Meu olhar parou no nome.
Não era Augusto.
Era alguém que eu conhecia muito melhor.
Marcelo Almeida.
Meu sobrinho.
O filho da minha irmã.
E, ao lado do nome dele, havia uma data.
Quatro meses atrás.







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