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O Garçom Se Recusou A Passar Meu Cartão — Minutos Depois, Descobri Que Meu Nome Escondia Uma Fortuna De R$ 70 Milhões

Ninguém tocou no computador.

Augusto permanecia congelado na tela, segurando o envelope branco que, segundo ele, continha uma resposta escondida havia trinta e cinco anos.

Gabriel foi o primeiro a quebrar o silêncio.

— Continua.

Marcelo reiniciou o vídeo.

A imagem voltou a se mover.

— Beatriz me procurou quando Gabriel tinha quase um ano — dizia Augusto. — Ela precisava saber se Henrique era o pai antes de decidir se contaria a verdade. Eu consegui organizar o exame de forma particular.

Olhei para Beatriz.

Ela chorava.

— Você fez o exame?

— Fiz.

— E nunca me contou?

— Eu nunca recebi o resultado.

Na gravação, Augusto parecia antecipar aquela resposta.

— Beatriz não sabe disso, mas Roberto interceptou o resultado antes que chegasse até ela.

Gabriel apertou as mãos.

Augusto continuou:

— Anos depois, encontrei uma cópia entre documentos de Roberto. Guardei o original num lugar ao qual ele não deveria ter acesso.

A gravação sofreu outra interferência.

Quando retornou, Augusto dizia:

— Eduardo sabe onde está.

O vídeo terminou.

Marcelo virou-se imediatamente para mim.

— Então Roberto queria que desconfiássemos de Eduardo.

— Ou Augusto queria que confiássemos nele — respondi.

Depois de tudo, eu não estava disposto a aceitar nenhuma direção sem verificar.

Liguei para Eduardo.

Ele atendeu.

— Encontramos o vídeo de Augusto.

Silêncio.

— Então chegaram à sala 14.

— Onde está o exame?

Eduardo respirou fundo.

— Comigo.

Gabriel se levantou.

— Quero vê-lo.

— Tragam Beatriz e Gabriel ao meu escritório.

— Por que Beatriz?

— Porque há uma segunda coisa que ela precisa receber.

Quarenta minutos depois estávamos novamente diante de Eduardo. Laura também veio. Quando entrou, encarou-o com frieza.

— Você sabia que meu pai estava vivo?

— Suspeitava.

— E não me contou.

— Eu precisava de prova.

— Você tinha a gravação de Augusto.

— Tinha um aviso de um homem morto. Não uma prova de que Roberto estava vivo.

Eduardo abriu um cofre atrás da estante.

Retirou dois envelopes.

Um deles era antigo.

Colocou-o diante de Gabriel.

— O laboratório que realizou o exame não existe mais, mas Augusto guardou o laudo original e os registros de cadeia documental.

Gabriel olhou para mim.

Durante todas aquelas horas, eu havia imaginado esse momento. Pensei que desejaria arrancar o papel e descobrir imediatamente.

Mas diante dele, hesitei.

Trinta e seis anos de uma vida estavam dentro daquele envelope.

— Podemos fazer um exame novo — falei.

Gabriel pareceu surpreso.

— Você não quer abrir?

— Quero. Mas não quero que nossa relação, seja qual for, comece dependendo de um documento que passou pelas mãos de Roberto.

Ele ficou alguns segundos me olhando.

Então assentiu.

— Concordo.

Beatriz começou a chorar com mais força.

Eduardo empurrou o segundo envelope para ela.

— Augusto pediu que isto fosse entregue quando Henrique descobrisse a verdade sobre a Vértice.

Beatriz abriu.

Era uma declaração societária.

Ela leu rapidamente e empalideceu.

— Não pode ser.

— O quê? — perguntei.

Ela me entregou.

Augusto havia deixado instruções para transferir sua participação de quarenta por cento na Vértice após sua morte.

Mas não para os herdeiros dele.

Nem para Beatriz.

Nem para Gabriel.

A participação seria transferida para mim, desde que fosse comprovado que a operação original ocorrera sem meu consentimento.

Somada aos cinquenta e dois por cento econômicos que Gabriel identificara, aquilo significaria controle praticamente absoluto sobre o patrimônio.

— Por que Augusto faria isso? — perguntou Marcelo.

Eduardo respondeu:

— Reparação.

— Quarenta milhões em reparação?

— Não são quarenta milhões.

Abriu outra pasta.

— A avaliação que vocês viram está desatualizada.

Os imóveis valiam quase setenta milhões.

A sala ficou silenciosa.

Mas minha atenção estava em outra coisa.

— Roberto quer a Vértice.

— Sim — disse Eduardo.

— Então por que reaparecer agora?

— Porque amanhã haverá uma assembleia extraordinária. Se a declaração de Augusto for reconhecida e a fraude original comprovada, Roberto perde qualquer possibilidade de reivindicar a participação que um dia esteve ligada a ele.

Laura ficou rígida.

— Como meu pai poderia reivindicar alguma coisa se oficialmente está morto?

Eduardo olhou para ela.

— Usando você.

Laura levantou-se.

— Eu nunca assinei nada para ele.

— Tem certeza?

O rosto dela mudou.

A mesma pergunta que eu fizera a mim mesmo.

Eduardo colocou um documento sobre a mesa.

Era uma procuração assinada por Laura dois anos antes, quando organizava o espólio do pai.

— Isso era para encerramento de contas no exterior.

— Os poderes são mais amplos.

Laura começou a ler.

— Não...

A estrutura se repetia.

Roberto fazia com a própria filha aquilo que fizera comigo.

Usava uma autorização verdadeira para sustentar atos que a pessoa nunca pretendeu permitir.

— Podemos impedir a assembleia? — perguntou Marcelo.

— Não devemos — respondi.

Todos olharam para mim.

— Roberto passou dezessete anos escondido atrás de documentos e intermediários. Se quer alguma coisa amanhã, talvez finalmente apareça.

Eduardo assentiu.

— Foi o que Augusto esperava.

Na manhã seguinte, entramos na sede administrativa da Vértice.

A assembleia começou às dez.

Eduardo apresentou a declaração de Augusto. Laura contestou formalmente qualquer uso da procuração em nome dela. Eu apresentei minha declaração de desconhecimento da operação original e os primeiros indícios de falsificação.

Às dez e quarenta e sete, a porta se abriu.

Um homem entrou acompanhado por dois advogados.

Mais velho.

Mais magro.

Mas reconheci imediatamente o rosto da fotografia.

Roberto Monteiro.

Beatriz ficou imóvel.

Laura começou a chorar.

Roberto olhou para a filha, depois para a irmã e finalmente para mim.

— Henrique.

Levantei-me.

— Dezessete anos.

— Eu esperava que demorasse menos.

— Você falsificou minha assinatura.

— Algumas vezes.

A tranquilidade dele me revoltou.

— E roubou dinheiro da minha empresa.

— Essa parte é discutível.

— Não para mim.

Roberto colocou uma pasta sobre a mesa.

— Então talvez devêssemos discutir a única coisa que Augusto não contou no vídeo.

Eduardo ficou tenso.

— Roberto, cuidado.

Ele sorriu.

— Ainda protegendo os mortos, Eduardo?

Abriu a pasta.

Dentro havia documentos bancários e uma gravação antiga.

— Augusto não criou a Vértice para proteger Henrique.

— Então para quê? — perguntou Gabriel.

Roberto olhou diretamente para mim.

— Para proteger Beatriz.

Meu coração acelerou.

— De quê?

Ele apertou o botão de um pequeno gravador.

A voz de Augusto surgiu, muito mais jovem.

“Se Henrique descobrir que o dinheiro foi usado para cobrir a conta de Beatriz, o casamento acaba.”

Olhei para minha ex-mulher.

Ela estava branca.

— Que conta?

Roberto respondeu antes dela.

— Uma conta no exterior pela qual passaram os dois milhões e quatrocentos mil antes da compra do imóvel.

— Por quê?

— Porque a transferência para a Vértice não começou comigo.

Ele virou o extrato em minha direção.

O titular da conta era Beatriz.

E havia uma transferência realizada três dias antes da fraude que conhecíamos.

Origem: uma conta conjunta.

Titulares:

Henrique Almeida e Beatriz Monteiro Almeida.

Dessa vez, a autorização eletrônica registrada ao lado do meu nome não parecia falsificada.

Roberto inclinou-se sobre a mesa.

— Você passou dezessete anos acreditando que alguém roubou dois milhões e quatrocentos mil de você, Henrique.

Fez uma pausa.

— O problema é que esse dinheiro talvez nunca tenha pertencido à Almeida & Vasconcelos.

Empurrou o extrato até minhas mãos.

— Pertencia a você e Beatriz.

E no campo de finalidade da transferência havia apenas duas palavras:

“Para Gabriel.”

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