Olhei para a assinatura durante tanto tempo que comecei a reconhecer cada curva. Eu a conhecia desde criança. Estava em autorizações escolares, cartões de aniversário, documentos da empresa, bilhetes deixados sobre a mesa da cozinha.
Era a assinatura da minha mãe.
— Diga que é falsa.
Helena não respondeu.
— Mãe.
Ela fechou os olhos.
— A assinatura é minha.
Meu pai recuou como se tivesse levado um golpe.
— Você sabia?
— Não do jeito que vocês estão pensando.
Eu ri, mas minha voz saiu quebrada.
— Parece que essa frase virou o lema da nossa família.
André tentou se aproximar.
— Larissa...
— Você fica calado.
Ele obedeceu.
Voltei-me para minha mãe.
— Explique.
Helena sentou-se devagar.
— Quatro anos atrás, Maurício apareceu quando seu pai estava viajando. Disse que tinham encontrado documentos antigos relacionados à herança da minha mãe e que precisavam regularizar uma empresa para impedir que o patrimônio fosse bloqueado.
— E você assinou sem ler?
— Eu li.
Aquilo foi pior.
— Então sabia que meu nome estava lá?
Ela começou a chorar.
— Não naquela versão.
André colocou a folha ao lado de outra cópia.
— Isso pode ser verdade.
Apontei para ele.
— Você sabia disso há três anos.
— Eu sabia que a assinatura de Helena era verdadeira. Não sabia em qual documento ela originalmente tinha sido colocada.
Natália aproximou as folhas.
— Maurício pode ter usado uma página assinada e anexado a outro contrato.
Minha mãe assentiu desesperadamente.
— Foi exatamente isso. O documento que assinei dizia respeito à antiga LRS. Seu nome não aparecia.
Meu pai olhou para ela.
— Por que nunca me contou?
— Porque Maurício disse que você sabia.
A expressão de Renato mudou.
Finalmente começávamos a compreender como aquele homem sobrevivera tantos anos entre nós: nunca precisava inventar uma mentira completa. Bastava usar uma verdade contra outra.
Peguei meu celular.
— Vamos acabar com isso.
André percebeu minha intenção.
— Não ligue para Maurício.
— Não vou ligar.
Telefonei para o advogado independente que recebera as cópias e pedi que encaminhasse imediatamente todo o material às autoridades competentes. Depois pedi que bloqueassem qualquer movimentação jurídica possível envolvendo a LRS em meu nome.
Meu pai me observava.
— O que você pretende fazer?
— O que vocês deveriam ter feito quatro anos atrás. Parar de resolver crimes como problemas de família.
Ninguém contestou.
Duas horas depois, recebemos a confirmação de que a tentativa de transferência dos quase três milhões havia sido suspensa. Mais importante: o pedido havia partido de uma conta corporativa vinculada a uma empresa chamada Vértice Administração Patrimonial.
Eduardo reconheceu o nome.
— Henrique mencionou essa empresa anos atrás.
Natália pesquisou os documentos.
— Quem é o proprietário?
André verificou.
— Oficialmente, uma holding estrangeira.
— E por trás dela?
— Precisamos dos registros bancários.
Meu telefone tocou.
Maurício.
Atendi.
— Você bloqueou a conta.
— Sim.
— Péssima decisão.
— Para você, talvez.
Ele ficou em silêncio.
— Você acha que sua mãe foi vítima?
Olhei para Helena.
— Tenho documentos para descobrir.
— Documentos contam apenas o que alguém decidiu escrever.
— Então apareça e conte sua versão.
Maurício riu.
— Finalmente está aprendendo.
— Onde?
Ele deu um endereço.
André imediatamente anotou.
Maurício acrescentou:
— Venha com Renato. Quero que ele ouça também.
— Não vou a lugar nenhum sem comunicar às autoridades.
Dessa vez ele não riu.
— Faça como quiser.
A ligação terminou.
O encontro seria num escritório antigo pertencente à Fundação Monteiro. Não fomos sozinhos nem escondemos nosso destino. Depois de tudo, eu não tinha intenção de repetir o padrão daquela família: segredos, encontros clandestinos e decisões tomadas em nome de outras pessoas.
Maurício já estava esperando quando chegamos.
Parecia surpreendentemente tranquilo.
Meu pai foi direto até ele.
— Você entrou na minha casa durante quinze anos.
— Você abriu a porta.
— Usou minha esposa.
— Usei a confiança dela. Há diferença.
Meu pai tentou avançar, mas segurei seu braço.
— Não viemos para isso.
Maurício olhou para mim.
— Você se parece com Luísa quando está com raiva.
— Pare de falar da minha família como se tivesse pertencido a ela.
Algo mudou em seu rosto.
— Mas eu pertenci.
Eduardo ficou rígido.
— Não faça isso.
Maurício sorriu.
— Ainda protegendo os mortos, Eduardo?
Ele colocou uma pasta sobre a mesa.
— Aqui está a versão original do documento que Helena assinou.
Minha mãe tinha dito a verdade. O papel tratava da reorganização de antigos ativos da família Sampaio. Meu nome não aparecia em lugar algum.
— Então você falsificou o restante — falei.
— Sim.
A facilidade da confissão me assustou.
— Desviou o dinheiro da fundação.
— Parte dele.
— Por quê?
— Porque aquele dinheiro nunca deveria ter pertencido aos Monteiro.
Meu pai bateu a mão na mesa.
— Você roubou crianças, hospitais, projetos sociais!
Maurício finalmente perdeu a serenidade.
— E seu pai roubou minha família primeiro!
Silêncio.
Eduardo fechou os olhos.
— Maurício...
— Conte a eles.
Olhei para Eduardo.
— Contar o quê?
Foi Maurício quem respondeu.
— Luísa Sampaio era minha mãe.
Minha respiração parou.
— Você disse que...
Olhei para Eduardo.
— Você disse que ela era sua irmã.
— Era.
Maurício deu um passo à frente.
— E também era minha mãe.
A compreensão veio lentamente e de maneira desconfortável.
Eduardo falou:
— Luísa teve Maurício muito jovem. Nossa família escondeu a gravidez. Oficialmente, ele foi criado por parentes como se fosse um primo distante.
Maurício me encarou.
— Cresci vendo sua avó construir patrimônio enquanto todos fingiam que eu não era filho dela.
— Isso não justifica nada.
— Não. Mas explica por que comecei.
— E Henrique?
— Henrique descobriu quem eu era. Primeiro me ajudou. Depois tentou me controlar.
— Então vocês criaram o esquema juntos.
Maurício não respondeu.
Foi resposta suficiente.
Ouvi movimento no corredor. Ele também.
Seu rosto mudou.
Sabia que não tinha muito tempo.
— Você queria a verdade, Larissa? Então procure na Vértice.
— O que existe lá?
— O dinheiro não é a parte importante.
Ele pegou o casaco.
— O que então?
Maurício olhou diretamente para André.
— Pergunte quem financiou o escritório dele durante os primeiros dois anos da investigação.
Virei-me.
André ficou pálido.
— Não.
Maurício sorriu.
— Ainda não contou isso também?
Senti meu estômago se contrair.
— André.
Ele não conseguiu responder.
Maurício passou por nós justamente quando duas pessoas entraram no corredor para conduzi-lo a prestar esclarecimentos.
Antes de sair, inclinou-se ligeiramente na minha direção.
— Eu planejei muitas coisas, Larissa. Mas não planejei seu romance.
Olhei para André.
Maurício terminou:
— O homem que pagava o salário dele enquanto ele se aproximava de você era Henrique Monteiro.
A porta fechou.
Ficamos em silêncio.
Eu me virei para o homem com quem deveria ter me casado naquela manhã.
— Diga que isso também é mentira.
André não disse.
Em vez disso, colocou lentamente sobre a mesa uma chave que eu nunca tinha visto.
Nela estava gravado o símbolo da Vértice.
— Henrique me deu isso três anos atrás — confessou. — E existe uma sala dentro daquela empresa que eu nunca tive coragem de mostrar a você.
— O que tem lá?
André levantou os olhos.
— Um arquivo inteiro sobre você.
Minha garganta secou.
— Desde quando?
Ele demorou alguns segundos.
— Desde antes de você nascer.

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