Mostrei a notificação a Eduardo. O registro era inequívoco: 04h17. A porta principal do antigo escritório do meu pai havia sido aberta e o alarme desativado com um código válido. Eu ainda pagava o sistema de segurança porque nunca tivera coragem de vender o imóvel, mas fazia meses que não entrava ali.
— Quantas pessoas conhecem o código? — Eduardo perguntou.
— Eu.
Parei.
Sete anos antes, quando meu pai morreu, Helena havia me ajudado a organizar o escritório.
— E Helena conhecia o código antigo.
Bruno se aproximou.
— Se ela ligou mandando você procurar uma caixa e alguém entrou lá de madrugada, não podemos simplesmente aparecer.
— “Nós” não vamos a lugar nenhum — respondi.
— Mariana...
— Você entregou meus documentos para César por cento e cinquenta mil reais. Não existe mais “nós”.
A frase o atingiu, mas eu não senti satisfação. Só um vazio pesado.
Eduardo sugeriu que registrássemos primeiro o que já tínhamos e solicitássemos as imagens do sistema de segurança. Fizemos isso. Quarenta minutos depois, recebi no e-mail um pequeno arquivo de vídeo.
A câmera externa mostrava um carro chegando às 4h11.
Um homem desceu.
Patrícia levou a mão à boca.
— Marcelo.
Eu reconheci o marido de Helena imediatamente.
Ele entrou sozinho e saiu vinte e três minutos depois carregando uma bolsa esportiva.
— Então ele encontrou a caixa — Bruno disse.
— Talvez — Eduardo respondeu. — Ou talvez estivesse procurando.
Havia uma segunda câmera, no corredor interno. Assistimos Marcelo abrir armários, puxar gavetas e mover móveis com pressa. Antes de sair, ele parou diante da antiga sala do meu pai.
Mas não entrou.
A porta estava trancada.
Senti uma pequena esperança.
— A caixa pode continuar lá.
Eduardo insistiu para que não fôssemos sozinhos. Pouco depois das três da tarde, chegamos ao edifício comercial no centro de Curitiba acompanhados por um profissional de segurança indicado por ele.
O corredor do terceiro andar cheirava a poeira e madeira velha. Quando abri a porta, tive a sensação absurda de que meu pai poderia aparecer da sala ao lado reclamando que eu tinha chegado sem avisar.
Sete anos desapareceram em segundos.
A mesa dele continuava ali.
A estante.
A velha cafeteira.
Até uma fotografia nossa permanecia sobre um móvel.
Eu tinha vinte e quatro anos naquela foto.
— Você está bem? — Eduardo perguntou.
— Não sei.
Fui até a sala particular do meu pai. A fechadura tinha marcas recentes, provavelmente deixadas por Marcelo tentando abri-la.
Usei minha chave.
Lá dentro, tudo parecia intacto.
Começamos a procurar.
Uma hora passou.
Nada.
Nenhuma caixa.
Nenhum documento extraordinário.
Bruno, que permanecera no corredor depois de eu permitir que nos acompanhasse apenas porque poderia reconhecer documentos ligados a César, falou:
— Talvez Marcelo tenha levado.
— Ele não entrou nesta sala — respondi.
Patrícia examinava a estante quando parou.
— Mariana, seu pai guardava livros assim?
Olhei.
Uma coleção jurídica ocupava quase uma prateleira inteira.
Meu pai não era advogado.
Aproximei-me e retirei um dos volumes.
Atrás deles havia uma pequena porta metálica embutida na parede.
Um cofre.
Meu coração acelerou.
— Você sabia disso? — Eduardo perguntou.
Balancei a cabeça.
O cofre tinha uma fechadura tradicional.
Então me lembrei das últimas palavras de Helena.
“A chave está...”
Ela não conseguira terminar.
Comecei a olhar ao redor.
Meu pai tinha hábitos quase obsessivos. Nunca escondia uma chave em lugares óbvios. Quando eu era criança, porém, ele guardava dinheiro de emergência atrás da nossa fotografia favorita porque dizia que “ninguém procura valor atrás daquilo que já considera valioso”.
Peguei a fotografia sobre o móvel.
Atrás da moldura havia uma pequena chave presa com fita adesiva envelhecida.
Minhas mãos começaram a tremer.
A chave abriu o cofre.
Dentro havia uma caixa cinza.
Sobre ela, escrito à mão, estava meu nome.
Sentei-me antes de abrir.
O primeiro objeto era uma carta.
“Para Mariana. Entregue apenas se houver tentativa de tomar a casa.”
Reconheci a letra do meu pai.
Eduardo ficou ao meu lado enquanto eu lia.
Meu pai explicava que, meses antes de morrer, descobrira irregularidades financeiras envolvendo Marcelo Duarte. Helena havia trabalhado para ele na época e o alertara discretamente. Marcelo estava usando clientes e empresas de terceiros para conseguir crédito.
Meu pai reunira provas.
Mas havia algo ainda mais estranho.
Ele escrevera que decidira comprar a casa em meu nome porque queria proteger parte do patrimônio de “uma obrigação que poderia reaparecer”.
— Que obrigação? — murmurei.
Continuei.
A carta não explicava.
Dizia apenas:
“Se alguém tentar usar sua casa, procure o contrato azul. Não confie apenas nos documentos oficiais.”
Dentro da caixa havia vários envelopes.
Encontramos o contrato azul no fundo.
Eduardo abriu cuidadosamente.
Era um acordo particular assinado oito anos antes.
Meu pai aparecia como uma das partes.
A outra assinatura era de Marcelo Duarte.
O documento tratava de uma dívida de três milhões de reais relacionada a um empreendimento fracassado.
Mas uma terceira pessoa aparecia como garantidora.
— Helena — Bruno disse.
Balancei a cabeça.
O nome não era Helena.
Era Cecília Ribeiro.
Minha mãe.
— Minha mãe nunca falou sobre isso.
Eduardo continuou lendo.
Então encontrou uma cláusula adicional.
Se meu pai não quitasse determinada obrigação, Marcelo poderia reivindicar participação em um conjunto de ativos vinculados ao acordo.
Entre eles havia um endereço.
Minha casa.
— Mas a casa foi comprada depois — falei.
— Exatamente — Eduardo respondeu. — E isso torna esse documento muito estranho.
Patrícia aproximou-se.
— Talvez seu pai tenha comprado a casa justamente para tirá-la do alcance desse acordo.
Eu pensei na carta.
“Uma obrigação que poderia reaparecer.”
De repente, meu celular vibrou.
Era uma mensagem de Helena.
Somente uma fotografia.
Ela aparecia sentada dentro de um carro, com o rosto abatido. Segurava uma folha diante da câmera.
Ampliei a imagem.
Era outra página do contrato azul.
Uma página que não existia na nossa cópia.
Abaixo da fotografia veio uma mensagem:
“Seu pai não contou tudo. Marcelo não está tentando cobrar uma dívida.”
Segunda mensagem:
“Ele está tentando esconder quem realmente colocou o dinheiro.”
Eduardo pegou meu celular.
— Pergunte quem foi.
Digitei imediatamente.
A resposta demorou quase um minuto.
Quando chegou, havia apenas um nome.
César Almeida.
Bruno empalideceu.
— Isso não faz sentido. César teria vinte e poucos anos naquela época.
Antes que eu respondesse, chegou outra mensagem.
“Não esse César.”
E então uma terceira:
“O pai dele.”
Eduardo voltou ao contrato azul e examinou as assinaturas.
Eu senti um arrepio quando ele apontou para uma rubrica quase ilegível no canto inferior da última página.
— Mariana, acho que encontramos o verdadeiro começo disso.
Ao lado da rubrica havia um nome completo:
César Augusto Almeida.
O mesmo nome do homem que estivera na minha casa naquela manhã.
Só que a assinatura tinha sido feita oito anos antes.
Quando César, segundo Bruno, ainda era jovem demais para ter participado daquele negócio.
Havia duas possibilidades.
Ou o homem que se apresentara naquela manhã não era quem dizia ser.
Ou alguém havia usado aquele nome muito antes de ele entrar em nossas vidas.







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