— Mãe!
Liguei novamente. Uma vez. Duas. Três. Nada.
Eduardo já falava com o delegado, passando o endereço de Cecília. Eu mal conseguia acompanhar as palavras. Só enxergava a fotografia do envelope na tela e pensava em Marcelo diante da porta dela.
— Eu vou para lá.
— Nós vamos — Eduardo corrigiu. — Mas você não entra até sabermos o que está acontecendo.
Bruno deu um passo à frente.
— Eu vou também.
Olhei para ele.
— Não.
— Mariana, Marcelo chegou até sua mãe por causa de uma situação em que eu me envolvi.
— Finalmente disse alguma coisa verdadeira.
Ele recebeu o golpe em silêncio.
Patrícia segurou o braço do irmão.
— Fica aqui.
Bruno olhou para mim.
— Se precisar de alguma coisa que eu saiba sobre César, me liga.
Não respondi.
Durante o caminho até a casa da minha mãe, tentei ligar mais cinco vezes. Na sexta, alguém atendeu.
— Mãe?
Silêncio.
Então uma voz masculina:
— Mariana.
Marcelo.
Meu corpo inteiro ficou rígido.
Eduardo fez sinal para eu manter a conversa.
— Onde está minha mãe?
— Está bem.
— Quero falar com ela.
— Primeiro precisamos resolver uma coisa.
— O exame?
Houve uma pausa.
— Então ela mostrou.
— O que você quer?
— O envelope e a caixa do seu pai.
— A caixa está comigo.
Era mentira.
— Traga.
— Primeiro minha mãe.
Ouvi Cecília ao fundo:
— Mariana, não venha!
A ligação terminou.
Quinze minutos depois, a rua da casa dela já tinha movimentação policial discreta. Um agente nos impediu de avançar. A porta estava fechada, mas nenhuma movimentação era visível pelas janelas.
Então ela se abriu.
Minha mãe saiu.
Sozinha.
Corri até ela assim que permitiram.
— Você está machucada?
— Não.
— Marcelo?
Ela olhou para trás.
— Fugiu pelo quintal quando percebeu os carros.
A polícia entrou na casa.
Eu abracei minha mãe, mas ela permaneceu rígida.
— O envelope — falei.
Cecília fechou os olhos.
— Está comigo.
Sentamos no carro de Eduardo alguns minutos depois.
Minha mãe segurava o envelope no colo.
— Antes de você abrir, precisa entender uma coisa — disse.
— Estou cansada de ouvir isso.
Ela assentiu.
— Você tem razão.
Rasgou o envelope.
Dentro havia dois laudos.
Dois.
Eduardo percebeu imediatamente.
O primeiro indicava compatibilidade de paternidade entre meu pai, Augusto Ribeiro, e eu.
O segundo apresentava César Augusto Almeida.
Paternidade excluída.
Soltei o ar que nem percebera estar prendendo.
— Então acabou.
— Essa dúvida, sim — minha mãe respondeu. — Mas não foi por isso que escondi os exames.
Olhei para ela.
Cecília explicou que, quando eu tinha dois anos, César Augusto se convencera de que era meu pai. Ele e minha mãe haviam tido um relacionamento breve durante uma separação temporária entre ela e Augusto, antes da gravidez.
Meu pai soube.
E mesmo assim voltou para ela.
— Quando o exame confirmou que Augusto era seu pai, ele fez algo que eu nunca entendi completamente na época. Pediu ao laboratório uma segunda via e entregou a César um documento adulterado.
— Fazendo César acreditar que eu era filha dele.
— Sim.
— Por quê?
Minha mãe apertou as mãos.
— Porque César estava prestes a denunciar Augusto.
— Denunciar por quê?
Ela olhou para Eduardo.
— Seu pai havia descoberto a origem ilegal de parte do dinheiro de César. Mas para conseguir provas, Augusto movimentou valores através de uma empresa intermediária. Tecnicamente, poderia parecer que ele participava do esquema.
Eduardo compreendeu.
— César tinha documentos capazes de incriminá-lo.
— Sim.
— E meu pai usou a suposta paternidade para negociar?
Minha mãe começou a chorar.
— César queria fazer parte da sua vida. Augusto disse que permitiria isso no futuro se ele encerrasse determinadas operações e entregasse documentos.
Fiquei olhando para ela.
Meu pai havia transformado uma mentira sobre mim numa arma.
Talvez para proteger nossa família.
Talvez para proteger a si mesmo.
A verdade era muito menos confortável do que a imagem perfeita que eu conservara durante sete anos.
— E funcionou?
— Por algum tempo.
Até Marcelo descobrir.
Marcelo percebeu que César Augusto acreditava ser meu pai e começou a usar isso para controlar os dois homens. Foi nesse período que surgiram o contrato azul e a Vale Norte.
— Então o dinheiro da minha casa?
Minha mãe balançou a cabeça.
— Não veio de César.
— O extrato mostra Vale Norte.
— Porque seu pai tinha dinheiro dentro da Vale Norte.
Eduardo se inclinou.
— Participação oculta?
— Uma conta de garantia. Augusto colocou recursos próprios ali enquanto reunia provas. Depois da morte dele, aquele dinheiro deveria voltar para Mariana.
— E Marcelo fez parecer que vinha de César — concluí.
— Exatamente.
De repente, tudo começava a mudar.
A casa não era fruto de dinheiro criminoso.
O documento que tentava vinculá-la à dívida havia sido adulterado.
E César Henrique talvez tivesse crescido acreditando que meu pai roubara não apenas dinheiro de sua família, mas também uma filha que César Augusto pensava ser dele.
— O filho sabe do exame verdadeiro? — perguntei.
— Não.
Meu celular tocou.
César.
Dessa vez atendi sem hesitar.
— Marcelo mentiu para você — falei antes que ele pudesse dizer qualquer coisa.
Silêncio.
— Sobre muitas coisas, Mariana.
— Seu pai não era meu pai.
— É isso que Cecília diz?
— Tenho o exame.
Ele riu.
— Você acha que nunca vi um exame?
— Você viu o adulterado.
O silêncio mudou.
— O quê?
Contei apenas o necessário.
César não respondeu por quase meio minuto.
— Marcelo disse que Augusto roubou minha irmã.
Franzi a testa.
— Sua irmã?
Minha mãe ficou branca.
— César — ela sussurrou.
— Que irmã? — perguntei.
Ele respirou fundo.
— Minha irmã mais velha, Laura. Ela desapareceu quando eu tinha seis anos. Meu pai passou o resto da vida dizendo que Augusto sabia onde ela estava.
Olhei para Cecília.
Ela estava chorando novamente.
— Mãe?
César continuou:
— Marcelo me mostrou uma carta de Augusto. Nela, ele escreveu: “Laura estará segura enquanto o acordo for respeitado.”
Minha mãe cobriu a boca.
— Cecília sabe — César disse.
— Mãe, quem é Laura?
Ela balançou a cabeça.
— Não aqui.
— Chega de “não aqui”.
— Mariana...
— Quem é Laura?
Minha mãe finalmente me encarou.
— Era filha de César Augusto.
— Eu entendi isso.
— Não. Você não entendeu.
Ela segurou minha mão.
— Laura não desapareceu.
Meu coração acelerou.
— Então onde ela está?
— Seu pai ajudou a mãe dela a fugir do Brasil com a menina.
César ouviu pelo telefone.
— O quê?
Cecília aproximou-se do aparelho.
— Seu pai estava ficando perigoso, César. Sua mãe pediu ajuda a Augusto.
Do outro lado, ouvi a respiração dele ficar pesada.
— Minha mãe morreu quando eu tinha seis anos.
Cecília fechou os olhos.
— Foi o que disseram a você.
Silêncio.
— Você está mentindo.
— Não.
— Onde ela está?
— Eu não sei onde estão hoje. Augusto foi o único que manteve contato depois da fuga.
Lembrei imediatamente da agenda.
Códigos.
Contas.
Lugares.
— A agenda do meu pai — murmurei.
Eduardo também percebeu.
Liguei para Bruno.
Ele atendeu imediatamente.
— A agenda está com você?
— Está.
— Procure o nome Laura.
Ouvi páginas sendo viradas.
Dez segundos.
Vinte.
Então Bruno parou.
— Não tem Laura.
— Procura “L.A.”.
Mais páginas.
— Tem.
Meu coração disparou.
— O que está escrito?
Bruno leu lentamente:
— “L.A. — transferência anual. Não usar bancos brasileiros. Contato somente através de H.D.”
Todos olharam para Helena, que permanecera no carro atrás do nosso.
Eduardo abriu a porta e chamou-a.
— Helena, quem é Laura Almeida?
Ela parou no meio da calçada.
Seu rosto respondeu antes de sua boca.
— Onde vocês encontraram esse nome?
— Na agenda.
Helena fechou os olhos.
— Então Augusto deixou mesmo tudo registrado.
César ainda estava na ligação.
— Onde está minha irmã? — perguntou.
Helena ouviu sua voz.
E pela primeira vez desde que eu a conhecia, vi verdadeiro pânico no rosto dela.
— César?
— Onde está Laura?
Helena demorou alguns segundos.
— Sua irmã está viva.
Silêncio absoluto.
Então acrescentou:
— E Marcelo sabe onde ela está.
Antes que conseguíssemos perguntar qualquer coisa, Helena olhou para a casa de minha mãe.
Na rua oposta, um carro cinza acabara de estacionar.
Ela segurou meu braço.
— Mariana, entre no carro.
— Por quê?
Helena apontou.
Um homem saiu do veículo.
Não era Marcelo.
Era alguém muito mais velho.
Cecília soltou um grito abafado ao reconhecê-lo.
— Não pode ser...
O homem ficou parado do outro lado da rua, olhando diretamente para nós.
César ouviu a voz dela pelo telefone.
— Quem chegou?
Minha mãe parecia incapaz de responder.
Foi Helena quem disse:
— César... acho que você precisa vir para Curitiba.
— Por quê?
Ela continuou olhando para o homem.
— Porque o homem que acabou de sair daquele carro é César Augusto Almeida.
O pai de César, oficialmente morto havia seis anos.







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