César Augusto permaneceu do outro lado da rua sem fazer qualquer movimento em nossa direção. Era mais velho do que o homem da gravação, o cabelo quase completamente branco, o corpo mais magro, mas não havia dúvida. Cecília segurou meu braço com tanta força que suas unhas pressionaram minha pele.
— É ele — sussurrou.
Helena parecia incapaz de respirar.
Eduardo foi o primeiro a reagir.
— Ninguém se aproxima.
Os policiais que ainda estavam na casa de minha mãe também perceberam o estranho. Um deles atravessou a rua e pediu sua identificação.
O homem não resistiu.
Retirou lentamente a carteira do bolso.
Meu celular continuava com César Henrique na linha.
— Mariana, fala comigo. O que está acontecendo?
Olhei para aquele homem e senti uma vertigem.
— Seu pai está aqui.
Silêncio.
— Não brinca com isso.
— Eu não estou brincando.
César Augusto olhou na minha direção.
Então disse algo ao policial e apontou para mim.
Poucos segundos depois, o agente voltou.
— Ele diz que veio falar com a senhora Mariana Ribeiro e que está disposto a acompanhar todos até a delegacia.
— Pergunta o nome completo — falei.
O policial já havia conferido o documento.
— César Augusto Almeida.
Do telefone veio uma respiração quebrada.
— Coloca ele na chamada — César Henrique pediu.
Não fiz isso.
— Primeiro vamos descobrir por que um homem oficialmente morto está andando por Curitiba.
Na delegacia, a resposta começou a aparecer.
César Augusto não estava legalmente morto.
Não exatamente.
Seis anos antes, um corpo havia sido encontrado após um acidente de carro numa estrada no interior de Santa Catarina. O veículo pertencia a ele. Os documentos também estavam no carro. O reconhecimento fora feito por Marcelo.
Não havia confirmação genética.
— Marcelo identificou o corpo? — perguntei.
César Augusto assentiu.
— Eu precisava desaparecer.
— E deixou seu filho acreditar que você estava morto?
Pela primeira vez, ele baixou os olhos.
— Sim.
César Henrique estava a caminho. Eu não sabia se temia mais o encontro entre os dois ou as respostas que viriam dele.
— Por quê? — perguntei.
César Augusto demorou.
— Porque Marcelo tentou me matar.
Helena soltou o ar.
— Eu sabia.
Todos olharam para ela.
— Você sabia que ele estava vivo? — perguntei.
— Não. Mas nunca acreditei totalmente naquele acidente.
César Augusto continuou. Depois da morte do meu pai, Marcelo assumira controle crescente sobre a Vale Norte. Descobrira documentos que poderiam ligá-lo a fraudes antigas e começou a eliminar rastros.
— Augusto tinha provas — disse César.
Ouvir outro homem chamar meu pai pelo primeiro nome daquele jeito me causou uma estranha sensação.
— Meu pai morreu de infarto.
César me encarou.
— Foi o que disseram.
Meu corpo gelou.
Eduardo interveio imediatamente.
— Cuidado. Se está sugerindo outra coisa, apresente provas.
César Augusto assentiu.
— Não tenho prova de que Marcelo matou Augusto. Tenho prova de que o estava chantageando nas semanas anteriores.
Retirou do bolso uma pequena chave.
— Foi por isso que voltei.
A chave pertencia a um cofre bancário.
— O que tem lá?
— Documentos que Augusto me entregou dois dias antes de morrer.
Senti raiva.
— Todo mundo parece ter recebido documentos do meu pai, menos eu.
César Augusto aceitou a acusação sem reagir.
— Ele queria que você tivesse uma vida fora disso.
— E conseguiu exatamente o contrário.
Cecília chorava silenciosamente.
— E Laura? — perguntei.
O rosto dele mudou.
— Está viva?
Helena respondeu:
— Sim.
Pela primeira vez, César Augusto perdeu completamente a compostura.
— Onde?
— Portugal.
Ele fechou os olhos.
Helena explicou que meu pai mantivera contato indireto com a mãe de Laura durante anos. Depois da morte dele, Helena assumira a responsabilidade de encaminhar recursos provenientes de uma conta criada legalmente para ajudar as duas.
— Por que nunca contou a César Henrique? — perguntei.
— Porque Augusto deixou instruções claras. Nenhum contato enquanto Marcelo estivesse próximo da família.
César Augusto bateu a mão na mesa.
— Meu filho passou anos com Marcelo.
— Exatamente — Helena respondeu.
A porta da sala se abriu.
César Henrique entrou.
Ele parou quando viu o pai.
Nenhum dos dois falou.
O homem que havia enfrentado Bruno na minha casa naquela manhã parecia agora um menino tentando entender por que alguém destruíra seis anos de sua vida.
— Você está vivo.
César Augusto levantou-se.
— Filho...
— Não me chama assim.
A voz de César Henrique falhou.
— Eu enterrei você.
— Eu sei.
— Eu fiquei sozinho!
— Marcelo estava me caçando.
— Então você me deixou com ele?
César Augusto não conseguiu responder.
César Henrique riu, mas havia lágrimas nos olhos.
— Perfeito.
Virou-se para mim.
— E você ainda acha que seu pai era o único que mentia?
— Não — respondi. — Acho que todos vocês mentiram e deixaram os filhos pagarem a conta.
Ele ficou em silêncio.
Foi a primeira vez que parecíamos estar do mesmo lado.
César Augusto colocou a chave sobre a mesa.
— O cofre pode acabar com isso.
Horas depois, com acompanhamento legal e policial, o conteúdo foi acessado.
Havia contratos originais, extratos, gravações e uma cópia autêntica do acordo azul.
Eduardo encontrou primeiro a diferença decisiva.
— Aqui.
Na versão original, minha casa não aparecia.
Nenhum imóvel futuro aparecia.
A cláusula havia sido adicionada posteriormente.
— Isso desmonta a tentativa de Marcelo de vincular a casa à dívida — disse Eduardo.
Outra pasta continha registros da Vale Norte.
Meu pai realmente havia colocado dinheiro próprio numa conta de garantia.
A transferência usada anos depois para a entrada da minha casa vinha desse saldo.
Fechei os olhos.
Pelo menos aquela parte da história finalmente estava limpa.
Mas ainda havia Bruno.
A procuração falsa.
A apólice.
E Marcelo.
Eduardo abriu outro envelope.
— Aqui está o seguro.
O documento original mostrava que meu pai havia planejado a contratação antes de morrer como parte de uma estrutura de proteção patrimonial. O valor inicial de duzentos mil era legítimo.
— E o aumento para dois milhões? — perguntei.
Não havia autorização.
César Henrique ficou pálido.
— Marcelo.
— Ainda precisamos provar — Eduardo respondeu.
Meu celular tocou.
Bruno.
— Mariana, encontrei uma coisa na agenda.
— O quê?
— Uma página colada. Eu só percebi agora.
— O que tem nela?
— Datas. Valores. E as iniciais M.D.
Marcelo Duarte.
— Tem uma anotação de cinco meses atrás — continuou Bruno. — Não foi escrita pelo seu pai. A tinta é diferente.
Meu coração acelerou.
— Leia.
Bruno ficou em silêncio por alguns segundos.
— “Seguro aumentado. Procuração preparada. B.R. entregará documentos quando a dívida apertar.”
B.R.
Bruno Ribeiro.
Todos olharam para o telefone.
— Eu não escrevi isso — ele disse rapidamente. — Mariana, eu juro.
— Quem teve acesso à agenda?
— César teve por alguns minutos no galpão.
César Henrique levantou a cabeça.
— Eu nunca escrevi nessa agenda.
Então César Augusto pediu o telefone.
— Leia a próxima linha.
Bruno ficou em silêncio.
— Bruno?
Quando respondeu, sua voz estava diferente.
— Tem outra frase.
— Qual?
— “Se B.R. falhar, usar P.R.”
Patrícia Ribeiro.
Senti um frio percorrer minha coluna.
Mas havia mais.
— E embaixo tem um endereço.
Eduardo pegou uma caneta.
— Qual?
Bruno leu.
Helena ficou imediatamente de pé.
— Meu Deus.
— O que foi?
— Esse é o depósito antigo de Marcelo.
César Henrique já estava indo em direção à porta.
— Se ele está guardando documentos, estão lá.
Eduardo tentou impedir que alguém agisse por conta própria, mas nesse momento Bruno enviou uma fotografia da página.
Ampliei.
No canto inferior havia uma última anotação:
“28/08 — execução final.”
Amanhã.
Ao lado, três palavras:
“Casa. Seguro. Mariana.”
O plano não terminava com a venda da minha casa.
E, pela primeira vez, tínhamos uma data mostrando quando Marcelo pretendia terminar o que começara.







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