Fiquei olhando para meu próprio nome naquele papel até as letras começarem a parecer estranhas. Mariana Alves Ribeiro. Não havia erro de sobrenome, nenhuma abreviação que pudesse pertencer a outra pessoa. Abaixo, a data estava nítida. Dois anos antes de eu conhecer Bruno.
— Isso não é possível.
Minha voz saiu baixa.
Bruno se aproximou.
— Deixa eu ver.
Puxei o documento antes que ele tocasse.
— Você sabia?
— Claro que não.
— Pensa antes de responder.
— Mariana, eu nunca vi isso.
Procurei no rosto dele algum sinal de mentira. Depois de seis anos de casamento, eu conhecia a maneira como Bruno desviava os olhos quando escondia alguma coisa pequena, como apertava a mandíbula quando se sentia encurralado. Naquele momento, porém, o que vi foi medo verdadeiro.
Patrícia ainda estava perto da porta.
— Talvez seja melhor você contar — disse Eduardo.
Ela enxugou o rosto.
— Eu não sei nada sobre esse papel.
— Mas sabe sobre Marcelo — respondi.
Ela ficou imóvel.
Bruno percebeu também.
— Você sabia que ele não tinha desaparecido.
— Não.
— Patrícia.
— Eu descobri depois.
— Quando?
Ela respirou fundo.
— Depois que o pai morreu.
Bruno recuou como se precisasse de distância para absorver aquilo.
— Você passou anos sabendo onde Marcelo estava?
— Eu nunca soube onde ele estava. Só descobri que ele continuava em contato com Renato.
— E não me contou?
— Porque nosso pai me fez prometer.
A menção ao pai mudou Bruno imediatamente.
— Não coloca o pai nisso.
— Ele já estava nisso muito antes de mim.
Patrícia caminhou até uma cadeira e se sentou. Pela primeira vez desde que eu a conhecia, ela não parecia a mulher controladora que opinava sobre nosso casamento, nossas viagens e até a cor das paredes da minha casa. Parecia apenas cansada.
— Quando papai ficou doente, me entregou uma caixa — começou. — Disse que, se alguma coisa acontecesse com ele, eu deveria guardar aquilo e nunca deixar Bruno encontrar.
— Que caixa? — perguntei.
— Documentos da empresa. Fotografias. Alguns comprovantes.
Bruno bateu a mão na mesa.
— E onde está?
Patrícia levantou os olhos.
— Sumiu.
Eduardo franziu a testa.
— Quando?
— Há oito meses.
O mesmo período em que Renato havia reaparecido.
Senti um frio percorrer meus braços.
— Alguém entrou na sua casa?
— Não havia sinais de arrombamento. A caixa simplesmente desapareceu do armário.
— Quem tinha chave? — Eduardo perguntou.
Patrícia olhou para Bruno.
— Minha mãe. Bruno. E...
Ela parou.
— E quem? — insisti.
— Marcelo.
Bruno soltou uma risada incrédula.
— Você deu uma chave da sua casa para ele?
— Não. Ele tinha uma antiga. Antes de desaparecer, ele e Bruno viviam lá. Era a casa do nosso pai naquela época.
Bruno passou as mãos pelos cabelos.
Eu voltei ao documento.
— Ainda não explica meu nome.
Eduardo pegou a folha e examinou a anotação.
— Talvez explique se descobrirmos quem escreveu isso.
Ele aproximou o papel da janela.
— Bruno, reconhece a letra?
Bruno observou durante alguns segundos.
Seu rosto mudou.
— É do meu pai.
Patrícia fechou os olhos.
Agora ela sabia que não conseguiria esconder muito mais.
— O que seu pai sabia sobre mim? — perguntei.
Bruno balançou a cabeça.
— Nada. Pelo menos eu achava que nada.
Então me ocorreu uma lembrança que eu não visitava havia anos.
Conheci o pai de Bruno apenas uma vez.
Três semanas depois de começarmos a namorar, fomos visitá-lo no hospital. Ele já estava muito debilitado. Quando Bruno saiu para falar com o médico, fiquei sozinha com aquele homem por alguns minutos.
Na época, achei que ele estivesse confuso por causa dos medicamentos.
Ele segurou minha mão e perguntou:
— Você é filha da Helena?
Meu corpo ficou rígido.
— Minha mãe se chamava Helena — falei.
Bruno virou-se para mim.
— Você nunca me contou isso.
— Porque achei que seu pai tivesse ouvido você falar dela.
Mas Bruno balançava a cabeça.
— Eu nem sabia o nome da sua mãe naquela época.
O ar pareceu desaparecer da sala.
Eduardo perguntou:
— Qual era o nome completo dela?
— Helena Alves Ribeiro.
Ele pegou o celular e fotografou o documento.
— Ontem encontrei referências a uma empresa chamada H.A. Participações entre os registros antigos ligados ao negócio de Marcelo. Achei que fosse irrelevante.
Meu coração começou a bater mais forte.
— H.A...
Helena Alves.
Não era prova. Poderia ser coincidência. Eu repetia isso mentalmente enquanto Eduardo procurava algo no notebook que havia trazido.
Patrícia, porém, estava olhando para mim de um jeito diferente.
— Meu pai tinha uma fotografia — disse ela.
— De quem?
— De uma mulher chamada Helena.
Bruno virou-se bruscamente.
— Como você sabe?
— Estava na caixa.
Minhas mãos ficaram geladas.
— Você viu a fotografia?
Patrícia assentiu.
— Atrás estava escrito “Helena, 1998”.
— Era minha mãe?
— Eu não sei. Nunca tinha visto sua mãe.
Peguei meu celular com dedos trêmulos e procurei uma fotografia antiga. Minha mãe sorria diante da casa onde cresci, pouco antes de adoecer.
Mostrei a tela.
Patrícia ficou branca.
Não precisou responder.
Eu soube.
— Era ela.
Patrícia assentiu lentamente.
Bruno se sentou.
— Por que meu pai tinha uma foto da mãe da Mariana?
Ninguém conseguiu responder.
Eduardo continuou pesquisando por alguns minutos até encontrar o registro antigo da empresa.
— H.A. Participações foi aberta em 1998 — disse. — Encerrada oficialmente em 2004.
— Minha mãe morreu em 2005.
Eduardo olhou para mim.
— Há outra coisa.
Virou o notebook.
O registro mostrava dois sócios.
O primeiro nome era Helena Alves Ribeiro.
O segundo eu nunca tinha visto.
Augusto Ferreira.
Bruno parou de respirar por um instante.
— Augusto Ferreira era meu pai.
A sala ficou completamente silenciosa.
Minha mãe e o pai de Bruno tinham sido sócios.
Anos antes de nós nos conhecermos.
— Então nosso casamento não começou por acaso — murmurei.
— Não — Bruno respondeu imediatamente. — Mariana, eu juro que não sabia.
Eu queria acreditar nele. Mas agora acreditar em qualquer pessoa naquela sala parecia perigoso.
Eduardo continuou lendo.
— A empresa foi encerrada após uma transferência de ativos.
— Para quem? — perguntei.
Ele abriu outro registro.
Dessa vez, demorou.
— Isso é estranho.
— O quê?
— Parte dos ativos foi transferida para uma empresa criada poucos meses depois.
O nome apareceu na tela.
MR Comércio e Participações Ltda.
— MR? — Bruno perguntou.
Eduardo abriu o quadro societário histórico.
Havia apenas um sócio fundador.
Marcelo Rodrigues.
O antigo parceiro de Bruno.
De repente, tudo começou a formar uma linha que eu ainda não conseguia enxergar completamente: minha mãe, Augusto, Marcelo, Renato, a dívida, minha casa.
Mas havia uma pergunta mais imediata.
— Se Marcelo ficou com os ativos, por que meu nome estava nos arquivos dele?
Eduardo não respondeu. Em vez disso, abriu o envelope da noite anterior novamente e retirou a última folha, aquela que ainda não tínhamos conseguido relacionar aos demais documentos.
Era um comprovante antigo de transferência patrimonial.
Ele leu.
Depois leu novamente.
— Mariana...
— Fala.
— Acho que sua casa nunca foi o verdadeiro objetivo.
Meu estômago afundou.
— Então o que eles queriam?
Antes que Eduardo respondesse, Patrícia levantou-se.
— Tem uma coisa que vocês precisam ver.
Foi até o aparador da sala, pegou suas chaves e retirou uma pequena chave de metal do chaveiro.
— Eu menti sobre a caixa.
Bruno encarou a irmã.
— O quê?
— Ela não sumiu inteira. Quando percebi que alguém tinha entrado na minha casa, escondi uma parte antes que voltassem.
— Onde?
Patrícia olhou para mim.
— No guarda-volumes de uma rodoviária.
Quarenta minutos depois, estávamos no estacionamento subterrâneo da Rodoviária de Curitiba. Patrícia abriu um pequeno armário metálico e retirou um envelope amarelado.
Dentro havia fotografias, contratos antigos e uma fita cassete.
Mas foi uma fotografia que me fez perder a força nas pernas.
Minha mãe estava ao lado de Augusto Ferreira.
Entre eles havia um terceiro homem muito mais jovem.
Marcelo.
No verso, uma frase escrita pela minha mãe:
“Se alguma coisa acontecer comigo, Mariana precisa saber que a parte dela nunca pertenceu a Marcelo.”
Abaixo havia um número de matrícula de imóvel.
Eduardo fotografou e pesquisou.
Quando o resultado apareceu, seu rosto perdeu a cor.
— Mariana, essa matrícula não é da sua casa.
— Então é de quê?
Ele virou a tela para mim.
O endereço ficava numa região de Curitiba que eu conhecia muito bem.
Era um terreno comercial enorme.
E o proprietário registrado naquele momento era uma empresa ligada a Renato.
Mas, na matrícula original, havia uma cláusula que nunca tinha sido cumprida.
Em caso de morte de Helena Alves Ribeiro, a participação dela deveria ser transferida para sua única herdeira.
Eu.
Antes que eu conseguisse compreender o que aquilo significava, ouvimos uma voz atrás de nós.
— Eu estava esperando que vocês encontrassem essa fotografia.
Viramos ao mesmo tempo.
Um homem de cabelos grisalhos estava parado a poucos metros, observando-nos.
Bruno deixou cair a fita cassete.
Seu rosto ficou irreconhecível.
— Marcelo?
O homem sorriu sem qualquer alegria.
— Olá, Bruno.
Então olhou diretamente para mim.
— Mariana, sua mãe não morreu sem descobrir o que fizeram com ela.







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