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Meu Marido Jogou Minhas Malas Na Calçada — Mas Congelou Quando Descobriu Quem Era O Verdadeiro Dono Da Casa

Fiquei olhando para Eduardo enquanto o ruído da cafeteria parecia desaparecer ao nosso redor. A anotação do meu pai continuava aberta na tela do celular: “E. Farias recebeu a segunda cópia. Se algo acontecer comigo, ele sabe a verdade.”

— Você conhecia meu pai naquela época — falei.

Eduardo respirou fundo.

— Conhecia.

— Não foi isso que perguntei. Você recebeu uma cópia?

Helena fechou os olhos, como se já soubesse qual seria a resposta.

— Recebi.

Levantei-me.

— E passou todo esse tempo fingindo que estava descobrindo isso comigo?

— Não.

— Você olhou aquele contrato no escritório do meu pai como se nunca tivesse visto nada parecido!

— Porque a versão que encontramos hoje não é igual à que ele me entregou.

Aquilo me fez parar.

Eduardo abriu a pasta e retirou o contrato azul.

— Na cópia original, sua casa não aparecia. Na verdade, ela nem poderia aparecer. O imóvel ainda não havia sido comprado quando o acordo verdadeiro foi assinado.

— Então você sabia que o documento tinha sido adulterado desde o momento em que o viu.

— Suspeitei. Precisava confirmar.

— Por que não me contou?

Ele demorou alguns segundos.

— Porque a segunda cópia desapareceu.

Helena ergueu a cabeça.

— Como assim?

Eduardo explicou que meu pai o procurara meses antes de morrer. Entregara-lhe um envelope lacrado e pedira que fosse guardado fora do escritório. Dentro havia contratos, extratos e registros de transferências envolvendo Marcelo e César Augusto.

— Três dias depois da morte do seu pai, meu escritório foi arrombado.

Senti um arrepio.

— E levaram só o envelope?

— O envelope e um computador antigo. Nada mais.

— Você nunca contou isso à polícia?

— Contei sobre o arrombamento. Não revelei o conteúdo porque seu pai havia me pedido confidencialidade.

— Meu pai estava morto!

— E você tinha vinte e cinco anos, Mariana. Sua mãe estava destruída. Eu não tinha provas suficientes para acusar ninguém.

Minha raiva não desapareceu.

— Então decidiu por mim.

— Sim.

A honestidade daquela resposta me irritou ainda mais.

— E decidiu continuar fazendo isso ontem?

— Ontem você me procurou por causa de uma possível fraude bancária. Eu não sabia se os dois assuntos estavam conectados. Hoje descobrimos que estão.

Helena permanecia inquieta.

— Eduardo, havia alguma coisa diferente na sua cópia?

Ele assentiu.

— Uma lista de transferências.

— Para quem?

— Não sei todos os beneficiários. Mas lembro de uma empresa: Vale Norte Participações.

Helena ficou pálida.

— Marcelo ainda usa esse nome.

Antes que eu perguntasse mais, meu celular tocou.

Bruno.

Atendi imediatamente.

— Onde você está?

A voz dele estava ofegante.

— Não importa. Escuta primeiro.

— Você roubou a agenda do meu pai.

— Peguei porque ouvi Eduardo falando ao telefone no corredor.

Olhei para ele.

— Com quem?

— Não sei. Mas ele disse: “Ela encontrou o contrato azul.”

Eduardo franziu a testa.

— Eu falei com um delegado que conheço.

Bruno continuou:

— Depois você saiu e eu encontrei a anotação com o nome dele.

— Onde você está?

Silêncio.

Então ouvi um barulho metálico.

— Bruno?

— César me ligou.

Meu estômago se contraiu.

— Não vá encontrar com ele.

— Já fui.

Patrícia começou a falar ao fundo. Ela aparentemente havia conseguido encontrá-lo.

— Bruno, entrega o telefone!

Ouvi uma discussão.

Depois a voz dele voltou.

— Mariana, César não quer mais a casa.

— Então o que ele quer?

— A caixa.

Olhei para Helena.

— Ele sabe que encontramos?

— Sabe.

— Como?

Bruno ficou em silêncio.

— Bruno.

— Eu contei.

Fechei os olhos.

— Por quê?

— Porque ele ameaçou Patrícia.

Ela gritou ao fundo:

— Não coloca isso em mim!

Bruno continuou:

— Eu disse apenas que havia documentos antigos. Não falei onde estavam.

— Você entregou a agenda?

— Não.

Pelo menos uma decisão inteligente.

— Venha para o escritório de Eduardo.

— Não posso.

— Por quê?

— Porque César me mostrou uma coisa.

A voz dele mudou.

— Uma gravação do seu pai.

Ninguém falou.

— Meu pai?

— Um vídeo. César Augusto estava com ele.

Helena ficou imóvel.

— O que eles diziam? — perguntei.

— Seu pai estava oferecendo dinheiro para encerrar alguma coisa. César Augusto recusou. Depois falou: “Sua filha não sabe de quem veio o dinheiro da casa.”

Meu coração bateu forte.

— A casa foi comprada depois da morte dele.

— Eu sei.

— Então a gravação é falsa ou você entendeu errado.

— Talvez. Mas César disse que tem o vídeo completo.

Eduardo estendeu a mão.

— Bruno, onde você encontrou César?

— Não vou dizer pelo telefone.

A ligação caiu.

Tentei retornar.

Desligado.

Helena estava olhando para o vazio.

— O que significa “de quem veio o dinheiro da casa”? — perguntei.

— Eu não sei.

Eu não acreditei.

— Você sabe alguma coisa.

— Seu pai tinha várias contas.

— Helena.

Ela apertou os lábios.

— Depois que ele morreu, apareceu uma transferência grande numa conta vinculada ao inventário.

— Quanto?

— Quase o valor exato que você usou como entrada na casa.

Senti um frio atravessar meu corpo.

— Minha mãe disse que aquele dinheiro vinha de uma aplicação que meu pai tinha deixado para mim.

— Foi o que eu também pensei.

— E agora?

Helena abriu a bolsa e retirou o celular.

— Depois da ligação que fiz para você hoje, procurei arquivos antigos.

Ela mostrou um extrato digitalizado.

Havia uma transferência realizada sete anos antes, quatro meses depois da morte do meu pai.

O remetente era uma empresa que eu nunca tinha visto.

Vale Norte Participações.

A mesma empresa que Eduardo acabara de mencionar.

— Marcelo — murmurei.

— Talvez — Eduardo respondeu. — Precisamos descobrir quem controlava a empresa naquela data.

Helena deslizou o dedo pela tela.

— Eu já descobri.

Mostrou outro documento.

Na época, Vale Norte tinha dois administradores.

Marcelo Duarte.

E César Augusto Almeida.

— Então parte do dinheiro usado para comprar minha casa veio deles?

— É possível — Helena disse.

Senti náusea.

Talvez a casa que eu considerara a última proteção deixada pelo meu pai tivesse sido financiada justamente pelos homens de quem ele tentara me proteger.

Meu celular vibrou.

Desta vez não era Bruno.

Era um número desconhecido.

Uma mensagem de vídeo.

Eduardo pediu que eu não abrisse, mas apertei a tela.

A imagem começou tremida.

Reconheci imediatamente meu pai.

Mais jovem, sentado diante de César Augusto.

A gravação parecia ter sido feita escondida.

Meu pai falou primeiro:

— Mariana nunca pode descobrir como o dinheiro chegou até ela.

César Augusto respondeu alguma coisa que o áudio não captou.

Então meu pai inclinou-se sobre a mesa.

— Eu aceitei o acordo porque era a única maneira de protegê-la.

O vídeo terminou.

Logo depois chegou uma mensagem:

“Quer saber do que seu pai estava protegendo você? Traga o contrato azul e a caixa. Sozinha.”

A localização veio em seguida.

Helena olhou para a tela e deixou escapar um som baixo.

— Eu conheço esse lugar.

— Onde é?

Ela levantou os olhos para mim.

— Foi onde seu pai encontrou César Augusto pela última vez.

Eduardo pegou o telefone.

— Mariana, você não vai.

Mas uma segunda mensagem chegou antes que eu respondesse.

Dessa vez havia uma fotografia.

Bruno estava sentado numa cadeira, aparentemente ileso, mas com a agenda do meu pai aberta sobre uma mesa diante dele.

Atrás dele estava César.

E sobre a mesa, ao lado da agenda, havia uma fotografia antiga que eu nunca tinha visto.

Meu pai aparecia nela.

Minha mãe também.

Entre os dois, estava César Augusto.

No verso, alguém havia escrito uma data.

Era o dia do meu nascimento.

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