A frase da minha mãe ficou suspensa entre nós. Eu continuava segurando o documento da LRS Participações, mas já não conseguia prestar atenção nos números. Havia apenas um nome diante dos meus olhos: Eduardo Sampaio.
— Desde o dia em que eu nasci? — perguntei. — O que esse homem tem a ver comigo?
Minha mãe olhou para meu pai. Renato apertava os lábios, tentando manter uma calma que já havia perdido muito antes de sairmos do salão.
— Helena, não.
Foi a primeira vez naquela noite que ouvi meu pai falar com medo.
Minha mãe virou-se para ele.
— Você teve vinte e nove anos para contar.
Senti um arrepio.
— Contar o quê?
— Não é o momento — meu pai insistiu.
— Meu casamento acabou há vinte minutos, descobri que alguém desviou milhões usando meu nome e agora existe um homem que vocês escondem de mim desde que nasci. Qual seria exatamente o momento certo?
Minha mãe fechou os olhos por um instante.
— Eduardo trabalhou com seu avô antes de eu conhecer Renato. Ele cuidava de parte da contabilidade das empresas da família.
— E por que foi proibido mencionar o nome dele?
— Porque ele desapareceu.
Meu pai soltou uma respiração pesada.
— Helena.
— Chega, Renato.
Ela segurou minha mão.
— Pouco antes de você nascer, Eduardo descobriu irregularidades em algumas empresas do seu avô. Ele dizia que existiam contas paralelas e patrimônios registrados em nomes de terceiros.
Olhei para meu pai.
— Isso começou antes da fundação?
Ele permaneceu em silêncio.
Minha mãe continuou:
— Eduardo queria denunciar tudo. Algumas semanas depois, simplesmente sumiu. Renato me disse que ele tinha sofrido um acidente fora do país.
— E você acreditou?
— Durante muitos anos.
Natália se aproximou.
— Se Eduardo desapareceu há quase trinta anos, como ele abriu a LRS quatro anos atrás?
Ninguém respondeu.
Era exatamente a pergunta que atravessava minha cabeça.
André pegou o documento.
— Talvez não tenha sido ele.
— O registro tem o nome dele — respondi.
— Nome não significa presença. Se falsificaram sua assinatura, poderiam usar os dados de um homem morto.
Minha mãe balançou a cabeça.
— Não.
Todos olharam para ela.
— Por quê? — perguntei.
Ela levou alguns segundos para responder.
— Porque há quatro anos eu vi Eduardo.
Meu pai ficou imóvel.
— O quê?
— Ele apareceu na minha casa.
A voz de Renato explodiu.
— Você nunca me contou isso!
— Porque ele me pediu.
Meu pai avançou, mas André colocou-se instintivamente entre os dois.
— Onde? Quando? — perguntei.
— Pouco antes de Natália ser demitida. Você estava viajando por causa de um projeto. Eduardo apareceu numa tarde. Estava mais velho, diferente, mas eu o reconheci imediatamente.
— E o que ele queria?
Minha mãe olhou para mim.
— Saber se você estava bem.
Aquilo não fazia sentido.
— Por que um antigo contador da família apareceria depois de décadas apenas para perguntar por mim?
Minha mãe começou a chorar.
Meu pai virou o rosto.
E naquele instante compreendi que a verdadeira resposta ainda não tinha sido dita.
— Mãe, olha para mim.
Ela obedeceu.
— Quem era Eduardo para você?
— Larissa...
— Quem era ele?
Meu pai respondeu antes dela.
— Ninguém.
Minha mãe virou-se furiosa.
— Não faça isso outra vez!
Nunca tinha ouvido minha mãe gritar com ele.
— Você apagou aquele homem da nossa vida, destruiu cartas, inventou uma morte e agora quer continuar mentindo?
Meu peito apertou.
— Cartas?
Ela assentiu.
— Eduardo escreveu durante anos.
— Para quem?
Minha mãe não respondeu.
Eu já sabia.
— Para mim?
Ela começou a chorar mais.
— Algumas eram para você.
De repente, meu pai parecia ter envelhecido dez anos.
— Eu estava protegendo nossa família.
— De quê? — perguntei.
— De um homem perigoso.
— Então me mostre as cartas.
Ele ficou em silêncio.
Minha mãe enxugou o rosto.
— Eu guardei uma.
Meu pai se virou.
— Você disse que tinha queimado todas.
— Eu menti.
Por algum motivo, ouvir minha mãe admitir aquilo quase me deu vertigem. Minha família inteira parecia construída sobre pequenos segredos guardados por pessoas que acreditavam estar protegendo umas às outras.
Voltamos para dentro pela entrada lateral. Os convidados estavam sendo dispensados. Ninguém tentou me impedir quando atravessei o corredor ainda vestida de noiva.
Minha mãe nos levou até uma pequena sala reservada onde havia deixado sua bolsa.
Do fundo dela, retirou uma chave.
— A carta está em casa.
— Então vamos.
Meu pai segurou meu braço.
— Larissa, você precisa entender uma coisa antes de ler qualquer coisa que Eduardo tenha escrito. Ele era manipulador.
Afastei sua mão.
— Talvez. Mas você mentiu para mim. Então, neste momento, não sei qual dos dois merece menos confiança.
Quarenta minutos depois, entramos na casa onde cresci.
Minha mãe subiu diretamente para o quarto. Voltou trazendo uma caixa de madeira que eu reconheci como pertencente à minha avó.
Dentro havia fotografias antigas, documentos e, no fundo, um envelope amarelado.
Meu nome estava escrito à mão.
Para Larissa.
Minha mãe me entregou.
— Ele escreveu isso quando você tinha seis anos.
Abri.
A carta era curta.
Eduardo dizia que esperava que algum dia eu pudesse perdoá-lo por ter desaparecido. Dizia que havia cometido erros, mas que partir fora a única maneira de manter “Helena e a menina” seguras.
Então encontrei uma frase que precisei ler três vezes.
“Quando Larissa tiver idade suficiente, ela precisa saber que aquilo que Renato chama de herança nunca pertenceu verdadeiramente a ele.”
Olhei para meu pai.
— Que herança?
Renato não respondeu.
André aproximou-se para ler.
Mais abaixo havia outra frase:
“Os documentos verdadeiros estão onde tudo começou. Helena sabe o lugar.”
Olhei para minha mãe.
Ela estava branca.
— Onde?
— Na antiga casa do seu avô.
Meu pai imediatamente balançou a cabeça.
— A casa foi vendida há quinze anos.
— Não foi — disse minha mãe.
Renato congelou.
— O quê?
— Seu pai nunca vendeu aquela propriedade. Ele transferiu para uma empresa.
André e Natália trocaram um olhar.
— Qual empresa? — perguntou André.
Minha mãe abriu a boca, mas meu celular vibrou.
Número desconhecido.
Havia uma fotografia anexada.
Era uma imagem tirada poucos minutos antes, diante da casa dos meus pais.
Mostrava nós cinco entrando.
Alguém estava nos seguindo.
Abaixo da fotografia havia apenas uma mensagem:
“Se encontraram a carta de Eduardo, vocês já foram longe demais.”
Antes que eu pudesse mostrar aos outros, chegou uma segunda mensagem.
Dessa vez havia um endereço.
E uma frase:
“Venha sozinha, Larissa. Eduardo Sampaio está esperando por você.”

No comments yet