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Uma Executiva Mandou A Faxineira Sair Pela Porta Dos Fundos — Até O Bilionário Abraçá-La Diante De Todos E Revelar Um Segredo De 40 Anos

Por alguns segundos, ninguém disse nada.

O salão, que até então estava cheio de conversas discretas, taças tilintando e risadas calculadas, ficou estranhamente silencioso. Renata continuava parada a poucos passos de mim, com a bandeja que havia arrancado das minhas mãos apoiada contra o corpo. Marcelo observava Augusto com uma expressão que misturava surpresa e preocupação. Já os dois homens que tinham saído do elevador com ele trocaram um olhar rápido, como se percebessem que aquele encontro tinha acabado de mudar completamente o clima da noite.

Augusto ainda segurava meus braços.

— Quanto tempo, Lúcia...

— Bastante.

Ele sorriu, mas havia emoção nos olhos.

— Você continua exatamente igual.

Eu ri.

— Não exagera. Meu joelho discorda.

Algumas pessoas ao redor soltaram risadas baixas, mais por nervosismo do que por graça. Renata, porém, permanecia imóvel.

Augusto finalmente percebeu a bandeja nas mãos dela.

— O que aconteceu aqui?

Eu poderia ter contado.

Poderia ter repetido cada palavra.

“Funcionário entra pelos fundos.”

“Esta festa é para diretoria e investidores.”

“Só estou colocando cada pessoa no lugar certo.”

Mas eu tinha aprendido há muito tempo que certas pessoas revelam muito mais quando acreditam que ainda podem controlar a situação.

Por isso apenas respondi:

— Nada que precise estragar sua noite.

Renata aproveitou imediatamente.

— Foi só um mal-entendido, senhor Augusto. Eu não sabia que vocês se conheciam.

Augusto virou lentamente para ela.

— Isso faria diferença?

A pergunta foi simples.

Renata demorou alguns segundos para responder.

— Eu quis dizer que...

— Se não conhecesse Lúcia, estaria tudo bem tratá-la de outra forma?

Marcelo desviou os olhos.

Renata apertou a bandeja.

— Não foi isso.

— Então o que foi?

Ela respirou fundo.

— Eu estava apenas seguindo o protocolo do evento.

Foi então que um dos homens ao lado de Augusto falou pela primeira vez.

— Qual protocolo?

Renata olhou para ele.

— Perdão?

— Qual documento estabelece que funcionários devem ser retirados pela porta dos fundos?

O rosto dela perdeu mais um pouco de cor.

Augusto fez um gesto discreto.

— Este é Henrique Sampaio, do conselho.

Agora algumas pessoas começaram a prestar atenção de verdade.

Renata abriu a boca, mas nenhuma resposta saiu.

Eu toquei o braço de Augusto.

— Augusto, deixa isso.

Ele me olhou imediatamente.

— Você ainda faz isso.

— Isso o quê?

— Protege as pessoas quando elas não merecem.

Aquela frase me atingiu de um jeito que ninguém ali poderia entender.

Porque eu já tinha ouvido algo parecido muitos anos antes.

Só que naquela época era Augusto quem estava com vergonha.

E era eu quem estava tentando protegê-lo.

Ele devia ter uns dezenove anos.

Magro demais, camisa social emprestada, tênis gasto e uma pasta de plástico cheia de currículos amassados. Eu trabalhava numa pequena empresa de manutenção predial no centro de São Paulo. Fazia limpeza, servia café, atendia telefone quando a secretária faltava e, em alguns dias, ajudava até a organizar contas.

Augusto apareceu numa terça-feira chuvosa.

Pediu emprego.

O gerente nem deixou que entrasse direito.

Disse que não havia vaga.

Augusto agradeceu e saiu.

Eu vi tudo da copa.

Pouco depois, desci para jogar o lixo e o encontrei sentado no degrau de uma loja fechada, tentando proteger os currículos da chuva com a própria camisa.

Perguntei:

— Você já comeu hoje?

Ele mentiu.

Disse que sim.

Eu sabia reconhecer fome.

Peguei metade da marmita que tinha levado e entreguei a ele.

No dia seguinte, Augusto voltou.

No outro também.

Na terceira vez, descobri que ele entendia de computadores.

Naquela pequena empresa havia um computador velho que ninguém conseguia fazer funcionar havia semanas.

Chamei o rapaz.

Ele consertou em menos de uma hora.

O gerente ficou impressionado.

E foi assim que Augusto conseguiu o primeiro emprego.

O que ninguém naquela festa sabia era que eu não tinha apenas indicado aquele rapaz.

Eu tinha mentido por ele.

Disse ao gerente que Augusto era filho de uma conhecida e que eu me responsabilizaria caso ele causasse algum problema.

Na verdade, eu mal o conhecia.

Anos depois, ele me contou que aquele salário pagou os primeiros meses do curso técnico que mudou a vida dele.

Eu nunca achei que tivesse feito algo extraordinário.

Só não conseguia aceitar que um rapaz inteligente fosse tratado como se não tivesse valor apenas porque estava molhado, faminto e vestido com roupas simples.

Augusto apertou minha mão.

— Eu nunca esqueci aquele dia.

Renata nos observava.

Seu rosto havia mudado completamente.

Agora não havia arrogância.

Havia medo.

— Senhor Augusto... eu realmente peço desculpas.

Ele não respondeu imediatamente.

Olhou para mim.

— Você trabalha aqui?

Assenti.

— Há quase seis anos.

Marcelo pareceu confuso.

— Seis anos?

— Sim.

Augusto franziu a testa.

— E você nunca me contou?

— Nunca achei necessário.

Ele soltou uma pequena risada incrédula.

— Você sempre foi impossível.

A tensão diminuiu por alguns segundos.

Mas então Marcelo perguntou algo que fez o sorriso de Augusto desaparecer.

— Dona Lúcia, posso perguntar uma coisa?

— Claro.

Ele apontou discretamente para o crachá preso ao meu uniforme.

— A empresa de limpeza que atende este prédio... é a Serviço Paulista?

— É.

Marcelo virou para Augusto.

Os dois trocaram um olhar.

Dessa vez fui eu que percebi que havia algo errado.

— O que foi?

Augusto demorou a responder.

— Estamos revisando contratos do prédio.

Marcelo completou:

— Inclusive o da terceirizada responsável pela limpeza.

Senti um desconforto estranho no estômago.

— E?

Marcelo passou a mão pela nuca.

— Houve denúncias sobre salários atrasados e descontos que não deveriam existir.

Meu coração deu uma batida mais forte.

Eu conhecia aqueles descontos.

Todos nós conhecíamos.

Nos últimos quatro meses, parte do vale-alimentação tinha desaparecido sem explicação. Uma colega chamada Marta havia reclamado e, uma semana depois, foi transferida para um prédio muito mais longe de casa.

Nós aprendemos rapidamente a ficar calados.

Augusto percebeu minha expressão.

— Você sabe de alguma coisa.

Eu hesitei.

Não por medo de Renata.

O medo era outro.

Perder o emprego aos cinquenta e seis anos não era uma possibilidade abstrata. Era aluguel, mercado, remédios e contas.

— Lúcia?

Respirei fundo.

— Talvez.

Antes que eu pudesse explicar, uma mulher da cozinha apareceu na entrada do salão. Era Célia, a funcionária que havia me pedido ajuda com as taças.

Ela estava pálida.

Muito pálida.

Olhou para mim e fez um gesto urgente com a mão.

— Dona Lúcia... preciso falar com a senhora.

— O que aconteceu?

Ela lançou um olhar para Renata e depois para Marcelo.

— Não aqui.

Algo na voz dela me fez seguir imediatamente.

Caminhamos até o corredor de serviço.

Quando ficamos longe o suficiente dos convidados, Célia abriu a bolsa e retirou um envelope pardo, dobrado no meio.

— A Marta deixou isso comigo antes de desaparecer.

Meu corpo ficou gelado.

— Desaparecer?

— Ela não foi transferida.

Célia colocou o envelope em minhas mãos.

— Ela descobriu para onde estava indo o dinheiro descontado dos funcionários.

Antes que eu perguntasse qualquer coisa, ouvimos passos atrás de nós.

Renata estava parada na entrada do corredor.

E quando viu o envelope em minhas mãos, toda a expressão de medo desapareceu.

No lugar dela surgiu algo muito pior.

Reconhecimento.

— Onde você conseguiu isso? — perguntou.

Célia recuou.

Eu apertei o envelope contra o peito.

Renata deu um passo na nossa direção.

— Lúcia... me entrega.

— Por quê?

Ela não respondeu.

Mas naquele instante compreendi uma coisa.

O que tinha acontecido no salão talvez não tivesse começado porque Renata me confundiu com alguém sem importância.

Talvez ela já soubesse exatamente quem eu era.

E talvez estivesse tentando me tirar daquela festa antes que eu descobrisse alguma coisa que jamais deveria chegar às mãos de Augusto.

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