— Henrique?
A ligação já tinha terminado.
Tentei retornar imediatamente. Uma vez. Duas. Três. Na quarta tentativa, o telefone foi direto para a caixa postal.
Gustavo pegou as chaves.
— Vou até a casa dele.
— Você nem sabe se ele está em casa.
— Então vou ao escritório.
Paulo bloqueou a passagem.
— Não faça isso.
— Sai da frente.
— Se Beatriz passou trinta anos protegendo alguma coisa, você acha mesmo que aparecer na porta dela no meio da madrugada vai resolver?
Gustavo encarou o homem que o criara.
— Pelo menos eu vou parar de ficar sentado ouvindo vocês contarem como decidiram minha vida sem mim.
O interfone tocou.
Meu coração disparou.
Dessa vez, o porteiro informou que havia uma mulher chamada Beatriz Azevedo esperando no térreo.
Ninguém falou.
— Ela disse que sabia onde eu estava — murmurei.
Vera levantou-se.
— Não deixe subir.
Olhei para ela.
— Por quê?
— Porque você não conhece Beatriz.
— Parece que ninguém nesta sala conhece ninguém.
Autorizei a entrada.
Quando a campainha tocou, Gustavo abriu a porta.
Beatriz Azevedo devia ter pouco mais de sessenta anos. Vestia-se com uma elegância discreta, cabelos grisalhos impecavelmente presos. Não parecia uma mulher que tivesse acabado de atravessar Belo Horizonte no meio da noite para enfrentar o filho secreto do marido morto.
Ela olhou diretamente para Gustavo.
Por alguns segundos, ninguém falou.
— Você tem os olhos de Vicente — disse.
Gustavo endureceu.
— Henrique está bem?
— Está.
— Então por que o telefone dele desligou?
— Porque pedi que desligasse.
— Pediu ou obrigou?
Beatriz entrou sem responder.
Quando viu Roberto, sua expressão mudou.
— Ainda vivo.
— Para sua infelicidade.
— Nunca tive interesse na sua morte, Roberto.
— Só na de Helena?
O rosto dela permaneceu imóvel.
— Cuidado.
Eu me coloquei entre os dois.
— Minha mãe morreu seis anos atrás. Se você sabe alguma coisa, vai falar comigo.
Beatriz me estudou.
— Você se parece muito com ela.
— Todo mundo parece ter conhecido minha mãe melhor do que eu. Estou cansada dessa frase.
Ela respirou fundo.
— Helena me procurou aproximadamente dois meses antes do acidente. Tinha documentos mostrando desvios de dinheiro em empresas ligadas à minha família.
— Dinheiro de Gustavo?
— Inicialmente, sim. Depois o esquema cresceu.
— Você roubava dos dois filhos de Vicente?
Pela primeira vez, Beatriz pareceu ofendida.
— Não.
Gustavo riu.
— Henrique acabou de dizer que meu pai descobriu que você estava roubando nós dois.
— Henrique acredita nisso porque foi isso que Helena concluiu.
— E estava errada?
Beatriz abriu a bolsa e retirou um pequeno gravador digital antigo.
— Escute.
Ela apertou um botão.
A voz que saiu era fraca, mas reconheci imediatamente.
Minha mãe.
“Se você estiver gravando, Beatriz, grave direito. Eu não disse que foi você. Disse que as transferências levam a uma empresa registrada no seu nome.”
Depois veio a voz de Beatriz.
“Uma empresa que não administro há vinte anos.”
Minha mãe respondeu:
“Então descubra quem administra.”
A gravação terminou.
— Por que minha mãe se encontraria com você? — perguntei.
— Porque percebeu que alguém estava tentando colocar nós duas uma contra a outra.
Roberto balançou a cabeça.
— Conveniente.
Beatriz olhou para ele.
— Helena começou a desconfiar de você antes de morrer porque sua assinatura aparecia em quatro transferências.
— Eu já expliquei isso.
— E a assinatura de Paulo aparece em outras sete.
Gustavo virou-se para Paulo.
Ele não negou.
— Eu assinei documentos a pedido de Vicente.
— Sem ler? — perguntei.
— Alguns, sim.
Beatriz continuou:
— O esquema dependia justamente disso. Pessoas diferentes assinavam pequenas partes. Ninguém enxergava o todo.
— Quem enxergava? — perguntei.
Ela olhou para Vera.
Minha sogra recuou.
— Não.
— Vera cuidava dos documentos pessoais de Gustavo. Paulo movimentava contas. Roberto fornecia empresas. Vicente autorizava pagamentos. Eu aparecia como proprietária de holdings. Mas havia uma única pessoa que transitava entre todos nós.
— Quem? — Gustavo perguntou.
Beatriz respondeu:
— O advogado de Vicente.
Paulo empalideceu.
— Augusto Nogueira?
— Exatamente.
O nome parecia novo para mim, mas não para os outros.
— Ele morreu — Vera disse.
— Há dois anos — Beatriz respondeu. — E deixou arquivos.
— Com quem?
Ela olhou para mim.
— Helena encontrou parte deles.
Tudo voltava ao compartimento 214.
— O que existe naquele depósito?
— Não sei exatamente. Helena me disse que guardaria cópias das provas, o segundo testamento e uma gravação de Augusto.
— Confessando?
— Talvez.
— E por que colocou Henrique como segundo titular?
Beatriz ficou em silêncio.
— Porque minha mãe confiava nele? — perguntei.
— Sim. E porque Henrique foi a primeira pessoa da família Azevedo a descobrir que Augusto continuava desviando dinheiro mesmo depois da morte de Vicente.
Gustavo franziu a testa.
— Então por que Henrique tentou me fazer assinar aquela renúncia?
Beatriz virou-se lentamente para ele.
— Que renúncia?
O silêncio mudou de natureza.
Gustavo explicou a proposta feita dois meses antes.
Vi a surpresa verdadeira no rosto de Beatriz.
— Henrique nunca teve autoridade para oferecer participação societária em troca disso.
— Ele disse que representava a família.
— Não representava.
— Então ele mentiu.
Beatriz pegou o celular.
— Ou alguém falou em nome dele.
Ligou para o filho no viva-voz.
Henrique atendeu depois de alguns segundos.
— Mãe?
— Você ofereceu dinheiro a Gustavo para ele renunciar à filiação?
Silêncio.
— Henrique?
— Não.
Gustavo avançou.
— Você esteve no meu escritório.
— Estive. Para avisar que alguém estava tentando comprar sua renúncia.
Meu marido ficou paralisado.
— Você deixou uma pasta.
— Deixei documentos mostrando que a proposta era fraudulenta. Você nem abriu?
Gustavo ficou branco.
Eu soube a resposta.
— Onde está essa pasta? — perguntei.
— No meu escritório.
— Vá buscar — Beatriz disse.
Henrique interrompeu:
— Não.
Todos olharam para o telefone.
— Por quê? — perguntei.
— Porque se a pasta ainda estiver lá, alguém com acesso ao prédio pode estar esperando exatamente isso.
Gustavo respirou fundo.
— Então amanhã primeiro abrimos o compartimento.
— Sim — Henrique respondeu. — Em local público, com testemunhas.
Beatriz olhou para mim.
— Eu vou junto.
— Não — respondi. — O cadastro tem meu nome e o de Henrique. Vamos nós.
Na manhã seguinte, pouco depois das nove, Gustavo e eu chegamos ao depósito para onde os antigos guarda-volumes tinham sido transferidos. Henrique já estava esperando.
Pela primeira vez eu o vi pessoalmente.
A semelhança com Gustavo não era evidente à primeira vista. Mas quando os dois ficaram lado a lado, havia pequenos detalhes impossíveis de ignorar.
O formato das mãos.
O jeito de franzir a testa.
O mesmo movimento involuntário da mandíbula quando estavam tensos.
Entreguei meus documentos. Henrique fez o mesmo.
Um funcionário nos conduziu até uma sala reservada.
O compartimento 214 era uma caixa metálica comprida.
Inseri a chave.
Por um instante, pensei em minha mãe fazendo exatamente aquele movimento anos antes.
Abri.
Dentro havia três pastas, um envelope lacrado e um pequeno pen drive.
Na primeira pasta estava o exame confirmando Vicente como pai de Gustavo.
Na segunda, dezenas de transferências.
Na terceira, o testamento.
Henrique ficou imóvel.
Gustavo começou a ler.
Vicente reconhecia a existência de um segundo filho biológico e determinava que, após confirmação genética, parte significativa de suas ações e patrimônio fosse transferida a ele.
Mas havia uma cláusula adicional.
— Henrique — Gustavo murmurou.
Ele se aproximou.
A cláusula dizia que, caso fosse comprovado desvio fraudulento do fundo criado para Gustavo, o responsável perderia qualquer direito de administração sobre o patrimônio familiar.
— Isso explica muita coisa — Henrique disse.
Peguei o envelope lacrado.
Na frente estava escrito:
“Carolina, abra antes de ouvir a gravação.”
Minhas mãos tremiam.
Dentro havia uma carta de minha mãe.
Comecei a ler.
“Filha, se você chegou até aqui, descobriu quase tudo. Mas existe um erro que eu cometi e pelo qual talvez nunca consiga me perdoar. Durante meses acreditei que Augusto Nogueira era o responsável. Eu estava errada.”
Parei.
Gustavo aproximou-se.
Continuei.
“Augusto estava encobrindo alguém.”
Meu coração acelerou.
A linha seguinte parecia escrita com mais força.
“Descobri a identidade dessa pessoa na noite anterior ao meu acidente.”
Henrique olhou para o pen drive.
Eu continuei lendo.
“Não confie apenas nos documentos. Escute a gravação. Você reconhecerá a voz.”
Gustavo conectou o pen drive ao notebook disponível na sala.
Havia um único arquivo de áudio.
Apertei play.
Primeiro ouvimos a voz de Augusto Nogueira.
“Eu fiz o que você mandou. Falsifiquei a morte do garoto, movimentei o fundo e mantive Vicente longe. Agora acabou.”
Então outra pessoa respondeu.
Uma voz que eu conhecia.
Uma voz que tinha ouvido durante oito anos em aniversários, almoços de domingo e reuniões familiares.
Henrique não reconheceu.
Gustavo reconheceu imediatamente.
Seu rosto perdeu toda a cor.
Eu também.
Era Paulo.
Mas a gravação continuou.
E então Augusto disse:
“Você pode continuar mentindo para Vera, mas nós dois sabemos que nunca fez isso para proteger Gustavo. Fez porque, se Vicente recuperasse o filho, ele descobriria que você já tinha roubado o primeiro milhão antes mesmo do menino completar seis anos.”
Gustavo fechou os olhos.
Eu pensei que aquela fosse a pior revelação.
Até ouvirmos Paulo responder:
“Helena descobriu demais. Se ela levar esses documentos à polícia amanhã, todos nós caímos.”
Houve alguns segundos de silêncio na gravação.
Depois Augusto perguntou:
“E o que você pretende fazer com ela?”
O arquivo terminou.







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