Eu olhei para Otávio, depois para meu pai.
Augusto parecia mais devastado do que assustado.
— O que ele está dizendo?
— Camila, eu não sei.
Otávio soltou uma risada cansada.
— Ainda mentindo para proteger você mesmo, Augusto?
Meu pai avançou.
— Você desapareceu por trinta anos. Não tem o direito de entrar aqui e falar comigo como se fosse meu pai.
— Eu desapareci justamente porque era seu pai.
— Isso não significa nada.
— Significa que você permaneceu vivo.
A frase fez Augusto parar.
Marcelo continuava junto à porta, observando tudo sem interferir.
Apertei o testamento.
— Se meu pai correu perigo, por que agora você diz que ele pode ser preso?
Otávio apontou para o livro de atas.
— Porque parte das empresas usadas no esquema foi registrada no nome dele.
Meu pai empalideceu.
— Eu nunca autorizei isso.
— Não precisava.
— Você falsificou minha assinatura?
Otávio permaneceu em silêncio.
Aquilo foi uma resposta.
Augusto levou as mãos à cabeça.
— Meu Deus.
Sônia se aproximou dele.
— Augusto...
— Não encosta em mim.
Ela parou.
Eu percebi que meu pai estava desmoronando por motivos que iam além daquela revelação. Em menos de dois dias, descobrira que a esposa escondera dúvidas sobre minha paternidade, que o pai que julgava morto estava vivo e que seu nome talvez tivesse sido usado em crimes durante décadas.
— Por que fazer isso com seu próprio filho? — perguntei.
Otávio olhou para mim.
— Porque naquela época eu acreditava que estava protegendo minha família.
— Roubando dinheiro?
— O dinheiro não começou roubado.
Ele caminhou até uma mesa e se sentou.
— O fundo patrimonial foi criado por três famílias. Os Valença, os Bastos e os Andrade. Era destinado a investimentos em terras e mineração. Depois começaram as disputas. Teresa descobriu que Henrique Bastos desviava recursos através de empresas intermediárias.
— Projeto Aurora — disse Rafael.
Otávio assentiu.
— Eu criei Aurora.
Rafael ficou rígido.
— Então era você.
— Criei para rastrear o dinheiro de Henrique. Mas, quando percebi o tamanho do esquema, já havia usado empresas no nome de Augusto sem que ele soubesse. Se tudo viesse à tona, meu filho seria tratado como participante.
— Então você fingiu sua morte — falei.
— Sim.
— E deixou seu filho carregar as consequências?
Pela primeira vez, Otávio baixou os olhos.
— Eu achei que conseguiria resolver tudo rapidamente.
— Trinta anos não são rapidamente.
Ele não respondeu.
Marcelo finalmente falou:
— Estamos perdendo tempo.
Olhei para ele.
— Você trabalha para Otávio?
— Trabalho.
— Foi ele quem mandou você contratar Rafael?
Marcelo olhou para meu avô.
Otávio respondeu:
— Sim.
Rafael avançou.
— Você ameaçou meu pai.
— Eu nunca ordenei ameaça contra Roberto.
Marcelo ficou imóvel.
Otávio percebeu.
— Marcelo?
Foi uma mudança pequena, mas suficiente.
Pela primeira vez, vi desconfiança no rosto de Otávio.
— O que você fez?
Marcelo ajeitou o paletó.
— O necessário.
Rafael agarrou sua camisa.
— Você mandou aquelas fotos do hospital?
— Rafael! — Helena gritou.
Marcelo não reagiu.
— Seu pai tinha documentos que não lhe pertenciam.
— Ele morreu acreditando que estavam atrás dele.
— Roberto morreu de câncer.
Rafael o soltou lentamente.
— Mas passou os últimos meses com medo por sua causa.
Otávio bateu a bengala no chão.
— Chega.
Depois olhou para mim.
— Entregue a última página. Eu destruo os registros ligados a Augusto e tudo termina.
Eu quase ri.
— Você acha que depois de tudo isso vou confiar em você?
— Não precisa confiar. Precisa escolher.
— Entre quê?
— A verdade e seu pai.
Augusto levantou a cabeça.
— Não.
— Pai...
— Não entrega nada por mim.
Otávio ficou irritado.
— Você não entende.
— Pela primeira vez, eu entendo perfeitamente.
Augusto se aproximou de mim.
— Se meu nome foi usado, eu respondo por isso e provo o que aconteceu. Mas não vou deixar minha filha passar os próximos trinta anos vivendo dentro de outra mentira.
As palavras me atingiram profundamente.
Segurei sua mão.
— Você é meu pai.
Ele fechou os olhos.
— Sempre.
Foi então que minha mãe começou a chorar.
— Tem uma coisa que vocês precisam saber.
Todos se viraram.
— Sônia, não — Otávio disse.
Minha mãe ficou pálida.
— Você sabia?
Meu coração disparou.
— Mãe, sabia o quê?
Ela olhou para Otávio.
— Eu encontrei você há três semanas.
Augusto soltou minha mão.
— O quê?
— Foi assim que descobri sobre Rafael.
Tudo ficou claro de maneira brutal.
Minha mãe não descobrira por acaso.
Otávio tinha procurado por ela.
— Por que você não contou? — perguntei.
— Porque ele disse que, se você abrisse o fundo, Augusto seria preso.
Otávio tentou interromper.
— Sônia...
— Não. Chega.
Ela abriu a bolsa e retirou um pequeno gravador.
— Por isso gravei nossas conversas.
Marcelo perdeu a expressão tranquila.
Otávio ficou imóvel.
— Você gravou?
— Todas.
Minha mãe colocou o aparelho sobre a mesa.
— Inclusive a conversa em que Marcelo contou que o senhor não era mais quem controlava o Projeto Aurora.
Otávio virou lentamente para ele.
— O que ela está dizendo?
Marcelo deu um passo em direção à porta.
Rafael bloqueou o caminho.
Sônia apertou o botão.
A voz de Marcelo encheu o depósito:
“Otávio acha que ainda controla tudo. Deixe que continue acreditando.”
Depois vinha outra voz.
Uma voz que eu conhecia.
Meu sangue gelou antes mesmo de identificar de onde.
Era Henrique Bastos.
“Quando Camila completar trinta anos, precisamos da assinatura dela ou da renúncia. Se não conseguirmos nenhuma das duas, usamos Rafael para chegar aos documentos.”
Otávio ficou branco.
— Henrique está por trás disso?
Marcelo não respondeu.
A gravação continuou.
Então Henrique disse uma frase que mudou novamente tudo:
“Otávio nunca percebeu que Teresa transferiu o controle antes de morrer.”
Uma pausa.
“Ela não deixou o Grupo para Camila.”
Eu olhei para minha mãe.
Na gravação, Henrique terminou:
“Ela deixou para Sônia.”
Todos se viraram para ela.
Minha mãe começou a chorar.
— Isso não é verdade.
Otávio encarou Sônia.
— Teresa fez você assinar alguma coisa antes de desaparecer da família?
Minha mãe ficou em silêncio.
Então levou lentamente a mão ao pescoço e retirou o colar que usava desde que eu era criança.
Dentro do pequeno pingente havia uma chave minúscula.
— Minha mãe me deu isso três dias antes de morrer.
Otávio perdeu a cor.
— Onde está o documento?
Sônia balançou a cabeça.
— Eu nunca soube.
Marcelo sorriu pela primeira vez.
— Mas eu sei.
Ele retirou o celular do bolso e colocou uma fotografia sobre a mesa.
Era uma página de documento.
No final havia a assinatura de Teresa.
E abaixo dela, a assinatura de minha mãe.
Marcelo olhou diretamente para Sônia.
— Você controla tudo há trinta anos.
Então virou o telefone para mim.
— E sua mãe não está dizendo a verdade quando afirma que nunca soube.







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