Fiquei olhando para Augusto, esperando que ele continuasse. Durante quase quarenta anos, eu carregara uma versão muito simples daquela história: um rapaz apareceu procurando emprego, eu lhe dei comida, descobri que entendia de computadores e convenci um gerente a lhe dar uma oportunidade. Nunca imaginei que existisse uma parte escondida. Muito menos uma parte que pudesse ligar meu nome a Sérgio, Renata e Eduardo Ferraz décadas depois.
— Fala — pedi.
Augusto olhou para Marcelo e Célia.
— Preciso conversar com Lúcia sozinho.
— Não — respondi imediatamente. — Se isso está ligado ao que aconteceu com Marta, ninguém vai embora sem ouvir.
Ele respirou fundo.
— Naquela terça-feira em que você me encontrou na chuva, eu não entrei naquela empresa por acaso.
Senti o estômago apertar.
— Como assim?
— Eu estava procurando exatamente aquela empresa.
Augusto sentou-se. Parecia subitamente mais velho.
— Meu pai tinha morrido poucos meses antes. Entre os documentos dele encontrei comprovantes de pagamentos feitos para a empresa onde você trabalhava. Valores pequenos, mas regulares. Meu pai estava endividado e eu queria entender por que continuava mandando dinheiro para lá.
— Seu pai conhecia meu patrão?
— Conhecia Eduardo Ferraz.
O nome caiu sobre a sala como uma pedra.
Marcelo se aproximou.
— O mesmo Eduardo da fotografia?
Augusto assentiu.
— Na época, Eduardo ainda não era empresário conhecido. Ele fazia serviços financeiros para pequenas empresas. Meu pai acreditava que ele tinha desviado dinheiro de algumas delas usando fornecedores falsos.
— E você foi procurar provas?
— Fui procurar respostas.
Ele voltou os olhos para mim.
— Quando o gerente recusou meu currículo, eu achei que tudo tinha acabado. Então você apareceu.
Comecei a compreender.
— E quando eu consegui aquele emprego para você...
— Eu passei a ter acesso ao escritório.
Meu peito apertou.
— Você me usou?
Augusto fechou os olhos por um instante.
— No começo, sim.
A sinceridade doeu mais do que uma desculpa teria doído.
— Eu tinha dezenove anos, Lúcia. Estava com raiva, sem dinheiro e convencido de que Eduardo tinha alguma relação com a ruína do meu pai. Você confiou em mim sem me conhecer. E eu aceitei aquela confiança sabendo que tinha outro motivo para estar ali.
Levantei-me.
Augusto tentou tocar meu braço.
Afastei-me.
— Eu coloquei meu emprego em risco por você.
— Eu sei.
— Disse que me responsabilizaria se você fizesse alguma coisa errada.
— Eu sei.
— E nunca me contou?
Sua voz baixou.
— Porque depois de algumas semanas aquilo deixou de ser uma investigação.
Ele contou que encontrara registros suspeitos, mas também descobrira algo inesperado: Eduardo não estava apenas desviando dinheiro. Estava tentando assumir empresas pequenas quando os proprietários entravam em dificuldades. Augusto reuniu cópias de documentos e entregou tudo anonimamente a um advogado.
A investigação, porém, não avançou.
Eduardo desapareceu dos negócios por alguns anos.
Augusto seguiu a vida.
— E Sérgio? — perguntou Marcelo.
— Conheci Sérgio quase dez anos depois. Na época, não sabia que ele tinha qualquer ligação com Eduardo.
Peguei o celular deixado por Marta e voltei à fotografia.
— Então essa reunião prova que eles se conhecem.
— Prova mais que isso — disse Augusto. — Prova que alguém está reconstruindo um esquema muito parecido com aquele.
Eu ainda estava magoada, mas havia uma pergunta maior.
— Por que meu nome está naquele documento?
Augusto não sabia.
Foi Sandra quem chamou nossa atenção.
— Talvez as outras fotos expliquem.
Voltamos aos arquivos. Uma das imagens mostrava transferências da RVM. Outra continha uma lista de funcionários. Ampliei.
Meu nome aparecia marcado em vermelho.
Ao lado dele havia uma anotação:
“Vínculo A.F. — prioridade.”
Augusto ficou em silêncio.
— A.F. — disse Marcelo. — Augusto Farias?
— Provavelmente.
Célia arregalou os olhos.
— Então os descontos não eram o objetivo principal.
A ideia me atingiu.
— Eram uma forma de procurar alguma coisa.
Marcelo começou a comparar os nomes. A maioria dos funcionários tinha sofrido descontos aleatórios. Mas comigo era diferente. Meu cadastro fora consultado repetidamente.
Endereço.
Telefone.
Dependentes.
Histórico profissional.
Até empresas onde eu havia trabalhado décadas atrás.
— Eles estavam investigando você — disse Marcelo.
Meu medo mudou de forma.
Já não era apenas perder o emprego.
— Por quê?
Augusto se levantou.
— Talvez porque saibam que fui funcionário daquela empresa.
— Mas isso aconteceu há quase quarenta anos.
— Exatamente.
Ele caminhou até a janela.
— Eduardo acredita que alguma coisa daquela época ainda existe.
Tentei lembrar. Eu não guardava documentos da empresa. Depois que ela fechou, segui minha vida. Uniformes foram descartados, colegas se espalharam, papéis desapareceram.
Então uma lembrança veio.
Pequena.
Quase ridícula.
— Meu Deus.
Augusto virou.
— O quê?
— Quando aquela empresa fechou, o gerente pediu que eu esvaziasse alguns armários. Havia documentos que seriam destruídos.
— E?
— Eu levei uma caixa para casa por engano.
Marcelo aproximou-se.
— Que documentos?
— Não sei. Faturas, cadernos, papéis antigos. Descobri a caixa meses depois.
— Você jogou fora?
Balancei a cabeça.
— Minha mãe estava doente naquela época. Guardei várias coisas no depósito da casa dela. Depois que ela morreu, nunca tive coragem de mexer em tudo.
Augusto ficou pálido.
— Essa caixa ainda existe?
— Talvez.
Peguei minha bolsa.
— Vou descobrir.
Augusto insistiu em ir comigo.
Quase uma hora depois, chegamos à antiga casa de minha mãe, onde meu irmão mantinha um pequeno depósito nos fundos. A fechadura estava enferrujada. Depois de alguns minutos conseguimos entrar.
Havia dezenas de caixas.
Procurei até encontrar uma com minha letra antiga.
“TRABALHO.”
Meu coração disparou.
Augusto se ajoelhou ao meu lado.
Abrimos.
Uniformes antigos. Fotografias. Recibos.
E, no fundo, uma pasta azul.
Augusto retirou-a.
Dentro havia livros-caixa da antiga empresa e um envelope lacrado.
Na frente, alguém escrevera à mão:
“Para Lúcia — entregar somente se Augusto voltar.”
Reconheci imediatamente a letra.
Era do gerente que tinha contratado Augusto.
Minhas mãos começaram a tremer.
— Ele sabia.
Augusto abriu o envelope.
Havia uma carta e uma pequena chave.
Ele começou a ler.
Na terceira linha, parou.
— O que está escrito?
Augusto ergueu os olhos para mim.
— Lúcia... Eduardo não estava atrás de mim naquela época.
— Então de quem?
Ele virou a carta para que eu pudesse ver.
No meio da página havia uma frase sublinhada duas vezes:
“Se alguma coisa acontecer comigo, diga a Lúcia que o dinheiro nunca pertenceu a Augusto. Pertence a ela.”







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