Fiquei olhando para a tela até as palavras perderem o sentido. Eduardo Sampaio está esperando por você. Minha primeira reação foi pensar em uma armadilha. A segunda foi pior: se alguém sabia que tínhamos encontrado a carta, então nos observava havia muito mais tempo do que imaginávamos.
Mostrei a mensagem a André. Ele leu e imediatamente balançou a cabeça.
— Você não vai.
— Não pedi sua autorização.
A frase saiu mais dura do que eu pretendia. Vi a dor atravessar o rosto dele, mas não me arrependi.
Natália aproximou-se.
— O endereço fica onde?
Pesquisei no mapa. Era um galpão antigo numa região industrial a quase quarenta minutos dali.
Meu pai tomou o telefone da minha mão.
— Isso acabou. Vou chamar a polícia.
— E contar o quê? — perguntei. — Que um homem que você afirma estar morto quer falar comigo sobre milhões desviados através de uma empresa aberta no meu nome?
— Exatamente.
— E quando perguntarem por que você escondeu tudo durante quatro anos?
Ele não respondeu.
Minha mãe sentou-se no sofá.
— Eduardo não escolheria aquele lugar por acaso.
— Você conhece? — perguntei.
— Era um depósito da primeira empresa do seu avô.
André pegou a chave do carro.
— Então ninguém vai sozinho.
Eu deveria ter recusado. Ainda estava furiosa com ele. Mas havia uma diferença entre confiar em André e reconhecer que alguém tinha acabado de fotografar nossa chegada escondido do lado de fora.
Troquei o vestido de noiva por roupas que minha mãe guardava no meu antigo quarto. Quando desci, meu casamento parecia ter acontecido meses antes.
Fomos em dois carros. Meu pai insistiu em acompanhar, mas minha mãe ficou em casa. Antes de eu sair, ela segurou meu rosto.
— Se for realmente Eduardo, não acredite em tudo imediatamente.
— Você acha que ele pode mentir?
Ela me encarou com tristeza.
— Acho que todos nós mentimos quando acreditamos que a verdade pode nos custar alguém.
Chegamos ao galpão pouco depois das onze. O portão estava entreaberto. Não havia carros no pátio.
Entramos.
— Eduardo? — chamei.
Nada.
André caminhava ao meu lado. Natália vinha alguns passos atrás e meu pai permaneceu próximo à porta.
Então uma luz acendeu no fundo.
Um homem apareceu.
Devia ter pouco mais de sessenta anos. Cabelos grisalhos, rosto magro, uma cicatriz discreta junto à sobrancelha. Ele me olhou como alguém que havia esperado aquele momento durante muito tempo.
— Larissa.
Meu pai empalideceu.
— Eduardo.
A voz dele confirmou tudo.
O homem sorriu tristemente.
— Você realmente contou que eu estava morto.
— Você deveria ter ficado longe.
— Eu fiquei. Por vinte e nove anos.
Olhei de um para o outro.
— Chega. Quero saber por que meu nome está na LRS.
Eduardo não desviou.
— Porque LRS nunca significou Larissa como todos pensaram.
André franziu a testa.
— Então o quê?
— Luísa, Renato e Sampaio.
Meu pai deu um passo à frente.
— Cale a boca.
— Quem é Luísa? — perguntei.
Eduardo me observou.
— Sua avó.
Meu coração acelerou.
— Minha avó se chamava Beatriz.
— A mãe de Renato, sim.
O silêncio seguinte foi devastador.
Olhei para meu pai.
Ele estava olhando para o chão.
— Que avó? — perguntei.
Eduardo respirou profundamente.
— A mãe de Helena.
Senti como se alguém tivesse deslocado todas as peças da minha infância.
— Minha avó materna morreu antes de eu nascer.
— Foi isso que disseram a você.
Meu pai avançou.
— Não coloque isso na cabeça dela!
— Ela já tem vinte e nove anos, Renato. Você não pode continuar decidindo quais partes da própria vida ela merece conhecer.
— Então fale — eu disse. — Tudo.
Eduardo caminhou até uma mesa metálica. Havia uma caixa de documentos.
— Luísa Sampaio era minha irmã.
Olhei para ele.
— Então você é irmão da minha avó?
— Sim.
— Meu tio-avô.
— Sim.
Uma parte de mim sentiu alívio. Por alguns minutos eu havia temido uma revelação ainda mais dolorosa sobre minha origem.
Eduardo abriu a caixa.
— Luísa criou uma empresa com Renato e comigo quando vocês ainda eram jovens. O objetivo era administrar propriedades e investimentos. Depois ela adoeceu.
Meu pai finalmente falou:
— Ela pediu que eu assumisse.
— Temporariamente — corrigiu Eduardo. — Até Helena poder administrar a parte dela.
Olhei para meu pai.
— Você ficou com patrimônio da família da minha mãe?
— Não foi assim.
Eduardo colocou um documento diante de mim.
— Luísa deixou cinquenta por cento para Helena. Depois do nascimento da primeira filha de Helena, metade dessa participação passaria para a criança.
— Para mim.
— Exatamente.
Comecei a entender.
— Então alguém recriou a LRS quatro anos atrás usando meu nome porque...
André terminou:
— Porque precisava movimentar patrimônio que legalmente poderia pertencer a Larissa.
Eduardo assentiu.
Meu pai parecia devastado.
— Eu nunca roubei Larissa.
— Então quem roubou? — perguntei.
— Eu estava tentando descobrir.
— Durante vinte e nove anos?
— Você não entende.
— Então faça eu entender!
Meu grito ecoou pelo galpão.
Meu pai passou as mãos pelo rosto.
— Quando Luísa morreu, descobrimos que parte dos documentos tinha desaparecido. Eduardo acusou meu pai. Meu pai acusou Eduardo. Depois houve ameaças, chantagem, processos que nunca chegaram aos tribunais. Eu tinha uma esposa grávida e não sabia em quem confiar.
Eduardo abriu outra pasta.
— Renato está dizendo a verdade sobre uma coisa. Ele não começou isso.
Olhei para ele.
— Quem começou?
— Seu avô paterno.
Meu pai fechou os olhos.
Eduardo continuou:
— Mas quatro anos atrás alguém retomou o esquema. Usou a antiga LRS como modelo, falsificou seus documentos e começou a retirar dinheiro da fundação.
— Maurício?
— Ele participou.
— Participou?
— Maurício não tinha autoridade suficiente para fazer tudo sozinho.
André se aproximou.
— Então havia outra pessoa.
Eduardo assentiu.
— Alguém com acesso às assinaturas de Renato, aos documentos pessoais de Larissa e aos arquivos antigos de Luísa.
Meu pai ergueu a cabeça.
— Quem?
Eduardo abriu uma pasta vermelha.
Antes que pudesse responder, ouvimos um barulho metálico do lado de fora.
Natália correu até a janela.
— Tem alguém no pátio.
As luzes se apagaram.
No escuro, ouvi papéis caírem e alguém correr.
Quando as luzes de emergência acenderam, Eduardo estava no chão tentando recolher a pasta.
Mas uma folha havia desaparecido.
André correu para a porta.
Tarde demais.
Um carro arrancou do pátio.
Natália, porém, segurava algo que encontrara sob a mesa: uma fotografia antiga que caíra da pasta.
Havia quatro pessoas nela.
Eduardo. Minha mãe. Meu pai.
E uma quarta pessoa muito mais jovem.
Reconheci imediatamente aquele rosto.
— Não...
André olhou por cima do meu ombro.
Era Maurício.
No verso da fotografia havia uma data de quase trinta anos atrás e uma frase escrita pela minha avó Luísa:
“Se alguma coisa acontecer comigo, não confiem em Maurício.”
Eduardo olhou para mim.
— Agora você entende por que ele não apareceu na vida da sua família há quinze anos, Larissa.
Meu coração parou por um instante.
— Como assim?
Eduardo respondeu:
— Maurício não conhece seu pai há vinte e dois anos.
Ele apontou para a fotografia.
— Ele conhece Renato desde antes de você nascer. E entrou novamente na vida dele usando outro sobrenome.

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