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O Garçom Se Recusou A Passar Meu Cartão — Minutos Depois, Descobri Que Meu Nome Escondia Uma Fortuna De R$ 70 Milhões

— Roberto falsificou minha assinatura?

A fotografia continuava sobre a mesa de Eduardo. Roberto Monteiro sorria ao lado de Augusto e Beatriz como se os três estivessem comemorando alguma coisa. Eu conhecia aquele sorriso. Durante anos, confiei naquele homem para revisar contratos que eu próprio não tinha tempo de ler.

— Foi o que Augusto descobriu — respondeu Eduardo.

— Descobriu quando?

— Tarde demais.

— Não me dê respostas pela metade.

Eduardo juntou as mãos.

— Dezessete anos atrás, Augusto queria comprar o prédio onde hoje funciona o restaurante. Você recusou usar dinheiro da Almeida & Vasconcelos. Pouco depois, Roberto apresentou documentos indicando que você havia mudado de ideia.

— E Augusto acreditou?

— A assinatura foi reconhecida, os documentos estavam completos e Roberto era seu advogado.

A explicação não absolvia Augusto, mas tornava a fraude mais plausível.

— E Beatriz?

Eduardo desviou os olhos para a fotografia.

— Essa é a parte que Augusto nunca conseguiu esclarecer completamente.

— Ela tinha vinte por cento da Vértice.

— Tinha.

— Ninguém recebe vinte por cento de uma empresa de milhões sem saber por quê.

— Concordo.

Levantei-me.

— Onde está Roberto?

Eduardo demorou alguns segundos.

— Morreu há nove anos.

Outra pessoa morta. Outra resposta enterrada.

— E Beatriz?

— Viva.

— Onde?

— São Paulo.

A informação me atingiu mais do que deveria.

— Ela voltou de Portugal?

— Beatriz nunca morou em Portugal.

Fiquei imóvel.

Durante anos, essa fora a história repetida pela família.

— Então onde ela esteve?

— Principalmente em Curitiba. Voltou para São Paulo há cerca de cinco meses.

Um mês antes de acessar o cofre 317.

— Quero o endereço.

— Não posso fornecer.

— Então diga a ela que quero conversar.

Eduardo balançou a cabeça.

— Não trabalho para Beatriz.

— Mas sabe como encontrá-la.

— Sei.

Antes que eu insistisse, ele puxou outro documento.

— Há algo mais urgente. A execução que mencionei ao telefone não é contra você.

Franzi a testa.

— Você disse que acionariam a garantia.

— Eu disse que protocolaríamos a execução da garantia. Não disse quem seria executado.

— Pare com jogos.

Ele virou o documento para mim.

O nome no topo era Marcelo Almeida.

— O que meu sobrinho tem a ver com isso?

— Quando renovou o contrato, ele assumiu responsabilidade como representante.

— Ele me disse que estava apenas ganhando tempo.

— E estava. Mas assinou uma cláusula que o tornou responsável se a validade da garantia original fosse contestada.

A raiva explodiu.

— Vocês colocaram um rapaz contra a parede.

— Marcelo não é um rapaz, Henrique. Tem trinta e seis anos e assinou um contrato depois de receber orientação jurídica.

— Sua orientação?

— Não.

— De quem?

Eduardo permaneceu calado.

Foi então que compreendi.

— Beatriz.

Ele não confirmou.

Não precisava.

Saí do escritório com a pasta de cópias e atravessei a rua. Marcelo estava esperando.

— O que aconteceu?

Entreguei a execução.

Ele leu e empalideceu.

— Eu não sabia dessa cláusula.

— Quem revisou o contrato antes de você assinar?

Marcelo apertou os lábios.

— Uma advogada.

— Nome.

— Laura Monteiro.

O sobrenome me atingiu imediatamente.

— Filha de Roberto?

Marcelo assentiu.

Eu conhecera Laura quando era criança.

— Por que você não me contou?

— Porque ela me procurou dizendo que queria corrigir o que o pai tinha feito.

— E você acreditou?

— Ela me mostrou documentos, tio. Mostrou as assinaturas falsas. Foi assim que descobri tudo.

Senti a velha sensação de auditoria voltar: quando números aparentemente desconexos começam a formar um padrão.

— Ligue para ela.

Marcelo hesitou.

— Agora.

Ele ligou no viva-voz.

Laura atendeu no segundo toque.

— Marcelo?

— Estou com Henrique.

Silêncio.

— Entendi.

Peguei o telefone.

— Quero conversar com você.

— Eu imaginei que esse momento chegaria.

— Seu pai falsificou minhas assinaturas?

— Sim.

A resposta direta me surpreendeu.

— E Beatriz participou?

Laura demorou.

— Não da forma como você pensa.

— Então explique.

— Não por telefone.

— Todo mundo nesta história diz isso.

Ela respirou fundo.

— Porque há coisas que precisam ser provadas, não contadas.

Marcamos num escritório pequeno em Higienópolis.

Laura tinha quarenta e poucos anos. Reconheci alguns traços de Roberto nela, mas não a expressão. Parecia alguém que dormia pouco havia meses.

Ela colocou uma caixa sobre a mesa.

— Encontrei isso depois da morte do meu pai.

Dentro havia cópias de procurações, extratos e correspondências.

— Meu pai falsificou sua assinatura para liberar os dois milhões e quatrocentos mil — disse ela. — Augusto descobriu meses depois.

— Por que não denunciou?

— Porque o dinheiro já tinha sido usado na compra do primeiro imóvel. Se denunciasse Roberto, a operação seria anulada, credores poderiam tomar tudo e a Almeida & Vasconcelos perderia o investimento.

— Então Augusto preferiu esconder.

— Sim. E criou a Vértice para preservar sua participação.

— E os vinte por cento de Beatriz?

Laura ficou em silêncio.

— Diga.

— Não eram dela originalmente.

Meu coração acelerou.

— Eram de quem?

Laura retirou um documento.

— Do meu pai.

Roberto havia transferido sua participação para Beatriz poucos meses depois da compra.

— Por quê?

— Para impedir que credores pessoais dele alcançassem as quotas.

— E Beatriz aceitou?

— Aceitou porque Roberto disse que seria temporário.

Fechei os olhos.

— Ela sabia da falsificação?

— Descobriu depois.

— E não me contou.

— Não.

Essa resposta doeu mais.

— Por quê?

Laura abriu uma pasta menor.

— Porque quando tentou contar, meu pai mostrou isto.

Era uma declaração assinada por Beatriz.

Li.

Ela assumia responsabilidade pela autorização da operação e declarava que eu tinha conhecimento dela.

— Ela assinou uma mentira.

— Sob pressão.

— Isso não muda a assinatura.

— Não. Mas muda o motivo.

Laura então colocou diante de mim outro papel.

Era um exame médico antigo.

Nome: Beatriz Monteiro Almeida.

Data: dezessete anos atrás.

Não entendi.

— O que isso tem a ver?

— Na época em que tudo aconteceu, Beatriz estava grávida.

Minha cabeça levantou imediatamente.

— Isso é impossível.

— Não é.

— Nós não podíamos ter filhos.

Laura me olhou com uma tristeza que me incomodou.

— Foi exatamente isso que Roberto usou contra ela.

Senti minhas mãos esfriarem.

— Onde está essa criança?

Laura não respondeu.

— Laura.

Ela fechou a caixa.

— Antes de saber isso, você precisa entender uma coisa: Beatriz não saiu da sua vida porque deixou de amar você.

— Então por quê?

— Porque Roberto ameaçou destruir você financeiramente e transformar a fraude em um processo criminal contra Augusto e contra ela.

— E a criança?

Laura respirou fundo.

— Nasceu.

Levantei-me tão rápido que a cadeira recuou.

— Eu tenho um filho?

— Eu não disse isso.

— Então diga claramente.

Laura me encarou.

— Eu não sei quem é o pai biológico.

O silêncio ficou sufocante.

Ela abriu a última pasta.

Dentro havia uma fotografia de Beatriz segurando um bebê.

No verso estava escrito um nome e uma data.

Gabriel Monteiro.

Trinta e seis anos.

A mesma idade de Marcelo.

Mas foi a frase abaixo do nome que fez minhas mãos começarem a tremer:

“Henrique nunca poderá saber até que o exame seja feito.”

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