A fotografia parecia pesar mais do que todos os contratos que eu havia segurado nas últimas vinte e quatro horas.
Beatriz estava muito mais jovem, sentada numa cama de hospital, com um bebê enrolado numa manta clara nos braços. Reconheci nela uma expressão que não via desde os primeiros anos do nosso casamento. Não era felicidade completa. Havia medo naquele rosto.
Virei novamente a fotografia.
Gabriel Monteiro.
Trinta e seis anos.
— Onde ele está? — perguntei.
Laura não respondeu imediatamente.
— Gabriel mora em São Paulo.
— Ele sabe de mim?
— Sabe quem você é. Não sei o que Beatriz contou sobre a possibilidade de você ser o pai.
Senti a raiva retornar.
— Possibilidade?
— Henrique, eu não vou transformar uma anotação antiga numa certeza biológica.
Ela tinha razão, mas naquele momento racionalidade era uma coisa difícil de aceitar.
— Quero falar com Beatriz.
— Então talvez seja melhor ligar para ela agora.
Laura retirou o próprio celular e fez uma chamada. Ninguém atendeu. Na segunda tentativa, a ligação foi recusada.
Poucos segundos depois chegou uma mensagem.
Laura leu e levantou os olhos.
— Ela quer encontrar você.
— Onde?
— No restaurante.
Quase ri da ironia.
— Claro.
Voltamos aos Jardins no fim da tarde. Marcelo insistiu em acompanhar, mas pedi que esperasse no carro. Eu precisava olhar para Beatriz sem outras vozes interferindo.
Quando entrei, Fernanda me reconheceu imediatamente. Desta vez, não havia Caio por perto.
Beatriz estava sentada numa mesa no canto.
Dezessete anos haviam mudado seu rosto, mas não a maneira como segurava uma xícara quando estava nervosa: as duas mãos em volta da porcelana, os polegares imóveis.
Ela levantou os olhos.
— Henrique.
Sentei-me diante dela.
Nenhum de nós disse nada durante alguns segundos.
Depois coloquei a fotografia sobre a mesa.
A cor desapareceu do rosto dela.
— Laura mostrou isso para você?
— Quem é Gabriel?
Beatriz fechou os olhos.
— Meu filho.
— Meu?
— Eu não sei.
A resposta foi quase um sussurro.
— Como você pode não saber?
Ela me encarou.
— Porque Gabriel foi concebido num período em que nós já estávamos separados dentro de casa, embora ainda não tivéssemos assinado nada.
A dor veio acompanhada de uma conclusão óbvia.
— Havia outro homem.
Ela assentiu.
— Uma vez.
Desviei o olhar. Depois de dezessete anos, ainda doía.
— Augusto?
— Não.
— Roberto?
Beatriz ficou horrorizada.
— Meu irmão? Claro que não.
— Então quem?
— Isso não importa mais.
— Para mim importa.
— Se o exame mostrar que Gabriel é seu, eu conto tudo.
A condição me irritou.
— Você não tem mais o direito de escolher quais pedaços da minha vida eu posso conhecer.
Ela baixou os olhos.
— Eu sei.
Perguntei o que realmente me atormentava.
— Por que nunca me contou que estava grávida?
Beatriz demorou a responder.
— Porque quando descobri, Roberto já tinha falsificado sua assinatura. Augusto já havia usado o dinheiro. E eu tinha assinado aquela declaração tentando impedir que Roberto colocasse toda a responsabilidade sobre você.
— Então você fugiu.
— Eu fui embora porque Roberto me mostrou documentos suficientes para mandar Augusto para a cadeia e destruir sua reputação profissional. Disse que, se eu abrisse a boca, faria parecer que você havia participado da fraude.
— E você acreditou nele?
— Ele era o advogado que preparara tudo. Eu sabia do que era capaz.
Respirei fundo.
— E Gabriel?
Os olhos dela ficaram úmidos.
— Eu pensei em contar muitas vezes. Quando ele tinha cinco anos. Depois dez. Depois quinze. Mas quanto mais tempo passava, mais impossível parecia.
— Você roubou de mim a possibilidade de saber.
— Sim.
Não tentou se defender. Talvez isso tenha sido pior.
— Por que voltou agora?
Ela olhou em direção ao salão.
— Porque Augusto deixou uma carta.
— Para você?
— Para Gabriel.
Meu corpo ficou rígido.
— O que dizia?
— Que, depois da morte dele, a Vértice deveria ser reorganizada e você deveria receber oficialmente os quarenta por cento que sempre foram seus. Mas havia uma condição.
— Qual?
— Resolver a origem dos vinte por cento que estavam no meu nome.
— Os de Roberto.
— Sim. Ele queria que fossem devolvidos à família dele ou transferidos conforme um acordo que havia preparado.
— E você acessou o cofre quatro meses atrás para buscar esse acordo.
Beatriz assentiu.
Finalmente algumas peças se encaixavam.
— Então por que a cobrança começou justamente depois?
— Porque o acordo não estava mais no cofre.
— Alguém retirou antes de você?
— Sim.
— Quem?
Ela me olhou.
— Eu não sabia até esta manhã.
Meu telefone vibrou.
Era Marcelo.
Atendi.
— Tio, temos um problema.
— O quê?
— A execução foi protocolada.
Olhei para o relógio. Ainda não eram quatro.
— Eduardo disse que seria às quatro.
— Mudaram o horário. E não é só contra mim.
— Contra quem?
— Contra a Almeida & Vasconcelos. Estão pedindo bloqueio cautelar das participações societárias da Vértice.
Beatriz ouviu e empalideceu.
— Eles querem impedir a transferência — disse ela.
Desliguei.
— Quem são “eles”?
Beatriz abriu a bolsa e retirou uma folha dobrada.
— Hoje de manhã consegui uma cópia do registro de acesso ao cofre.
Colocou o papel diante de mim.
Havia três acessos recentes.
O dela, quatro meses atrás.
Outro de Augusto, registrado pouco antes de sua morte.
E um terceiro, realizado apenas duas semanas antes da visita de Beatriz.
— Isso é impossível — falei. — Quem acessou?
Beatriz apontou.
O acesso havia sido autorizado por procuração.
Nome do procurador:
Gabriel Monteiro.
Olhei para ela.
— Seu filho pegou o acordo?
— Foi o que pensei.
— E perguntou a ele?
— Hoje.
— O que respondeu?
Beatriz apertou os lábios.
— Disse que nunca entrou naquele banco.
Senti um arrepio.
— Então alguém usou o nome dele também.
— Exatamente.
A fraude não havia terminado dezessete anos atrás.
Estava acontecendo agora.
Antes que eu pudesse responder, Fernanda surgiu ao lado da mesa.
— Senhor Henrique?
Sua expressão estava assustada.
— O que houve?
— Tem um homem na recepção perguntando pelo senhor.
— Quem?
Ela se afastou ligeiramente.
Vi um homem alto, de camisa branca, parado próximo à entrada. Devia ter pouco mais de trinta anos.
Beatriz levantou-se imediatamente.
— Gabriel.
Ele nos viu.
Caminhou até a mesa, mas não olhou primeiro para a mãe.
Olhou para mim.
Havia alguma coisa estranhamente familiar naquele rosto.
Gabriel colocou um envelope sobre a mesa.
— Antes que vocês façam qualquer exame ou procurem qualquer advogado, precisam ver isto.
Beatriz ficou tensa.
— Onde conseguiu?
— Na casa do tio Roberto. Estava escondido atrás do fundo falso de uma gaveta.
Abri o envelope.
Dentro havia uma cópia do acordo desaparecido do cofre 317.
Mas alguém havia acrescentado uma página.
Nela estava a verdadeira finalidade da criação da Vértice Patrimonial.
Li uma vez.
Depois outra.
A empresa não havia sido criada apenas para comprar imóveis.
Ela havia sido criada para ocultar temporariamente um patrimônio enquanto uma investigação financeira acontecia.
E o responsável original pela operação não era Augusto.
Nem Roberto.
Na última linha aparecia o nome de quem havia autorizado a estrutura inteira.
Levantei os olhos para Beatriz.
— Você conhecia esse nome?
Ela olhou para o documento e começou a chorar.
Gabriel respondeu por ela:
— Minha mãe conhece.
Apontou para a assinatura.
— Porque esse homem era o pai dela.
Meu antigo sogro, Antônio Monteiro, que eu acreditava ter passado a vida inteira longe dos meus negócios.
E abaixo da assinatura havia uma observação ainda mais perturbadora:
“Henrique Almeida não deverá ser informado enquanto permanecer como beneficiário final dos ativos.”







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