Meu pai quis ir comigo à clínica. Dessa vez, não discuti. Se Henrique Monteiro realmente estava vivo, Renato merecia descobrir olhando para ele, não através de mais um documento. André, Natália e Eduardo também vieram, mas pedi que esperassem do lado de fora enquanto eu e meu pai entrávamos.
A Clínica Santa Augusta havia mudado de nome duas vezes em dezenove anos. Hoje funcionava principalmente como centro de reabilitação particular. Uma funcionária nos levou até o arquivo depois que meu pai apresentou documentos que comprovavam o parentesco.
— Henrique Monteiro faleceu aqui? — perguntei.
A responsável pelo arquivo digitou o nome.
— Segundo nosso sistema antigo, sim. Insuficiência cardíaca. Dezessete de setembro.
Meu pai assentiu.
— Eu reconheci o corpo.
Olhei para ele.
— Você viu o rosto?
A pergunta pareceu ofendê-lo.
— Era meu tio.
— Viu?
Ele demorou.
— O acidente anterior tinha causado lesões. O rosto estava parcialmente coberto.
Meu estômago apertou.
— Quem confirmou a identidade?
A funcionária abriu o registro digitalizado.
Seu semblante mudou.
— Isso é estranho.
— O quê?
— O médico responsável pelo atestado não trabalhava aqui.
— Nome? — perguntei.
Ela virou a tela.
Dr. Maurício Ferraz.
Meu pai se levantou tão abruptamente que a cadeira bateu na parede.
— Ele nunca me disse que era médico.
— Talvez porque não fosse — respondi.
A funcionária verificou outro banco de dados interno.
— Há mais uma inconsistência. O corpo foi retirado poucas horas depois, antes do procedimento padrão de identificação complementar.
— Por quem?
Ela ampliou uma assinatura.
O sobrenome estava quase ilegível, mas Eduardo, chamado para entrar, reconheceu imediatamente.
— Henrique.
Meu pai olhou para ele.
— Está dizendo que Henrique assinou a retirada do próprio corpo?
— Estou dizendo que alguém usou a assinatura dele.
Natália pediu cópias de tudo. Enquanto aguardávamos, André recebeu uma ligação. A expressão dele mudou.
— Era um antigo colega do escritório. Pedi que verificasse a LRS discretamente.
— E?
— Houve uma tentativa de transferência esta manhã.
— Quanto?
— Todo o saldo restante. Quase três milhões.
Natália respirou fundo.
— Maurício está fugindo.
— Não necessariamente — disse Eduardo. — Talvez esteja limpando as contas.
Meu telefone vibrou.
Dessa vez era minha mãe.
Atendi imediatamente.
— Larissa, tem alguém aqui.
Meu corpo inteiro ficou tenso.
— Onde?
— Do lado de fora de casa. Um carro preto está parado desde que vocês saíram.
Meu pai tomou o telefone.
— Helena, tranque tudo. Estou voltando.
Mas antes que desligasse, minha mãe ficou em silêncio.
— Helena?
Ouvi uma campainha ao fundo.
Depois sua voz:
— Renato...
— Não abra.
— Eu conheço esse homem.
A ligação caiu.
Corremos.
Foram os vinte minutos mais longos da minha vida. Quando chegamos, o carro preto não estava mais lá.
A porta da casa estava aberta.
— Mãe!
Entrei correndo.
Ela estava na sala.
Sozinha.
Inteira.
Mas chorava.
Sobre a mesa havia uma pasta.
Meu pai segurou seus ombros.
— Quem esteve aqui?
Minha mãe olhou para ele.
— Henrique.
Ninguém falou.
— Você tem certeza? — perguntei.
— Absoluta.
Ela respirou com dificuldade.
— Está velho, mas era ele.
Meu pai parecia incapaz de aceitar.
— O que ele queria?
— Entregar isso.
Abri a pasta.
Havia extratos bancários, cópias de documentos e uma gravação em um pequeno dispositivo digital.
Minha mãe apontou.
— Ele pediu que Larissa ouvisse.
Liguei.
Uma voz masculina preencheu a sala.
— Se você está ouvindo isto, Larissa, então Maurício já percebeu que perdeu o controle.
Olhei para os outros.
Henrique continuou:
— Eu deixei que minha família acreditasse que estava morto porque era a única maneira de sair do esquema sem colocar Renato e Helena na linha de fogo. Não tenho orgulho disso.
Meu pai apertou os punhos.
— Covarde.
A gravação prosseguiu.
— Maurício nunca quis apenas dinheiro. Ele queria controlar a estrutura criada pelas duas famílias. Durante décadas, usou segredos para colocar Monteiros contra Sampaios.
Então veio a parte que fez Eduardo se aproximar do aparelho.
— Quando Luísa descobriu tudo, tentou denunciá-lo. Eu deveria tê-la ajudado. Em vez disso, aceitei esconder documentos porque Maurício tinha provas de crimes cometidos pelo meu irmão. Passei anos tentando desfazer o que fiz.
A gravação terminou com uma instrução.
— Na pasta há uma conta que Maurício acredita estar protegida. Não está. Se ele movimentar o dinheiro, vocês poderão rastreá-lo até o beneficiário final.
André abriu os extratos.
— Isso é suficiente.
— Para quê? — perguntei.
— Para parar de correr atrás dele e fazê-lo vir até nós.
Meu pai franziu a testa.
— Como?
— Maurício acha que Henrique ainda possui alguma coisa capaz de destruí-lo. Nós fazemos ele acreditar que Larissa recebeu essa prova.
Natália olhou para mim.
— E você vira a isca.
André imediatamente balançou a cabeça.
— Não.
Olhei para ele.
— Engraçado. Três anos atrás você decidiu entrar na minha vida para investigar tudo isso sem me consultar. Agora não decide mais.
Ele ficou em silêncio.
Pela primeira vez, não havia resposta.
Nas horas seguintes, entregamos cópias dos documentos a um advogado independente e formalizamos o material necessário para encaminhá-lo às autoridades. Não pretendíamos enfrentar Maurício sozinhos. Mas queríamos descobrir quem ainda trabalhava com ele antes que todas as contas fossem esvaziadas.
Natália enviou de um endereço antigo uma mensagem que sabia que chegaria até Maurício:
“Larissa encontrou o arquivo completo de Luísa.”
A resposta veio vinte e sete minutos depois.
Não para Natália.
Para mim.
“Você não sabe o que encontrou.”
Respondi apenas:
“Sei o suficiente.”
Ele ligou.
Coloquei no viva-voz.
— Larissa — disse a voz que eu conhecia desde adolescente. A voz do homem que frequentara aniversários, jantares e reuniões familiares. — Você está cometendo o mesmo erro que sua avó.
— Confiar em você?
Ele riu baixo.
— Confiar em Renato.
Meu pai ficou rígido.
— O que você quer?
— Uma troca. O arquivo pelo documento que prova quem realmente autorizou a abertura da LRS quatro anos atrás.
Olhei para André.
— Eu já sei que foi você.
Maurício riu novamente.
— Não, Larissa. Eu executei.
Meu coração acelerou.
— Então quem autorizou?
Houve alguns segundos de silêncio.
— Pergunte ao seu noivo por que ele nunca mostrou a você a primeira página do contrato que encontrou.
Virei lentamente para André.
Seu rosto mudou.
— André?
Maurício desligou.
André permaneceu parado.
— Ele está tentando colocar você contra mim.
— Então mostre a primeira página.
Silêncio.
Natália encarou André.
— Você disse que ela tinha sido destruída.
Ele fechou os olhos.
— Eu menti.
Senti uma dor quase física.
— De novo.
André abriu sua pasta, retirou o forro interno e puxou uma folha dobrada que estivera escondida ali durante todo aquele tempo.
Colocou-a sobre a mesa.
Era a autorização original para constituir a nova LRS Participações.
Maurício aparecia como procurador.
Mas acima de sua assinatura havia outra.
A pessoa que autorizara toda a operação.
Minha mãe começou a chorar antes mesmo de eu terminar de ler.
Meu pai simplesmente ficou imóvel.
Porque aquela assinatura não pertencia a Maurício.
Nem a Henrique.
Pertencia a Helena Monteiro.
Minha própria mãe.

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