“ Por alguns segundos, não consegui respirar.
A mulher que deu à luz você.
As palavras de Augusto atravessaram minha cabeça, mas se recusavam a fazer sentido. Olhei para Helena sentada diante de mim, ainda com a compressa pressionada contra a testa, o cardigã manchado e os olhos cheios de um medo que eu nunca tinha visto nela.
— Minha mãe está aqui.
Minha voz saiu quase sem som.
Augusto permaneceu em silêncio.
— Augusto, minha mãe está na minha frente.
— Eu sei.
— Então que diabos você acabou de dizer?
Helena fechou os olhos.
Foi naquele instante que compreendi.
Não porque alguém tivesse me contado.
Mas porque minha mãe não parecia surpresa.
Afastei lentamente o telefone do ouvido.
— Você sabia.
Ela abriu os olhos.
— Isabela...
— Você sabia!
Algumas pessoas próximas se viraram. Os paramédicos trocaram um olhar, mas eu já não me importava com quem estava ouvindo.
Helena tentou se levantar.
— Não aqui.
— Passei vinte e oito anos chamando você de mãe. Acho que mereço uma resposta aqui, em casa ou no meio da Avenida Atlântica.
Ela baixou os olhos.
— Eu sou sua mãe.
— Não foi isso que Augusto disse.
Minha voz falhou pela primeira vez.
Helena estendeu a mão para mim, mas recuei.
Aquilo a feriu.
Eu vi.
E uma parte de mim quis imediatamente abraçá-la, porque aquela era a mulher que segurara minha mão quando eu tinha febre, que trabalhara dobrado quando eu precisava de alguma coisa, que ficara acordada durante minhas provas, meu casamento, minha gravidez e o nascimento do meu filho.
Mas outra parte de mim acabara de descobrir que toda a minha infância talvez estivesse construída sobre uma mentira.
Levei o telefone novamente ao ouvido.
— Onde está essa mulher?
— Não posso explicar por telefone — respondeu Augusto.
— Então explique pessoalmente.
— Isabela, Rafael tentou transferir dinheiro para Genebra. Isso significa que alguém abriu uma porta que deveria permanecer fechada.
— Pare de falar em enigmas.
— Vá para o hospital com Helena. Eu encontro vocês lá.
— E a mulher?
Ele hesitou.
— O nome dela é Cecília Varela.
Minha mãe empalideceu.
Desliguei.
— Cecília Varela.
Helena respirou fundo.
— Não diga esse nome tão alto.
— Por quê? Ela vai aparecer?
Minha ironia desapareceu quando percebi que Helena estava realmente assustada.
— Talvez.
Os paramédicos finalmente insistiram em levá-la. Vinte minutos depois, estávamos dentro de uma ambulância seguindo pela Avenida Atlântica, enquanto o Copacabana Palace desaparecia atrás de nós.
Meu celular não parava.
Vídeos da agressão já circulavam nas redes sociais. Jornalistas pediam declarações. Advogados enviavam mensagens. Marcelo atualizava a situação financeira da Montenegro Systems.
Mas havia uma mensagem que me chamou atenção.
Era de Rafael.
Não sabia como ele conseguira enviá-la enquanto estava sendo conduzido, mas ali estava.
“Você acha que eu descobri Genebra sozinho?”
Logo abaixo, uma fotografia.
Abri.
Era antiga.
Na imagem, três pessoas estavam diante de um prédio de pedra.
Reconheci Augusto muito mais jovem.
Reconheci meu pai.
E entre eles havia uma mulher alta, de cabelos escuros, segurando um bebê enrolado em uma manta branca.
Ampliei a fotografia.
No verso, fotografado separadamente, havia uma anotação:
“Genebra, 17 de novembro de 1998. Cecília e Isabela.”
Minha garganta se fechou.
Mostrei a imagem a Helena.
Ela virou o rosto.
— Conte tudo.
— Não posso.
— Pode.
— Algumas verdades não pertencem apenas a mim.
— Minha própria origem pertence a mim.
Ela ficou em silêncio por vários segundos enquanto a sirene cortava o trânsito.
— Cecília era minha irmã mais nova.
Senti como se o chão da ambulância tivesse se movido.
— Sua irmã?
Helena assentiu.
— Éramos muito diferentes. Cecília era brilhante, impulsiva, ambiciosa. Eu queria uma vida simples. Ela queria conquistar o mundo.
— E teve uma filha.
— Você.
Fechei os olhos.
— Quem é meu pai?
Helena apertou os lábios.
— O homem que você conheceu como seu pai era seu pai.
Abri os olhos imediatamente.
— Então Cecília teve um filho com o marido da própria irmã?
— Eu ainda não era casada com ele.
A resposta veio carregada de dor.
— Cecília e Eduardo se conheceram primeiro.
Aquilo era pior do que eu imaginara.
Helena continuou:
— Quando você nasceu, Cecília estava envolvida em uma situação perigosa. Pessoas estavam atrás dela. Ela pediu que Eduardo e eu cuidássemos de você por algumas semanas.
— Algumas semanas viraram vinte e oito anos?
Uma lágrima escorreu pelo rosto dela.
— Cecília desapareceu.
— E vocês simplesmente decidiram que eu seria filha de vocês?
— Nós achamos que ela estava morta.
— Augusto acabou de dizer que ela está viva.
— Porque Augusto descobriu depois.
Meu coração bateu mais forte.
— Depois de quê?
Helena desviou o olhar.
— Depois da morte do seu pai.
Antes que pudesse perguntar mais, a ambulância parou.
No hospital, Helena foi levada para exames. Fiquei no corredor, andando de um lado para o outro, até Augusto aparecer.
Ele ainda vestia o terno do escritório.
— Onde ela está?
— Fazendo uma tomografia.
Ele assentiu.
— E Cecília?
Augusto olhou ao redor.
— Vamos conversar em algum lugar reservado.
Entramos em uma pequena sala vazia.
Fechei a porta.
— Comece.
Augusto colocou uma pasta fina sobre a mesa.
— Seu pai não morreu de ataque cardíaco.
Todo o ar pareceu desaparecer da sala.
— O quê?
— Foi o que colocamos nos registros familiares para proteger você.
— Proteger de quem?
Ele abriu a pasta.
Dentro havia cópias de documentos bancários, fotografias e um relatório escrito em francês.
— Eduardo descobriu que alguém estava desviando dinheiro do Grupo Albuquerque através de contas suíças. Cecília estava ligada a essas contas.
— Minha mãe biológica roubava nossa família?
— Não sabemos.
— Então o que sabem?
Augusto empurrou uma fotografia em minha direção.
Meu pai aparecia entrando em um hotel.
A data impressa no canto era três dias antes de sua morte.
— Eduardo foi a Genebra encontrar Cecília.
Olhei para ele.
— No quarto 417?
Augusto assentiu.
— Foi a última pessoa conhecida a vê-lo vivo.
Meu estômago se revirou.
— Você está dizendo que Cecília matou meu pai?
— Estou dizendo que ele voltou ao Brasil aterrorizado. Três dias depois, morreu.
— E você escondeu isso de mim?
— Você tinha doze anos.
— E agora tenho vinte e oito.
— E agora Rafael sabe o suficiente para colocar todos nós em perigo.
A porta se abriu de repente.
Era Marcelo.
Seu rosto estava pálido.
— Desculpe interromper, mas encontramos o titular real da conta para a qual Rafael tentou mandar o dinheiro.
Augusto ficou rígido.
— Não era H. Varela?
— H. Varela é apenas a identificação fiduciária.
Marcelo colocou o celular sobre a mesa.
— Conseguimos localizar a empresa que controla a conta.
Na tela havia um documento suíço.
Li o nome uma vez.
Depois outra.
Não era Cecília.
Não era Helena.
Era uma empresa chamada C.V. Gestion SA.
— Quem controla isso?
Marcelo deslizou o dedo pela tela.
Uma fotografia apareceu.
A mulher devia estar perto dos cinquenta anos. Cabelos escuros, olhos verdes e um rosto que fez minhas pernas perderem força.
Era como olhar para uma versão mais velha de mim mesma.
— Cecília — sussurrou Helena atrás de nós.
Virei-me.
Minha mãe estava parada na porta, ainda usando a pulseira do hospital.
— Você deveria estar fazendo os exames.
Ela não respondeu.
Continuava olhando para a fotografia.
Marcelo engoliu em seco.
— Tem mais.
— O quê?
— Essa conta recebeu uma transferência ontem à noite.
— De Rafael?
— Não.
Ele virou a tela para Augusto.
O rosto do meu tio mudou imediatamente.
— Isso é impossível.
Peguei o telefone.
A transferência era de dois milhões de euros.
O remetente estava identificado apenas por uma empresa brasileira.
Albuquerque Participações S.A.
Minha própria holding familiar.
— Quem autorizou?
Marcelo não respondeu imediatamente.
Olhou para Augusto.
Depois para mim.
— A assinatura digital pertence ao presidente do conselho.
Olhei lentamente para meu tio.
Augusto empalideceu.
— Isabela, eu não fiz essa transferência.
Antes que alguém dissesse mais alguma coisa, meu telefone vibrou.
Número internacional.
Suíça.
Atendi.
— Alô?
Durante dois segundos, ouvi apenas uma respiração feminina.
Então uma voz desconhecida falou meu nome.
— Isabela?
Minha mão começou a tremer.
— Quem está falando?
A mulher permaneceu em silêncio por um instante.
Quando respondeu, sua voz estava embargada.
— Você cresceu tanto.
Meu coração pareceu parar.
— Cecília?
Uma respiração trêmula atravessou a linha.
— Não confie em Augusto.
Olhei para meu tio.
Ele estava me observando.
— Por quê?
A resposta veio baixa.
— Porque seu pai não foi a única pessoa que ele enterrou naquele ano.
A ligação caiu. “







No comments yet