Meu pai arrancou a fotografia das mãos de Natália e aproximou-a da luz de emergência. Durante alguns segundos, apenas encarou o rosto jovem de Maurício como se estivesse tentando obrigar aquela imagem a pertencer a outra pessoa.
— Não é possível.
Eduardo se levantou lentamente.
— O nome dele naquela época era Maurício Ferraz.
— Eu conheci Maurício Valente quinze anos atrás.
— Você reencontrou Maurício quinze anos atrás.
Renato passou a mão pela testa.
— Por que eu não o reconheci?
— Porque quando vocês se conheceram ele tinha vinte e poucos anos, usava outro sobrenome e trabalhava como assistente do escritório que cuidava das empresas de Luísa. Vocês se viram poucas vezes. Depois ele desapareceu. Quinze anos mais tarde voltou com barba, outra aparência, outro currículo e uma história cuidadosamente construída.
Eu me aproximei.
— E meu avô?
Eduardo demorou a responder.
— Seu avô paterno descobriu que Maurício estava copiando documentos das empresas. Só que, em vez de denunciá-lo, começou a usá-lo.
— Para quê?
— Para esconder patrimônio.
Meu pai sentou-se numa cadeira de metal.
Pela primeira vez naquela noite, não parecia o poderoso Renato Monteiro. Parecia apenas um homem percebendo que alguém havia passado anos manipulando sua confiança.
André voltou do pátio.
— Não consegui ver a placa.
— Levaram qual documento? — perguntei.
Eduardo verificou a pasta.
Seu rosto endureceu.
— A procuração original de Luísa.
— Por que ela era importante?
— Porque provava quem poderia administrar os bens depois da morte dela.
— Quem?
Ele olhou para minha mãe ausente, como se lamentasse que Helena não estivesse ali para ouvir.
— Sua mãe.
Aquilo mudou tudo.
Se Helena tinha direito legal sobre o patrimônio, alguém havia passado décadas escondendo não apenas dinheiro, mas a própria posição dela dentro daquela história.
Natália cruzou os braços.
— Maurício levou a única cópia?
Eduardo balançou a cabeça.
— Não.
Meu pai ergueu os olhos.
— Onde está o original?
— Nunca esteve comigo.
Eduardo me encarou.
— Luísa não confiava completamente em ninguém. Nem em mim. Ela guardou os originais em outro lugar.
— Onde?
— Não sei. Mas deixou uma pista.
Ele abriu um envelope menor e retirou uma fotografia da antiga casa do meu avô materno. No verso havia uma frase escrita à mão: “Onde Helena aprendeu a guardar segredos.”
Reconheci a casa imediatamente. Eu tinha visto fotografias dela quando criança.
— Minha mãe sabe.
— Provavelmente — disse Eduardo.
Voltamos para a casa dos meus pais perto da meia-noite.
Minha mãe estava esperando na sala. Quando viu a fotografia de Maurício jovem, precisou se apoiar no sofá.
— Eu sabia que conhecia aquele olhar.
Meu pai virou-se para ela.
— Você também não reconheceu?
— Eu o vi duas ou três vezes quando era jovem. Depois de tantos anos...
Ela passou o dedo sobre a fotografia.
— Minha mãe não gostava dele.
Contei sobre a procuração.
Minha mãe ficou em silêncio.
— “Onde Helena aprendeu a guardar segredos” — repeti. — O que significa?
Ela me olhou por alguns segundos.
Então levantou-se.
— A antiga casa.
Meu pai suspirou.
— Helena, a propriedade está abandonada há anos.
— Não é a casa inteira.
Ela pegou as chaves.
— É meu quarto.
Chegamos à propriedade depois da uma da manhã. Era uma construção grande, antiga, cercada por árvores. Minha mãe encontrou uma chave escondida dentro de um pequeno compartimento no chaveiro.
— Você guardou isso durante todo esse tempo? — perguntei.
— Minha mãe me pediu para nunca jogar fora.
Subimos para o segundo andar. O antigo quarto de Helena ainda conservava um armário embutido.
Minha mãe ajoelhou-se diante dele.
— Quando eu tinha dezesseis anos, escondia meu diário atrás dessa madeira.
Ela pressionou uma pequena moldura lateral.
Uma placa se soltou.
Havia um compartimento.
Dentro, uma caixa metálica.
Meu coração acelerou.
Minha mãe abriu.
Encontramos a procuração original, registros de propriedades e uma escritura que transferia parte do patrimônio de Luísa para Helena e para sua primeira filha.
Para mim.
André analisava cada folha.
— Com isso, podemos provar que parte dos ativos usados para criar a nova LRS veio de patrimônio que nunca poderia ter sido controlado por Maurício.
Natália retirou outro documento.
— Tem mais.
Era uma relação de contas bancárias antigas.
Ao lado de algumas havia iniciais.
M.V.
Maurício Valente.
Ou Maurício Ferraz.
Meu pai se aproximou.
— Esse homem entrou na minha fundação para terminar o que começou com meu pai.
Eduardo assentiu.
— E durante quinze anos você deu a ele acesso a tudo.
Renato fechou os olhos.
Eu deveria sentir pena dele. Não consegui.
— Amanhã levamos tudo às autoridades.
— Não — disse André.
Olhei para ele.
— Por quê?
— Porque Maurício sabe que encontramos alguma coisa. Se perceber que temos os originais, pode desaparecer antes de conseguirmos descobrir para onde foi o dinheiro.
— Então o que você sugere?
André pensou por alguns segundos.
— Fazemos ele acreditar que levou o único documento importante.
Natália entendeu primeiro.
— E esperamos que ele tente movimentar o dinheiro.
André assentiu.
Meu pai encarou-o.
— Isso é arriscado.
— Mentir para Larissa durante três anos também foi — respondeu André. — Desta vez, pelo menos, ela decide.
Todos olharam para mim.
Eu estava prestes a responder quando minha mãe encontrou algo no fundo da caixa.
Um envelope lacrado.
Na frente estava escrito:
“Para minha neta Larissa. Entregar somente se Renato Monteiro ainda estiver na família.”
Meu pai empalideceu.
— Eu nunca vi isso.
Minha mãe entregou o envelope a mim.
Quebrei o lacre.
Dentro havia apenas uma página e uma pequena chave numerada.
Comecei a ler.
Minha avó explicava que havia separado documentos capazes de provar toda a origem do patrimônio. Mas a última parte da carta fez minhas mãos tremerem.
“Larissa, se você estiver lendo isto, precisa saber que Renato talvez tenha passado a vida acreditando numa mentira tão grande quanto a sua.”
Olhei para meu pai.
Continuei lendo.
“O homem que Renato chama de pai não foi quem assinou os documentos que destruíram nossa família.”
A linha seguinte continha outro nome.
E, ao lê-lo, Eduardo deu um passo para trás.
Minha mãe levou a mão à boca.
Porque o responsável indicado por Luísa não era meu avô.
Era alguém que ainda estava vivo.
Maurício Ferraz.

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