Por alguns segundos, ninguém disse nada. O celular de Patrícia continuava vibrando na mão de Bruno, insistente, enquanto o nome Renato permanecia aceso na tela. Eu olhava para meu marido tentando entender como uma dívida anterior ao nosso casamento podia ter atravessado tantos anos sem que eu soubesse de absolutamente nada.
— Quanto? — perguntei.
Bruno desviou os olhos.
— Mariana...
— Quanto você devia para ele?
— Não importa mais.
Eduardo soltou um suspiro curto.
— Considerando que alguém tentou oferecer o imóvel dela como garantia de quatrocentos e oitenta mil reais, eu diria que importa bastante.
Bruno passou a mão pelo rosto. Parecia ter envelhecido naquela manhã.
— Oitenta mil.
Eu quase achei que tivesse ouvido errado.
— Oitenta mil reais?
— Na época.
— E o que significa “na época”?
Ele não respondeu imediatamente. Patrícia tentou pegar o celular de volta, mas Bruno afastou a mão.
— Você vai me contar por que Renato está ligando para você.
— Me devolve meu telefone.
— Primeiro responde.
Ela olhou para mim e depois para Eduardo, claramente calculando quanto ainda poderia esconder.
— Eu estava tentando resolver um problema seu.
Bruno riu sem humor.
— Meu problema? Faz anos que não vejo esse homem.
— Você não vê. Eu vejo.
A frase caiu no meio da sala como uma pedra.
Bruno ficou pálido.
— Desde quando?
Patrícia cruzou os braços.
— Desde que ele voltou para Curitiba.
Eu senti um arrepio.
— E quando foi isso?
— Uns oito meses atrás.
Eduardo e eu trocamos um olhar. O primeiro registro relacionado à tentativa de usar minha casa como garantia havia sido feito pouco mais de sete meses antes.
— Você sabia da dívida — falei. — Sabia da casa. Tinha acesso aos nossos documentos porque ajudou Bruno com a reforma e com algumas contas. E seu telefone aparece no cadastro. Você realmente espera que eu acredite que tudo isso seja coincidência?
Patrícia ergueu o queixo.
— Eu não falsifiquei sua assinatura.
— Eu não perguntei isso.
Ela percebeu tarde demais.
Bruno também.
— Como você sabe que a assinatura foi falsificada? — ele perguntou.
Patrícia abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.
Meu coração começou a bater mais rápido. Até aquele momento, uma parte de mim ainda procurava uma explicação menos terrível. Talvez Patrícia tivesse fornecido um telefone sem compreender para quê. Talvez tivesse tentado negociar a dívida do irmão. Talvez alguém a tivesse enganado.
Mas aquela frase havia mudado tudo.
Eduardo se aproximou da mesa.
— Patrícia, acho melhor você explicar exatamente o que fez.
— Eu não fiz nada!
— Então atenda Renato — falei.
Ela olhou para mim.
— O quê?
— Liga de volta. Coloca no viva-voz.
— Você enlouqueceu.
— Se você não tem nada a esconder, liga.
Patrícia estendeu a mão para Bruno.
— Me dá o telefone.
Ele não entregou.
— Mariana tem razão.
Pela primeira vez naquela manhã, Patrícia pareceu realmente assustada.
— Bruno, você não sabe com quem está mexendo.
— Então me conta.
Ela permaneceu em silêncio.
Foi Eduardo quem percebeu primeiro.
— Essa dívida nunca foi de banco, foi?
Bruno fechou os olhos.
Eu virei para ele.
— Que tipo de dívida era?
Ele demorou tanto a responder que eu já sabia que não gostaria da verdade.
— Eu tinha uma empresa com um amigo antes de conhecer você. Pequena. Importávamos equipamentos eletrônicos do Paraguai. No começo era tudo legal. Depois começaram alguns problemas de caixa. Renato apareceu oferecendo dinheiro rápido.
— Um agiota?
— Não exatamente.
— Então o quê?
— Alguém pior.
Minha garganta ficou seca.
Bruno finalmente se sentou.
— Eu peguei oitenta mil. A empresa quebrou. Meu sócio desapareceu e Renato veio atrás de mim. Meu pai vendeu um terreno para pagar parte da dívida. Eu achei que tivesse acabado.
Patrícia soltou uma risada amarga.
— Você achou porque alguém resolveu o resto por você.
Bruno ergueu a cabeça.
— Do que você está falando?
— Depois que o pai morreu, Renato voltou. Ele dizia que os juros continuavam correndo. Eu paguei durante anos para ele ficar longe de você.
Bruno parecia genuinamente perplexo.
— Com que dinheiro?
Patrícia hesitou.
E foi naquele instante que compreendi que ainda estávamos olhando para a camada errada daquela história.
— Patrícia — falei devagar. — De onde veio o dinheiro?
Ela não respondeu.
Bruno abriu a bolsa dela procurando alguma coisa. Patrícia avançou.
— Não mexe aí!
Ele encontrou um envelope e o puxou.
Dentro havia comprovantes bancários.
Eduardo pegou um deles.
— Transferências mensais. Valores diferentes.
Eu me aproximei.
Algumas eram de dez mil. Outras, quinze. Havia uma de vinte e dois mil reais.
— Você pagou tudo isso para Renato?
Patrícia apertou os lábios.
— Sim.
Eduardo passou os olhos pelas datas.
— Isso não faz sentido.
— O quê? — perguntei.
Ele colocou três comprovantes lado a lado.
— Se ela estava pagando a dívida, por que os valores aumentaram justamente depois que começaram a preparar a documentação da casa?
Patrícia tentou pegar os papéis.
Bruno segurou o braço dela.
— Não.
— Me solta.
— Você vai explicar tudo.
Ela o encarou por alguns segundos e então alguma coisa nela mudou. A postura agressiva desapareceu. Os ombros caíram.
— Eu só queria impedir que Renato viesse atrás de você.
— Usando a casa da minha esposa?
— Eu disse que não falsifiquei assinatura nenhuma!
— Então quem falsificou?
Patrícia ficou em silêncio.
O celular tocou novamente.
Renato.
Dessa vez, Bruno atendeu.
— Alô.
A expressão de Patrícia se transformou.
— Bruno, desliga.
Ele colocou no viva-voz.
Houve silêncio do outro lado.
Então uma voz masculina falou:
— Patrícia?
Bruno respondeu:
— Não. Sou eu.
Outro silêncio.
Mais longo.
— Bruno... quanto tempo.
— Fica longe da minha família.
Renato riu baixo.
— Sua família? Acho que você deveria perguntar à sua irmã quem realmente está tentando proteger quem.
Patrícia avançou para desligar, mas Eduardo bloqueou seu caminho.
— O que você quer? — Bruno perguntou.
— O que sempre quis. O que me devem.
— Eu não te devo quatrocentos e oitenta mil.
A voz de Renato mudou.
— Eu nunca disse que devia.
Meu estômago se contraiu.
Olhei para Eduardo.
— Então por que minha casa aparece como garantia? — perguntei alto.
Renato ficou calado.
— Quem é você? — ele perguntou.
— Mariana. A dona da casa.
Ouvi uma respiração pesada.
Depois ele disse:
— Então finalmente te contaram.
— Contaram o quê?
Patrícia começou a chorar silenciosamente.
Renato soltou uma risada curta.
— Pergunte ao seu marido sobre o sócio que desapareceu.
Virei-me para Bruno.
Ele parecia tão confuso quanto eu.
— Marcelo? O que ele tem a ver com isso?
— Marcelo não desapareceu — respondeu Renato.
Bruno se levantou de uma vez.
— Onde ele está?
— Mais perto do que você imagina.
Então Renato disse algo que fez Patrícia cobrir o rosto com as mãos.
— E, Bruno... antes de acusar sua irmã de falsificar documentos, talvez seja melhor contar para Mariana por que o nome dela já estava nos arquivos de Marcelo dois anos antes de vocês se conhecerem.
A ligação terminou.
Olhei para Bruno.
Ele permanecia parado, celular na mão, completamente sem cor.
Mas foi Eduardo quem quebrou o silêncio.
— Dois anos antes?
Ele abriu rapidamente sua pasta, puxou o envelope que havíamos analisado durante a madrugada e começou a procurar entre as folhas.
— Eduardo?
Ele não respondeu.
Encontrou uma página, leu novamente e então levantou os olhos para mim.
— Mariana, ontem eu achei que esta data estivesse errada.
Meu coração acelerou.
Ele virou o documento na minha direção.
Era uma cópia antiga de um cadastro empresarial ligado à empresa de Bruno e Marcelo.
No rodapé havia uma anotação feita à mão.
Meu nome completo.
Mariana Alves Ribeiro.
E ao lado dele, uma data.
Dois anos antes do dia em que Bruno jurava ter me conhecido.







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