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Meu Marido Jogou Minhas Malas Na Calçada — Mas Congelou Quando Descobriu Quem Era O Verdadeiro Dono Da Casa

Eduardo releu a assinatura três vezes antes de fechar o contrato azul sobre a mesa.

— Não vamos concluir nada sem verificar — disse. — Nome igual não significa necessariamente fraude.

Era exatamente por isso que eu confiava nele. Enquanto minha cabeça tentava transformar cada descoberta numa resposta definitiva, Eduardo procurava fatos.

Bruno, porém, parecia cada vez mais inquieto.

— César me disse que o pai morreu quando ele era adolescente.

Patrícia virou-se para ele.

— Quando?

— Não sei. Falou uma vez.

— E você entregou documentos da sua esposa para um homem sobre quem não sabia nem isso? — perguntei.

Bruno baixou os olhos.

Guardei a carta do meu pai e o contrato na pasta de Eduardo. Antes de sairmos do escritório, fotografei tudo que permanecera no cofre. Havia extratos antigos, comprovantes e uma pequena agenda do meu pai. Nela, três iniciais apareciam repetidamente nos meses anteriores à morte dele: M.D., H.D. e C.A.

Marcelo. Helena. César Almeida.

Ou o pai dele.

Foi Helena quem nos deu a primeira resposta. Às 17h06, ela enviou um endereço e uma frase:

“Venha sem Bruno.”

Era uma cafeteria pequena no bairro Água Verde.

— Eu vou — falei.

Bruno protestou.

— Pode ser uma armadilha.

— E desde quando você está preocupado comigo?

Ele não respondeu.

Eduardo foi comigo. Patrícia permaneceu no escritório. Bruno também deveria permanecer, mas quando saímos vi pelo retrovisor que ele estava parado na janela, olhando para nós.

Helena chegou vinte minutos depois.

Parecia ter envelhecido dez anos desde a última vez que a vira. Sentou-se diante de mim e segurou minha mão.

Eu retirei a minha.

— Sem abraços. Sem desculpas. Quero a verdade.

Ela assentiu.

— Seu pai descobriu uma operação de lavagem de dinheiro.

Eduardo inclinou-se.

— Envolvendo Marcelo?

— Sim. Mas Marcelo não comandava nada.

— Quem comandava?

Helena respirou fundo.

— César Augusto Almeida.

Coloquei a fotografia do homem daquela manhã sobre a mesa.

— Este?

Ela olhou e imediatamente balançou a cabeça.

— Não.

Meu coração acelerou.

— Então quem é?

— O filho dele. César Henrique Almeida.

A resposta trouxe algum sentido ao documento antigo.

— Por que ele usa o nome do pai?

— Porque depois da morte de César Augusto, o filho começou a se apresentar comercialmente apenas como César Almeida. O nome abriu portas que ele sozinho nunca teria aberto.

— O pai morreu quando?

Helena ficou em silêncio.

— Seis anos atrás.

Um ano depois do meu pai.

Eduardo abriu o contrato.

— Então o acordo original era entre o pai de Mariana, Marcelo e César Augusto.

— Não exatamente.

Helena apontou para o nome da minha mãe.

— Cecília também estava envolvida.

Senti meu corpo enrijecer.

— Minha mãe foi enganada?

Helena demorou demais para responder.

— Não.

A palavra me atingiu com força.

— O que você está dizendo?

— Sua mãe sabia.

Levantei-me.

— Cuidado com o que vai falar.

Helena não desviou os olhos.

— Mariana, seu pai descobriu tudo porque Cecília pediu ajuda a ele.

Voltei lentamente à cadeira.

Segundo Helena, anos antes, minha mãe havia investido dinheiro numa empresa apresentada por Marcelo como um negócio imobiliário legítimo. O capital, porém, vinha parcialmente de César Augusto. Quando surgiram irregularidades, meu pai tentou retirar Cecília do esquema.

— Ele conseguiu?

— Em parte. Mas para proteger sua mãe, assinou aquele acordo assumindo responsabilidades que não eram dele.

— Por que faria isso?

— Porque ela poderia responder criminalmente se determinadas movimentações fossem interpretadas como participação consciente.

Minha garganta fechou.

A imagem que eu tinha da minha família começou a rachar.

— E a casa?

Helena me encarou.

— Foi comprada com dinheiro que seu pai separou legalmente anos depois. Ele colocou no seu nome para garantir que você tivesse algo completamente fora daquela história.

— Então por que ela aparece no contrato?

— Não deveria aparecer.

Eduardo imediatamente compreendeu.

— A página foi substituída.

Helena assentiu.

— Marcelo alterou o documento depois da morte do seu pai.

— E você sabia?

Os olhos dela se encheram de lágrimas.

— Descobri tarde demais.

— Mas continuou trabalhando para mim.

— Porque seu pai me pediu.

Eu ri sem humor.

— Meu pai morto pediu para você trabalhar comigo?

Helena abriu a bolsa e retirou um envelope.

— Ele deixou instruções.

Dentro havia uma carta curta escrita à mão.

Reconheci novamente a letra.

“Helena, se eu não puder proteger Mariana, mantenha-se perto dela. Marcelo não esquecerá o que perdeu.”

Precisei desviar os olhos.

— Então por que você alterou minha apólice?

— Eu não alterei.

— Usaram suas credenciais.

— Marcelo tinha acesso.

— E a apólice original?

Helena ficou em silêncio.

— Foi seu pai quem pediu que eu providenciasse.

Eu me levantei novamente.

— Meu pai estava morto.

— Ele deixou a documentação preparada antes de morrer. A contratação só foi concluída depois do seu casamento porque havia uma condição específica.

— Qual?

Helena abriu a boca, mas meu celular tocou.

Patrícia.

Atendi.

Ela estava chorando.

— Mariana, Bruno foi embora.

— Deixe.

— Não. Você não entendeu. Ele levou alguma coisa.

Olhei para Eduardo.

— O quê?

— A agenda do seu pai.

Meu coração disparou.

Revirei a pasta.

A agenda não estava lá.

— Como ele conseguiu?

— Eu fui ao banheiro. Quando voltei, ele tinha sumido.

— Liga para ele.

— Já liguei. Desligou o celular.

Helena ficou branca quando ouviu.

— Que agenda?

Expliquei sobre as iniciais.

Ela se levantou tão rápido que derrubou a cadeira.

— Mariana, vocês precisam encontrar Bruno.

— Por quê?

— Porque aquela agenda não tem apenas nomes.

— O que tem nela?

— Seu pai anotava contas, códigos e lugares.

Eduardo perguntou:

— Que lugares?

Helena olhou para mim.

— Onde ele guardou as provas originais contra Marcelo e César Augusto.

Peguei minha bolsa.

— Bruno deve estar levando a agenda para César.

Helena segurou meu braço.

— Se César descobrir o último endereço antes de vocês, os documentos desaparecem.

— Qual endereço?

Ela respirou fundo.

— Eu não sei. Seu pai nunca me contou.

Meu celular vibrou novamente.

Dessa vez era uma mensagem de Bruno.

Uma fotografia da agenda aberta.

Abaixo, apenas uma frase:

“Mariana, eu não levei isso para César. Peguei porque encontrei uma anotação que você precisava ver antes de confiar em Eduardo.”

Meu sangue gelou.

Ampliei a fotografia.

Na página, escrita pela mão do meu pai oito anos antes, havia uma linha circulada várias vezes:

“E. Farias recebeu a segunda cópia. Se algo acontecer comigo, ele sabe a verdade.”

Lentamente, ergui os olhos para Eduardo.

Ele também havia lido.

E pela primeira vez desde que tudo começara, o homem que vinha me ajudando não conseguiu sustentar meu olhar.

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