Bruno continuou imóvel diante do portão, como se Eduardo tivesse acabado de falar em outra língua. Por alguns segundos, até os vizinhos pareceram esquecer que estavam assistindo. Patrícia foi a primeira a reagir.
— Isso é mentira.
Eduardo não respondeu a ela. Abriu calmamente a pasta que carregava e retirou uma cópia dobrada de um documento.
— Não precisamos discutir sobre o que está registrado em cartório.
Bruno olhou para mim.
— Mariana, que história é essa?
A pergunta quase me fez rir. Não porque houvesse alguma graça naquela manhã, mas porque, quinze minutos antes, ele não queria ouvir nada. Já tinha me julgado, condenado e colocado minhas malas na rua. Agora, de repente, queria explicações.
Abaixei-me, peguei uma das malas e a coloquei de pé.
— A casa foi comprada por mim onze meses antes do nosso casamento.
— Com que dinheiro?
A maneira como ele perguntou doeu mais do que deveria. Durante seis anos, Bruno havia se acostumado a acreditar que tudo o que tínhamos começara com ele. Eu nunca fiz questão de corrigir essa impressão porque não imaginava que um dia precisaria provar que minha vida existia antes daquele casamento.
— Com o dinheiro da venda do apartamento da minha mãe e com minhas economias.
Patrícia desceu os degraus.
— Mas o Bruno reformou essa casa.
— E eu paguei grande parte da reforma — respondi.
Bruno arrancou o documento das mãos de Eduardo. Seus olhos correram pelas linhas até encontrarem meu nome.
Mariana Alves Ribeiro.
Proprietária.
Ele empalideceu.
— Por que você nunca me contou?
— Eu contei.
— Não contou.
— No primeiro mês em que começamos a morar juntos. Você disse que não se importava com papelada porque depois do casamento tudo seria “nosso”.
Ele abriu a boca, mas não respondeu. Eu me lembrava perfeitamente daquela conversa. Na época, achei a frase romântica. Agora ela parecia apenas conveniente.
Eduardo finalmente interferiu.
— Mariana, precisamos entrar.
Bruno ergueu os olhos.
— Ninguém vai entrar na minha...
Ele parou antes de terminar.
Eduardo fechou a pasta.
— É justamente sobre isso que precisamos conversar.
Eu senti meu estômago apertar. A noite anterior inteira voltou à minha cabeça: o telefonema às sete e vinte, a viagem apressada até São José dos Pinhais, as horas dentro de um escritório iluminado por lâmpadas frias e, principalmente, o envelope que Eduardo havia colocado diante de mim pouco antes da meia-noite.
Eu ainda não conseguia acreditar no que havia dentro dele.
Bruno percebeu minha expressão.
— O que aconteceu ontem?
Dessa vez havia menos raiva em sua voz.
Havia medo.
Peguei a segunda mala.
— Primeiro você vai tirar minhas coisas da calçada.
Patrícia soltou uma exclamação indignada.
— Você está ameaçando meu irmão?
Olhei diretamente para ela.
— Não. Estou dando a ele a oportunidade de desfazer uma humilhação que decidiu fazer em público.
Bruno ficou vermelho. Os vizinhos ainda observavam. Depois de alguns segundos, ele pegou uma das malas e entrou com ela. Patrícia permaneceu parada, furiosa.
Quando atravessei o portão, senti algo estranho. A casa era minha, mas pela primeira vez em anos parecia um lugar desconhecido.
Na sala, Bruno largou a mala perto do sofá.
— Agora fala.
Eduardo colocou a pasta sobre a mesa.
— Ontem à tarde, Mariana recebeu uma ligação minha porque encontrei uma irregularidade durante a análise de documentos ligados ao imóvel.
Bruno franziu a testa.
— Que irregularidade?
Eduardo olhou para mim, deixando que eu decidisse.
Respirei fundo.
— Alguém tentou usar esta casa como garantia de uma dívida.
O silêncio que veio depois foi absoluto.
Bruno piscou.
— O quê?
— Uma dívida de quatrocentos e oitenta mil reais.
Patrícia levou a mão à boca, mas foi rápido demais. Um gesto pequeno, quase insignificante.
Eu vi.
Eduardo também.
Bruno, não.
— Isso é impossível — ele disse. — Você teria que assinar.
— Exatamente.
Retirei do envelope uma cópia do documento que eu passara metade da noite examinando.
Coloquei sobre a mesa.
— E alguém assinou.
Bruno se aproximou. Vi sua expressão mudar quando encontrou a assinatura atribuída a mim.
— Você está dizendo que falsificaram sua assinatura?
— Estou dizendo que essa assinatura não é minha.
Ele levantou a cabeça lentamente.
— E você acha que fui eu?
Eu queria responder que não. Queria dizer que, apesar daquela manhã, apesar das acusações, apesar das malas na calçada, eu ainda não acreditava que meu marido fosse capaz daquilo.
Mas Eduardo puxou outro papel.
— Há mais.
Patrícia se virou imediatamente.
— Bruno, eu preciso ir.
A rapidez com que ela caminhou em direção à porta fez alguma coisa dentro de mim se encaixar.
— Patrícia.
Ela parou.
— Por que tanta pressa?
— Tenho minha vida, Mariana. Não vou ficar assistindo a mais um dos seus teatros.
Eduardo abriu o último documento.
— Talvez devesse ficar.
Patrícia olhou para ele.
Eduardo apontou para uma linha no formulário da operação financeira.
— Porque o telefone informado pela pessoa que apresentou esses documentos não é o número de Bruno.
Meu marido aproximou o rosto do papel.
— De quem é?
Eu já sabia.
Descobrira poucas horas antes.
Mesmo assim, ouvir Eduardo dizer aquilo dentro da nossa sala fez meu corpo inteiro esfriar.
— O número está registrado em nome de Patrícia Ferreira.
Bruno virou-se lentamente para a irmã.
Patrícia perdeu a cor.
— Isso não prova nada.
— Então explica — ele disse.
Ela recuou um passo.
— Bruno...
— Explica!
Foi quando o celular de Patrícia tocou dentro da bolsa.
Ela não tentou atender.
Mas Eduardo olhou para a tela acesa através da abertura da bolsa e ficou rígido.
— Mariana.
A maneira como ele pronunciou meu nome me fez aproximar.
Patrícia tentou fechar a bolsa, mas Bruno foi mais rápido. Puxou o celular antes que ela pudesse impedir.
Na tela havia apenas um nome.
Renato.
Bruno encarou a irmã como se tivesse levado um golpe.
Eu ainda não entendia.
— Quem é Renato?
Bruno não respondeu.
Patrícia fechou os olhos.
Então meu marido olhou para mim, e toda a raiva daquela manhã havia desaparecido.
— Mariana... Renato é o homem para quem eu devia dinheiro antes de conhecer você.







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