O nome de Beatriz ficou suspenso entre nós.
Durante dezessete anos, eu havia conseguido pensar no fim do meu casamento como uma ferida antiga: dolorosa quando tocada, mas fechada. Beatriz e eu fomos casados por vinte e três anos. Não tivemos filhos. Quando nos separamos, ela disse que estava cansada de viver ao lado de um homem que sempre levava os problemas do escritório para casa. Eu aceitei parte da culpa. Assinamos o divórcio sem guerra, dividimos o patrimônio e nunca mais nos vimos.
Agora Helena me dizia que, enquanto nossa vida desmoronava, minha mulher se reunia escondida com meu sócio.
— O que Beatriz estava fazendo com Augusto?
— Eu nunca soube exatamente — respondeu Helena. — Eles disseram que precisavam guardar alguns documentos até uma operação ser concluída.
— Eles?
— Beatriz falou mais do que Augusto. Disse que você estava emocionalmente instável e poderia destruir anos de trabalho por orgulho.
Aquilo doeu de uma maneira que eu não esperava.
— E você acreditou nela.
Helena chorava em silêncio.
— Naquela época, sim.
Marcelo interrompeu antes que nossa conversa se transformasse numa briga que não resolveria nada.
— O banco ainda existe?
Olhei para a chave marcada com 317.
O Banco Paulista daquele tempo havia sido incorporado por outra instituição anos depois. Eu ainda conhecia pessoas no setor e sabia que cofres privados de agências encerradas normalmente eram transferidos junto com a custódia.
Peguei meu celular.
— Amanhã descobriremos.
— Amanhã termina o prazo da cobrança — lembrou Marcelo.
Era exatamente por isso que não podíamos perder tempo.
Na manhã seguinte, pouco depois das nove, eu já estava diante da antiga agência dos Jardins, agora pertencente a outro banco. Marcelo veio comigo. Helena pediu para acompanhar, mas eu disse que não. Ainda não sabia o quanto ela havia escondido.
Levamos quase duas horas entre identificação, registros antigos e consultas internas até uma supervisora chamada Patrícia retornar com uma expressão intrigada.
— Senhor Henrique, encontramos a referência.
Meu coração acelerou.
— O cofre ainda existe?
— Existe, mas há uma particularidade.
— Qual?
Ela virou a tela em nossa direção.
— O cofre 317 está registrado em nome da Almeida & Vasconcelos Participações.
— Então posso acessá-lo?
— Depende.
— De quê?
— Existem três autorizados cadastrados.
Eu e Marcelo trocamos um olhar.
— Quem?
Patrícia leu.
— Augusto Vasconcelos, Henrique Almeida e Beatriz Monteiro Almeida.
Senti o maxilar endurecer.
Mesmo depois do divórcio, eu nunca esquecera o nome completo dela.
— Quando Beatriz foi incluída?
Patrícia consultou o sistema.
— Dezessete anos atrás.
— Com minha autorização?
— O documento original está arquivado. Posso solicitar a digitalização.
— Solicite.
Esperamos mais quarenta minutos.
Quando o arquivo finalmente apareceu, nem precisei examiná-lo por muito tempo.
Outra assinatura falsa.
A terceira que eu encontrava em menos de doze horas.
— Quero registrar formalmente que não reconheço essa assinatura.
Patrícia ficou séria.
— Nesse caso, o acesso precisará passar pelo jurídico.
— Quanto tempo?
— Alguns dias.
— Eu não tenho alguns dias.
Marcelo se inclinou.
— Existe alguma movimentação recente?
Patrícia verificou.
Então franziu a testa.
— Existe.
Meu coração bateu mais forte.
— Quando?
— Há quatro meses.
A mesma época da renovação.
— Quem acessou?
Patrícia ficou alguns segundos em silêncio.
— Beatriz Monteiro.
Levantei-me.
— Ela está viva?
A pergunta escapou antes que eu percebesse o absurdo.
Patrícia me olhou sem entender.
Eu não via Beatriz havia dezessete anos. Depois do divórcio, ouvi dizer que ela havia se mudado para Portugal. Anos depois, Helena comentou que talvez tivesse voltado ao Brasil, mas nunca procurei saber.
— Existe registro do que ela retirou?
— Não. O conteúdo de cofres privados não é inventariado pelo banco.
— Mas ela entrou.
— Sim.
— E o cofre continua ativo.
— Continua.
Saímos sem conseguir abri-lo.
No estacionamento, Marcelo parecia inquieto.
— Quatro meses atrás. Beatriz acessa o cofre. Logo depois, aparece a cobrança. Depois eu sou pressionado a renovar o contrato.
— Não é coincidência.
Meu telefone tocou.
Número desconhecido.
Atendi.
— Henrique Almeida?
Era uma voz masculina.
— Quem fala?
— Eduardo Salles.
Parei ao lado do carro.
— O advogado da Vértice.
— Vejo que já começou a fazer perguntas.
Marcelo percebeu quem era e se aproximou.
— Como conseguiu meu número?
Eduardo ignorou.
— Precisamos conversar antes das quatro da tarde.
— Por quê?
— Porque às quatro protocolaremos a execução da garantia.
— Uma garantia falsificada.
Houve silêncio.
— Essa é uma acusação séria.
— Tenho três assinaturas que nunca fiz.
— Então o senhor realmente abriu a caixa de Helena.
Aquilo me gelou.
Ele sabia.
— O que você quer?
— Resolver uma situação antiga.
— Com oitocentos mil reais?
Eduardo soltou uma risada curta.
— Henrique, o restaurante é a menor parte disso.
— Quanto existe por trás?
— Não é uma questão de dívida.
— Então é o quê?
Ele hesitou.
— Propriedade.
Marcelo arregalou os olhos.
— Propriedade de quê?
— Venha sozinho ao meu escritório às duas. Eu lhe mostrarei.
— Por que sozinho?
— Porque seu sobrinho não conhece toda a história.
— E Beatriz conhece?
Dessa vez, o silêncio foi longo.
— Muito mais do que deveria.
A ligação terminou.
Às duas menos dez, entrei no escritório de Eduardo Salles. Marcelo ficou numa cafeteria do outro lado da rua, contra a vontade.
Eduardo tinha pouco mais de cinquenta anos e nenhuma pressa. Colocou diante de mim uma pasta preta.
— Augusto me contratou antes de morrer.
— Para continuar fraudando meu nome?
— Para impedir que uma fraude antiga destruísse três famílias.
Abriu a pasta.
Dentro havia a escritura de um imóvel.
Reconheci o endereço do restaurante.
Mas o documento não tratava apenas daquele prédio.
A Vértice possuía outros onze imóveis em São Paulo.
O patrimônio estimado ultrapassava quarenta milhões de reais.
— Por que está me mostrando isso?
Eduardo virou a página.
Ali estava a composição societária original da Vértice.
Augusto Vasconcelos: 40%.
Beatriz Monteiro Almeida: 20%.
E uma terceira participação de 40%, registrada por meio da Almeida & Vasconcelos Participações.
— Isso significa que...
— Significa que sua antiga empresa financiou quase metade da Vértice.
— Sem meu consentimento.
— Sim.
— Então Augusto roubou dinheiro da sociedade.
Eduardo fechou a pasta lentamente.
— Essa é a versão simples.
— E a complicada?
Ele abriu uma gaveta e colocou sobre a mesa uma cópia de uma carta manuscrita.
Reconheci imediatamente a letra de Augusto.
No alto, havia uma data de seis meses antes de sua morte.
Eduardo apontou para o último parágrafo.
Li duas vezes.
Augusto declarava que os 40% registrados pela Almeida & Vasconcelos jamais haviam pertencido a ele.
E acrescentava:
“A participação pertence integralmente a Henrique Almeida. Ele foi enganado quanto à origem da operação, mas nunca deixou de ser o verdadeiro beneficiário.”
Minha respiração ficou pesada.
— Então por que esconderam isso de mim durante dezessete anos?
Eduardo não respondeu imediatamente.
Em vez disso, retirou uma fotografia antiga de dentro da pasta.
Augusto aparecia nela.
Beatriz também.
E entre os dois estava um terceiro homem.
Reconheci seu rosto.
Era alguém que estivera na minha casa dezenas de vezes, participara do meu casamento, conhecia minhas contas e tinha acesso aos documentos da empresa.
Olhei para Eduardo.
— Isso é impossível.
— Não é.
Voltei a encarar a fotografia.
O terceiro homem era Roberto Monteiro, irmão de Beatriz e meu antigo advogado pessoal.
Eduardo então disse:
— Augusto não falsificou sua primeira assinatura, Henrique.
Fez uma pausa.
— Foi Roberto.







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