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Arranquei O Microfone Da Minha Sogra No Meu Casamento — Então Descobri Que Meu Marido Foi Pago Para Se Casar Comigo

Minha mãe continuou olhando para a fotografia no meu celular como se aquele rosto tivesse atravessado trinta anos para encontrá-la.

— Quem é ele? — repeti.

Sônia demorou a responder.

— Daniel Bastos.

O sobrenome fez todos olharem para ela.

— Bastos? — Rafael perguntou. — Parente de Henrique?

— Irmão mais novo.

Senti um peso no peito.

— E você também conheceu Daniel?

Minha mãe fechou os olhos.

— Conheci.

Augusto virou o rosto. Dessa vez não havia raiva nele. Apenas cansaço.

— Quantos segredos ainda existem, Sônia?

— Eu não sabia que Camila poderia ser filha dele.

— Como você não sabia?

Minha mãe me encarou.

— Porque Daniel morreu antes de eu descobrir a gravidez. E porque naquela época eu estava tentando apagar aquele período inteiro da minha vida.

Lúcia se levantou lentamente.

— Talvez seja melhor vocês verem uma coisa.

Ela desapareceu pelo corredor e voltou carregando uma caixa metálica pequena. Dentro havia cartas amarradas por uma fita envelhecida.

— Teresa deixou comigo.

Sônia reconheceu a caligrafia imediatamente.

— Cartas do Daniel.

Minha mão tremia quando abri a primeira.

Daniel escrevia para Teresa. Falava sobre irregularidades financeiras envolvendo o Grupo Valença e empresas ligadas ao irmão, Henrique. Em várias páginas aparecia o mesmo nome: Marcelo.

Então encontrei uma frase sublinhada:

“Se alguma coisa acontecer comigo, não foi acidente.”

Olhei para minha mãe.

— Como Daniel morreu?

— O carro dele saiu da estrada perto de Ouro Preto.

Outro acidente.

Primeiro Daniel.

Depois Eduardo.

Duas pessoas ligadas aos documentos de Teresa.

— Eduardo investigava a morte dele? — perguntei.

Sônia assentiu.

— Foi por isso que Teresa confiou nele.

Tudo começava a mudar de forma. Eduardo talvez não fosse apenas um antigo namorado da minha mãe. Talvez tivesse tentado proteger a mim e aos documentos.

Rafael abriu outra carta.

— Aqui tem uma referência a uma conta chamada Projeto Aurora.

Augusto pegou o papel.

Seu rosto mudou.

— Eu conheço esse nome.

— De onde?

— Dos arquivos que encontrei quando trabalhava para os Valença. Aurora era uma estrutura usada para movimentar dinheiro entre empresas. Eu nunca consegui descobrir quem controlava a conta final.

Lúcia apontou para o pen drive.

— Talvez Teresa tenha conseguido.

Voltamos ao computador e procuramos “Aurora”.

Encontramos uma planilha protegida por senha.

Tentamos datas, nomes, números do testamento.

Nada.

Então vi a fotografia de Daniel.

No verso havia uma data: 17 de setembro de 1995.

Digitei 17091995.

A planilha abriu.

Centenas de transferências apareceram.

Algumas tinham mais de trinta anos. Outras eram recentes.

Rafael aproximou o rosto da tela.

— Isso continuou depois da morte de Teresa.

— E depois da morte de Daniel — acrescentei.

Augusto percorreu as linhas até parar.

— Aqui.

Havia pagamentos para Marcelo Valença.

Durante décadas.

Mas o beneficiário principal aparecia apenas com iniciais:

A.M.

Minha mãe ficou imóvel.

— Álvaro Mendes.

O médico registrado na agenda de Lúcia.

— O obstetra? — perguntei.

Lúcia assentiu.

— Ele assinou sua declaração de nascimento.

Meu coração acelerou.

— Está vivo?

— Deve estar com mais de oitenta anos, se estiver.

Rafael pesquisou o nome no próprio celular.

Encontrou uma clínica particular em Nova Lima.

— Está vivo.

Eu já estava pegando minha bolsa.

— Vamos.

Encontramos Álvaro naquela tarde.

Quando falei meu nome, ele tentou encerrar a conversa.

— Não conheço nenhuma Camila Andrade.

Coloquei sobre a mesa uma cópia da agenda de Lúcia.

As mãos dele começaram a tremer.

— Trinta anos — disse ele. — Eu sabia que esse dia chegaria.

— Quem é meu pai?

Ele me olhou.

— Essa é a pergunta errada.

Meu sangue gelou.

— Então qual é a certa?

— Quem precisava que todos acreditassem que você era filha de outra pessoa.

Rafael fechou a porta.

Álvaro não protestou.

— Marcelo me pagou para alterar registros. Eu declarei um tipo sanguíneo errado. Depois produziram exames falsos envolvendo Henrique.

— Por quê?

— Para fazê-lo acreditar que você era filha dele.

— Mas ele não é.

— Não.

— Daniel?

O médico baixou os olhos.

— Também não.

Minha mãe levou a mão à boca.

— Então quem?

Álvaro começou a falar, mas seu telefone tocou.

Ele olhou para a tela e ficou branco.

Não atendeu.

— Eles sabem que vocês estão aqui.

— Quem?

Ele abriu uma gaveta e retirou um envelope lacrado.

— Teresa me entregou isso uma semana antes de morrer. Disse que eu deveria destruir. Eu não consegui.

Dentro havia um resultado de exame genético.

Antigo, mas claro.

O nome da criança era o meu.

O campo referente ao pai estava parcialmente coberto por uma etiqueta.

Álvaro puxou a etiqueta.

Minha mãe soltou um grito abafado.

Eu li o nome.

Augusto Andrade.

Olhei para meu pai.

Ele parecia tão chocado quanto eu.

— Então ele é meu pai.

Álvaro balançou a cabeça.

— Biologicamente, sim.

Augusto segurou a parede.

Eu deveria ter sentido alívio.

Mas a expressão do médico me impediu.

— Por que esconder isso?

Álvaro demorou alguns segundos.

— Porque sua paternidade nunca foi o verdadeiro segredo.

Ele apontou para a planilha aberta no notebook.

— Camila não recebeu a herança por ser neta de Teresa.

Minha mãe ficou rígida.

— Álvaro...

— Ela precisa saber.

O médico olhou diretamente para mim.

— Teresa colocou os bens no nome de Camila porque precisava escondê-los de alguém.

— De quem?

Álvaro respondeu:

— Do verdadeiro dono do Grupo Valença.

Rafael franziu a testa.

— Quem?

Antes que o médico pudesse responder, ouviu-se uma batida forte na porta da clínica.

Álvaro empalideceu.

— Vocês precisam sair pelos fundos.

— Quem está aí?

Ele me entregou o envelope e sussurrou:

— O homem que mandou Marcelo entrar na sua vida nunca quis descobrir quem era seu pai.

Outra pancada fez a porta estremecer.

Álvaro olhou para mim.

— Ele queria descobrir se Teresa tinha contado a você que o Grupo Valença não pertence à família Valença.

Do lado de fora, uma voz masculina chamou calmamente:

— Doutor Álvaro, abra a porta.

Reconheci a voz imediatamente.

Era Marcelo.

E Álvaro completou, quase sem som:

— Se ele encontrar a última página do testamento, vai descobrir que você é a única pessoa capaz de tirar tudo do homem para quem ele trabalha.

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