Por alguns segundos, ninguém pareceu entender completamente o que Natália acabara de dizer. Eu entendia. Ou pelo menos entendia o suficiente para sentir alguma coisa dentro de mim desabar.
— Quem? — perguntei.
André permaneceu imóvel.
— Larissa...
— Quem pagou para você abandonar a investigação?
Meu pai desviou os olhos. Foi um movimento pequeno, quase imperceptível, mas eu vi. Minha mãe também.
— Renato? — ela perguntou.
Ele não respondeu.
Olhei para André.
— Foi meu pai?
— Não.
A resposta veio rápida demais.
Meu pai ergueu os olhos imediatamente, como se também não esperasse aquilo.
— Então quem foi?
André respirou fundo e olhou ao redor. Só então pareceu perceber que ainda estávamos cercados por convidados.
— Não aqui.
— Você perdeu o direito de escolher onde essa conversa acontece quando decidiu me deixar chegar ao altar sem saber quem você realmente era.
Minha voz tremeu, mas não baixei os olhos.
Natália se aproximou.
— Larissa, talvez ele tenha razão sobre uma coisa. Existem pessoas aqui que não deveriam ouvir isso.
— Que pessoas?
Ela olhou discretamente para o fundo do salão.
Segui seu olhar.
Um homem de terno cinza estava próximo à saída. Eu o reconheci depois de alguns segundos: Maurício Valente, diretor financeiro da Fundação Monteiro e amigo do meu pai havia mais de quinze anos.
Maurício percebeu que estávamos olhando para ele.
Pegou o celular.
E saiu.
Natália empalideceu.
— Ele não deveria estar aqui.
Meu pai franziu a testa.
— Maurício foi convidado.
— Não estou falando do casamento.
Ela olhou para André.
— Estou falando dessa história.
André desceu rapidamente os dois degraus do altar.
— Precisamos pegar o telefone dele.
Meu pai segurou seu braço.
— Você não vai transformar meu casamento da filha em uma perseguição absurda.
André arrancou o braço.
— Seu casamento da filha já acabou, Renato.
A frase me atingiu de maneira estranha. Até aquele momento, talvez uma parte ridícula de mim ainda imaginasse que existia alguma explicação capaz de nos levar de volta cinco minutos no tempo.
Não existia.
Tirei lentamente a aliança de noivado.
André percebeu.
Seu rosto se desfez.
— Larissa, por favor.
Coloquei o anel sobre a mesa onde Natália havia deixado a bandeja.
— Primeiro descubro quem vocês são. Depois decido o que restou de nós.
Saímos por uma porta lateral. Maurício já havia desaparecido do corredor.
Natália segurou meu braço.
— Não importa. Eu tenho cópias.
— De quê?
— Dos documentos que André encontrou.
André virou-se bruscamente.
— Você disse que tinham sido destruídos.
— Os originais foram.
Ela retirou uma pequena chave do bolso.
— Eu fiz cópias antes de ser demitida.
Meu pai fechou os olhos.
— Meu Deus.
— Onde estão? — perguntei.
Natália apontou para o estacionamento.
— No meu carro.
Fomos os quatro. Minha mãe veio atrás, apesar dos protestos de meu pai. Pela primeira vez em minha vida, vi meus pais caminhando separados como desconhecidos.
O carro de Natália era um hatch antigo estacionado perto da área de serviço. Ela abriu o porta-malas e levantou o revestimento inferior.
Havia uma pasta plástica escondida junto ao estepe.
André pegou os documentos.
Passou rapidamente pelas páginas.
— São os mesmos.
— Os mesmos que você investigou? — perguntei.
Ele assentiu.
Natália apontou para uma sequência de transferências.
Durante sete meses, pequenas quantias haviam saído de diferentes contas da fundação. Depois, os valores eram reunidos e enviados à LRS Participações.
Empresa que, no papel, pertencia a mim.
— Oito milhões — murmurei.
— Oito milhões e quatrocentos e sessenta mil — corrigiu André.
Meu pai aproximou-se.
— Eu descobri isso depois.
Olhei para ele.
— Depois de quê?
— Depois que Natália tentou falar com você.
— Então foi você quem impediu as cartas.
— Sim.
Minha mãe levou a mão ao peito.
— Renato...
— Eu estava tentando proteger Larissa.
Eu ri, incapaz de acreditar.
— Colocaram meu nome numa empresa usada para desviar milhões e sua maneira de me proteger foi esconder isso de mim?
— Porque, quando descobri, seu nome já estava em tudo!
Ele finalmente levantou a voz.
— Se aquilo chegasse à polícia ou à imprensa, você seria a primeira pessoa investigada.
— Então quem colocou meu nome?
Meu pai ficou calado.
André fechou a pasta.
— Essa foi a pergunta que me contrataram para responder.
— Quem contratou você?
— Seu pai.
Olhei para Renato.
Ele confirmou.
— Contratei o escritório onde André trabalhava. Queria descobrir quem estava por trás da empresa sem envolver você.
Tudo ficou ainda mais confuso.
— Então você e André trabalhavam juntos?
— No começo — disse André.
— E quem pagou para você abandonar a investigação?
André demorou alguns segundos.
— Maurício.
Meu pai ficou pálido.
— Isso é mentira.
— Ele me ofereceu trezentos mil reais.
— Maurício nunca faria isso.
Natália soltou uma risada amarga.
— Foi exatamente o que o senhor disse quando eu mostrei as transferências.
Meu pai encarou os papéis.
— Ele é meu amigo há vinte e dois anos.
— Talvez seja justamente por isso que conseguiu fazer tudo — respondi.
André balançou a cabeça.
— Tem uma coisa pior.
Todos olharam para ele.
— Eu recusei o dinheiro.
— E?
— Dois dias depois, recebi fotografias suas.
Meu corpo gelou.
— Minhas?
— Você saindo de casa. Entrando no escritório. Correndo no parque. Fotografias tiradas durante semanas.
A raiva desapareceu por um instante, substituída por algo muito mais frio.
— Estavam me seguindo?
— Sim.
André continuou:
— Junto com as fotos havia uma mensagem: se eu continuasse investigando, fariam você assumir oficialmente a responsabilidade pela LRS.
— Foi então que você procurou Natália?
— Foi então que percebi que precisava chegar perto de você.
— Para me proteger?
Ele me encarou.
— No início, para descobrir se você fazia parte do esquema.
Aquela resposta me feriu novamente.
Mas dessa vez ele não tentou suavizá-la.
— Depois percebi que você não sabia de nada.
— E mesmo assim ficou.
— Sim.
— E se apaixonou.
— Sim.
— E continuou mentindo.
André abaixou os olhos.
— Sim.
Eu precisava sair dali. Precisava respirar.
Mas Natália puxou outra folha da pasta.
— Existe algo que nenhum de nós conseguiu explicar.
Ela colocou o documento sobre o capô.
Era o registro original da abertura da LRS Participações.
Havia minha assinatura falsificada.
Meu CPF.
Meu endereço antigo.
E o nome do contador responsável pelo registro.
Minha mãe aproximou-se e ficou completamente imóvel.
— Não pode ser.
Olhei para ela.
— Você conhece esse nome?
Ela não respondeu.
— Mãe?
Seus olhos se encheram de lágrimas.
Meu pai tomou o documento das mãos de Natália.
Ao ler, sua expressão mudou.
Não era surpresa.
Era reconhecimento.
— Renato — minha mãe sussurrou. — Você disse que ele tinha morrido.
Peguei a folha.
O contador responsável se chamava Eduardo Sampaio.
O nome não significava nada para mim.
Até minha mãe segurar meu braço e dizer:
— Larissa... Eduardo não era apenas nosso contador.
Ela olhou para meu pai antes de terminar.
— Ele era o homem que seu pai me proibiu de mencionar desde o dia em que você nasceu.

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