O silêncio depois da gravação pareceu mais alto do que qualquer grito.
Gustavo continuava olhando para a tela do notebook. Henrique permaneceu ao lado dele, imóvel. Eu só conseguia ouvir novamente a última frase de Augusto dentro da minha cabeça.
“O que você pretende fazer com ela?”
E então nada.
— Isso não prova que Paulo matou minha mãe — eu disse.
Minha própria voz parecia distante.
Henrique assentiu.
— Não prova. Mas prova que Helena estava prestes a denunciá-lo e que ele sabia disso antes do acidente.
Gustavo fechou o notebook.
— Vamos à polícia.
Dessa vez, ninguém discutiu.
Fotografamos os documentos, fizemos cópias digitais e deixamos os originais no compartimento. Henrique pediu ao responsável pelo depósito que registrasse formalmente nosso acesso e impedisse qualquer retirada sem a presença dos dois titulares.
Quando saímos, liguei para Roberto.
Ele atendeu imediatamente.
— Encontraram?
— Encontramos.
— O quê?
— A voz de Paulo.
Silêncio.
— Carolina...
— Onde ele está?
— Não sei. Quando acordei, Vera disse que ele tinha saído.
— Não deixe Vera ir embora.
Desliguei.
Gustavo dirigiu de volta ao apartamento enquanto Henrique nos seguia em outro carro. No caminho, meu marido quase não falou.
— Você está bem? — perguntei.
Ele riu sem humor.
— Descobri em menos de vinte e quatro horas que meus pais biológicos não são quem eu pensava, meu irmão era meu chefe, fui usado como doador quando criança, falsificaram minha morte e o homem que me criou pode estar envolvido na morte da sua mãe. Não sei mais o que “bem” significa.
Eu toquei a mão dele.
Dessa vez, ele apertou a minha.
— E nós? — perguntou.
Olhei pela janela.
— Nós ainda temos uma conversa enorme pela frente.
— Eu sei.
— Você escondeu os envelopes.
— Eu sei.
— E isso não desaparece só porque descobrimos coisas piores.
— Eu sei.
Pela primeira vez desde o restaurante, não tentou se justificar.
Quando chegamos ao prédio, Roberto nos esperava no saguão.
— Vera sumiu.
Meu coração afundou.
— Como?
— Disse que iria tomar banho. Quando percebi, tinha saído pela garagem.
Gustavo fechou os olhos.
— Ela foi atrás de Paulo.
Henrique aproximou-se.
— Ou avisá-lo.
Subimos.
A pasta metálica de Paulo continuava sobre a mesa. Começamos a revisar tudo enquanto aguardávamos orientação das autoridades sobre a entrega do material.
Foi Henrique quem percebeu primeiro.
— Aqui.
Um comprovante de pagamento feito apenas quatro dias antes da morte de minha mãe.
Beneficiário: uma oficina mecânica em Contagem.
Descrição: serviço particular.
— O carro da minha mãe passou por perícia — eu disse. — Nunca encontraram defeito mecânico.
Roberto pegou o documento.
— Conheço essa oficina.
— Como?
— Augusto usava o dono para emitir notas falsas.
Meu estômago revirou.
Henrique procurou o nome da empresa.
— Fechou há cinco anos.
Gustavo apontou para uma anotação manuscrita no verso.
Um telefone.
Liguei.
Número inexistente.
Mas havia também um nome.
Márcio.
Roberto empalideceu.
— Eu conheço esse homem.
— Quem é?
— Ele fazia serviços para Paulo.
— Que tipo de serviços?
— Coisas que Paulo não queria associadas ao próprio nome.
A cada resposta, o homem que eu conhecera durante anos desaparecia um pouco mais.
Foi então que a porta se abriu.
Vera entrou sozinha.
Gustavo avançou.
— Onde está Paulo?
Ela estava chorando.
— Eu não sei.
— Para de mentir!
— Desta vez eu não estou mentindo.
Mostrei a ela o comprovante da oficina.
— Quatro dias antes da morte da minha mãe.
Vera levou a mão à boca.
— Não.
— Você reconhece?
— Sim.
— Então fala.
Ela sentou-se.
— Paulo disse que precisava mandar verificar um carro.
Meu corpo inteiro ficou frio.
— Qual carro?
— Eu nunca perguntei.
— Conveniente.
— Carolina, eu juro.
Coloquei o celular sobre a mesa e reproduzi parte da gravação.
Quando Vera ouviu a voz do marido, começou a tremer.
— Eu não sabia disso.
— Você sabia de tantas outras coisas.
— Mas disso, não.
A gravação chegou à frase sobre Helena.
Vera fechou os olhos.
— Meu Deus.
Quando terminou, Gustavo se ajoelhou diante dela.
— Mãe, olha para mim.
Ela abriu os olhos.
— Se ainda existe alguma coisa que você não contou, esta é sua última chance.
Vera chorou em silêncio.
Depois falou:
— Na noite do acidente, Paulo saiu de casa.
Ninguém respirou.
— Que horas? — perguntei.
— Pouco depois das dez.
— Para onde?
— Disse que Augusto tinha ligado.
Roberto olhou para mim.
— Helena me deixou no posto perto das dez e meia.
— Que horas aconteceu o acidente?
— Pouco depois das onze.
As peças começaram a se aproximar perigosamente.
— Quando Paulo voltou? — Gustavo perguntou.
— Quase duas da manhã.
— Como ele estava?
Vera demorou.
— Molhado. Nervoso.
Meu coração disparou.
— Estava chovendo naquela noite.
— Sim.
— Ele explicou?
— Disse que o carro tinha quebrado.
Henrique apontou para a pasta.
— Qual carro?
Vera ficou imóvel.
— O nosso sedã preto.
Roberto fechou os olhos.
O carro que ele vira seguindo minha mãe.
— Onde está aquele carro? — perguntei.
— Paulo vendeu poucos dias depois.
Meu corpo começou a tremer.
Gustavo me segurou.
Então o celular de Vera tocou.
Paulo.
Ela colocou no viva-voz.
— Onde você está? — perguntou.
— Vera, estou indo embora.
— A polícia vai procurar você.
Silêncio.
— Eles encontraram a gravação? — ele perguntou.
Aquilo foi uma confirmação brutal: Paulo sabia exatamente do que ela falava.
Gustavo tomou o telefone.
— Pai.
— Filho...
— Não me chama assim. Onde você está?
— Eu fiz coisas terríveis, Gustavo. Mas existe uma coisa que vocês entenderam errado.
— Então volta e explica.
— Não posso.
Peguei o telefone.
— Você matou minha mãe?
Silêncio.
— Paulo!
Quando respondeu, sua voz estava quebrada.
— Não.
— Você estava seguindo ela naquela noite?
— Sim.
Fechei os olhos.
— Por quê?
— Para recuperar os documentos antes que ela chegasse à polícia.
— Você mexeu no carro dela?
— Não.
— Então quem mexeu?
— Ninguém precisava mexer.
Aquela resposta me confundiu.
— O que significa?
Paulo respirou fundo.
— O acidente não aconteceu porque o carro apresentou defeito.
— Então como aconteceu?
— Eu alcancei Helena na estrada. Tentei fazê-la parar. Ela acelerou. Eu fui atrás.
Meu coração parecia querer sair do peito.
— Você provocou o acidente.
— Eu não toquei no carro dela.
— Mas perseguiu uma mulher numa estrada molhada!
Paulo começou a chorar.
— Eu queria os documentos. Só isso. Quando ela perdeu o controle, eu parei. Corri até o carro.
Minha voz falhou.
— Ela estava viva?
O silêncio dele respondeu antes das palavras.
— Estava.
Precisei me apoiar em Gustavo.
— E você chamou uma ambulância?
Paulo chorava agora.
— Não.
O mundo desapareceu ao meu redor.
— Por quê?
— Porque ela estava consciente.
— Isso deveria ter feito você ajudá-la!
— Ela olhou para mim e disse que os documentos já estavam seguros. Disse que, mesmo se morresse, você descobriria tudo.
Minha garganta queimou.
— Então você deixou minha mãe morrer.
— Eu entrei em pânico.
— Você deixou minha mãe morrer!
Gustavo me abraçou quando minhas pernas cederam.
Do telefone veio apenas o choro de Paulo.
Então ele disse:
— Carolina, há algo que você precisa saber antes de me odiar pelo resto da vida.
— Não existe nada que mude isso.
— Existe uma pessoa que chegou ao acidente depois de mim.
Todos ficaram em silêncio.
— Quem?
— Augusto.
Henrique se aproximou.
— O advogado?
— Sim. Ele tinha me seguido.
— E o que aconteceu?
A voz de Paulo baixou.
— Quando eu fui embora, Helena ainda estava viva.
Meu coração parou novamente.
— Você acabou de dizer que a deixou.
— Deixei. E isso vai me perseguir até morrer. Mas Augusto ficou lá.
— Como você sabe?
— Porque, vinte minutos depois, ele me ligou.
— E disse o quê?
Paulo respirou fundo.
— “Agora ela não vai contar nada.”
Ninguém falou.
Então ouvimos um anúncio ao fundo da ligação.
Uma voz informava o embarque de um voo.
Henrique reconheceu primeiro.
— Você está no aeroporto.
Gustavo pegou as chaves.
— Qual aeroporto, Paulo?
A ligação ficou muda por alguns segundos.
Depois Paulo respondeu:
— Confins.
E desligou.







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