— Marcelo Almeida?
Li o nome outra vez, como se a segunda leitura pudesse transformá-lo em outra pessoa. Não transformou. A data também continuava ali: quatro meses atrás.
Fernanda permaneceu em silêncio enquanto eu tentava organizar pensamentos que pareciam não caber na mesma realidade. Marcelo era filho da minha irmã, Helena. Tinha trinta e seis anos e trabalhava havia algum tempo com consultoria empresarial. Pelo menos era isso que dizia nos almoços de família. Nunca fomos extremamente próximos, mas eu o vira crescer. Ajudei a pagar parte da faculdade quando meu cunhado morreu. Dei a ele o primeiro computador. Quando completou dezoito anos, fui eu quem lhe ensinou a preencher a primeira declaração de imposto de renda.
E agora seu nome aparecia como responsável pela renovação de uma garantia que eu nunca havia autorizado.
— Você conhece essa pessoa? — perguntou Fernanda.
— É meu sobrinho.
Ela recostou-se devagar na cadeira.
— Então talvez ele consiga explicar.
— Talvez.
Peguei o celular, mas não liguei imediatamente. Primeiro fotografei a tela. A página inteira, depois a assinatura, a data e o campo com o nome de Marcelo. Anos de auditoria me ensinaram uma regra simples: antes de confrontar alguém, preserve aquilo que ele pode tentar fazer desaparecer.
— Existe histórico de alterações desse arquivo?
Fernanda começou a navegar pelo sistema.
— Aqui não. Mas o jurídico provavelmente tem.
— Quem é o proprietário do imóvel?
Ela hesitou.
— Uma empresa chamada Vértice Patrimonial.
O nome não me dizia nada.
— E quem representa essa empresa?
— Não sei.
— Descubra.
Fernanda virou-se para mim.
— Henrique, preciso tomar cuidado. Posso perder meu emprego.
— E eu posso descobrir que alguém colocou uma dívida de oitocentos mil reais nas minhas costas.
Ela baixou os olhos.
Eu me arrependi do tom.
— Não estou pedindo que faça nada ilegal. Só quero saber o que consta nos documentos aos quais você tem acesso.
Fernanda assentiu e abriu outra pasta. Enquanto pesquisava, meu celular vibrou.
Era Helena.
Minha irmã.
Olhei para o nome dela na tela e senti um desconforto imediato. Eu havia saído da casa dela menos de duas horas antes. Tomamos café, conversamos sobre coisas banais e, em determinado momento, ela comentou que Marcelo estava “finalmente crescendo profissionalmente”.
Na hora, não dei importância.
Atendi.
— Oi, Helena.
— Você chegou em casa?
— Ainda não.
— Onde está?
Olhei para Fernanda.
— Num restaurante.
Houve uma pequena pausa.
— Qual?
A pergunta veio rápida demais.
— Por quê?
— Curiosidade.
Minha irmã nunca perguntava em qual restaurante eu estava.
— Nos Jardins.
O silêncio do outro lado ficou maior.
— Henrique… qual restaurante?
Meu coração acelerou.
— Por que você quer saber?
— Porque você disse que fazia anos que não passava naquela região e eu fiquei preocupada.
Mentira.
Eu conhecia a voz da minha irmã havia sessenta e dois anos. Sabia quando ela estava irritada, cansada, feliz e, principalmente, quando tentava esconder medo.
— Helena, onde está Marcelo?
Ela demorou.
— Não sei. Por quê?
— Quero falar com ele.
— Aconteceu alguma coisa?
Em vez de responder, fiz outra pergunta.
— Você conhece a Almeida & Vasconcelos Participações?
Silêncio.
Dessa vez, tão profundo que consegui ouvir a televisão ligada na casa dela.
— Helena?
— Essa empresa não existe mais.
Senti um arrepio subir pelos braços.
Eu não tinha perguntado se a empresa ainda existia.
Apenas se ela conhecia o nome.
— Quem te disse que não existe mais?
— Você mesmo. Anos atrás.
— Eu disse que encerrei minha sociedade com Augusto.
— Não é a mesma coisa?
— Não necessariamente.
Fernanda parou de mexer no computador e me observou.
— Henrique, não estou entendendo essa conversa — disse Helena.
— Nem eu.
Desliguei.
Não queria acusá-la sem provas, mas aquela reação havia acrescentado uma peça desagradável ao quebra-cabeça.
Fernanda finalmente encontrou outro documento.
— Achei a notificação.
Aproximei-me.
Era uma cobrança formal. O restaurante tinha trinta dias para regularizar os débitos antes que fossem tomadas medidas contra os responsáveis contratuais e garantidores.
— Quando termina o prazo?
Fernanda verificou.
— Amanhã.
Meu estômago apertou.
— Amanhã?
— Sim.
Agora eu entendia por que aquilo não podia ser apenas coincidência. Depois de dezessete anos sem saber que meu nome permanecia ligado à empresa, eu entrara justamente naquele restaurante na véspera do vencimento de uma cobrança que poderia chegar até mim.
— Imprima isso.
— Henrique...
— Essa notificação menciona meu nome. Tenho direito de saber por que estou sendo cobrado.
Fernanda imprimiu as páginas.
Peguei-as e comecei a ler com calma.
Na terceira página havia a indicação do escritório responsável pela cobrança. Na quarta, os dados da Vértice Patrimonial.
Então encontrei algo ainda mais estranho.
O restaurante devia quase oitocentos mil reais, mas a garantia vinculada à Almeida & Vasconcelos não se limitava ao débito atual. Havia uma cláusula de responsabilidade solidária que poderia alcançar obrigações futuras até o encerramento formal do contrato.
— Isso é uma armadilha — murmurei.
Fernanda aproximou-se.
— Como assim?
— Quem renovou isso sabia exatamente o que estava fazendo.
Peguei o celular e liguei para Marcelo.
Chamou três vezes.
Ele atendeu.
— Tio Henrique?
Sua voz parecia normal.
— Onde você está?
— Em casa. Por quê?
— Preciso conversar com você.
— Pode falar.
Olhei para o documento.
— Prefiro pessoalmente.
Outra pausa.
— Aconteceu alguma coisa com a mamãe?
— Não. É sobre você.
A voz dele mudou.
— Sobre mim?
— Almeida & Vasconcelos Participações.
Silêncio.
Não precisei dizer mais nada.
— Tio, onde você ouviu esse nome?
Fechei os olhos por um instante.
Era a segunda pessoa da minha família que reagia daquela maneira.
— Estou olhando para um documento assinado por você quatro meses atrás.
Marcelo respirou fundo.
— Henrique, escuta...
Ele raramente me chamava pelo primeiro nome.
— Estou escutando.
— Não faça nada hoje.
— Por quê?
— Porque você não sabe no que está mexendo.
Olhei para Fernanda.
— Então me explique.
— Não pelo telefone.
— Venha até aqui.
Marcelo ficou calado.
Depois perguntou:
— Você está no restaurante?
A pergunta confirmou que ele sabia exatamente de qual lugar estávamos falando.
— Estou.
Ouvi alguma coisa do outro lado. Uma porta, talvez. Depois passos.
— Saia daí, tio.
— Marcelo...
— Estou falando sério. Pegue seus documentos e vá embora agora.
— Quem falsificou minha assinatura?
Ele não respondeu.
— Foi você?
— Não.
A resposta veio imediatamente.
— Então quem foi?
Por alguns segundos ouvi apenas sua respiração.
Quando finalmente falou, sua voz estava muito mais baixa.
— Eu descobri a assinatura quatro meses atrás. Foi por isso que renovei o contrato.
Aquilo não fazia sentido.
— Você encontrou uma fraude e renovou a garantia?
— Porque, se eu não renovasse, eles acionariam você naquele mesmo dia.
— Eles quem?
Marcelo hesitou.
— Augusto.
Meu corpo inteiro ficou imóvel.
— Augusto Vasconcelos?
— Ele nunca saiu da empresa, tio.
Olhei novamente para a assinatura falsificada.
— Onde ele está?
Marcelo respirou fundo antes de responder.
— Esse é o problema. Augusto morreu há três anos.
A sala pareceu diminuir ao meu redor.
— Então quem está fazendo tudo isso?
Marcelo ficou em silêncio por alguns segundos.
Quando respondeu, cada palavra veio cuidadosamente.
— Antes de morrer, Augusto transferiu a parte dele da Almeida & Vasconcelos.
— Para quem?
— Eu não sei quem é o dono final. Só encontrei uma empresa intermediária.
— Qual?
Marcelo disse o nome.
Olhei imediatamente para Fernanda.
Ela já estava encarando a tela.
Porque o nome que meu sobrinho acabara de pronunciar era exatamente o mesmo que aparecia como proprietária do prédio.
Vértice Patrimonial.
Antes que eu pudesse fazer outra pergunta, Fernanda apontou para uma linha no documento.
— Henrique...
Aproximei-me.
Ali constava o endereço oficial da Vértice.
Eu conhecia aquele endereço.
Tinha acabado de sair de lá naquela mesma noite.
Era o prédio onde minha irmã Helena morava.







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