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Uma Executiva Mandou A Faxineira Sair Pela Porta Dos Fundos — Até O Bilionário Abraçá-La Diante De Todos E Revelar Um Segredo De 40 Anos

Li aquela frase tantas vezes que as palavras começaram a perder o sentido.

“Pertence a ela.”

A mim.

Soltei uma risada curta, nervosa, porque aquilo parecia absurdo demais para provocar qualquer outra reação.

— Dinheiro? Que dinheiro?

Augusto continuava segurando a carta. A pequena chave estava sobre a pasta azul, opaca pelo tempo.

— Leia desde o começo — pedi.

Ele me entregou a folha.

A carta era de Osvaldo, o gerente que eu convencera a contratar Augusto. A caligrafia estava irregular, mas reconhecível.

Osvaldo dizia que, pouco antes de a empresa fechar, descobrira uma conta paralela criada por Eduardo Ferraz para movimentar dinheiro sem conhecimento dos proprietários. Quando percebeu o esquema, começou a copiar documentos. O problema era que Eduardo descobriu.

Então vinha meu nome.

“Lúcia viu mais do que imagina e protegeu documentos que Eduardo acreditava terem sido destruídos.”

Olhei para a caixa aberta.

— Eu nem sabia o que estava levando.

Augusto apontou para a continuação.

Osvaldo explicava que parte do dinheiro recuperado durante uma negociação privada deveria ter sido devolvida à empresa. Mas os proprietários já estavam falidos, alguns tinham desaparecido e outros haviam vendido suas participações. Antes de morrer, um deles determinara que uma parcela fosse destinada à pessoa que, sem saber, preservara os registros usados para comprovar a fraude.

Eu.

— Isso não faz sentido — murmurei.

— Talvez faça juridicamente — disse Augusto. — Precisamos ver o restante.

A carta mencionava um cofre bancário.

A chave sobre a pasta correspondia a ele.

Marcelo, que nos acompanhara, fotografou as páginas.

— Há uma agência indicada aqui. No centro.

— Depois de quase quarenta anos? — perguntei. — Esse cofre nem deve existir mais.

Augusto estava mais preocupado com outra coisa.

— Se Eduardo descobriu a existência desta carta, explica por que começaram a investigar Lúcia.

— Mas como descobriram agora?

Ninguém respondeu.

Então meu celular tocou.

Célia.

Atendi imediatamente.

— Encontraram Marta?

Do outro lado, ouvi sua respiração acelerada.

— Ela voltou.

— Para a casa da irmã?

— Não. Para o prédio.

Fiquei imóvel.

— O quê?

— Marta apareceu aqui há uns dez minutos. Está comigo na sala da segurança.

— Ela está bem?

— Está assustada. E quer falar com você.

Saímos imediatamente.

Quando retornamos à Avenida Paulista, já passava da meia-noite. A festa tinha acabado. Funcionários desmontavam mesas enquanto o salão, antes cheio de convidados, parecia outro lugar.

Marta estava sentada numa pequena sala próxima à recepção.

Quando me viu, levantou e me abraçou.

— Desculpa.

— Onde você estava?

— Fugindo de alguém que eu achava que estava me seguindo.

Augusto entrou atrás de mim.

Marta recuou.

— Você encontrou a autorização?

— Encontramos — respondeu ele.

— Então sabe que usaram sua conta.

— Quero saber como.

Ela olhou para Marcelo.

— Renata tinha acesso ao telefone corporativo reserva.

Marcelo franziu a testa.

— Isso é impossível.

— Não era. Ela mantinha o aparelho numa gaveta da diretoria quando Augusto viajava.

Augusto ficou furioso.

— Quem autorizou?

Marta engoliu em seco.

— Sérgio.

— Sérgio saiu da empresa há dois anos.

— Oficialmente.

Silêncio.

Marta explicou que começara a desconfiar quando encontrou pagamentos para a RVM. Seguiu os registros e descobriu que Sérgio continuava prestando serviços por meio de empresas intermediárias.

Renata fazia as aprovações internas.

Mas havia algo que Marta ainda não tinha contado.

— Os descontos dos funcionários eram uma distração — disse ela. — Pequenos valores eram retirados, depois parcialmente devolvidos por empresas diferentes. Isso criava movimentações suficientes para esconder consultas cadastrais.

— Consultas de quem? — perguntei, embora já soubesse.

Ela olhou para mim.

— Suas.

Meu peito apertou.

— Por quê?

— Porque estavam procurando um endereço antigo ligado à sua mãe.

Augusto e eu nos encaramos.

A casa.

A caixa.

— Como você descobriu isso?

Marta abriu a bolsa e retirou uma folha dobrada.

— Porque encontrei esta ordem.

Era um relatório de investigação particular.

Havia fotografias da antiga casa de minha mãe.

Fotografias minhas entrando no prédio.

Até uma foto minha esperando ônibus.

Senti náusea.

Augusto fechou a pasta.

— Isso vai para a polícia.

Marta assentiu.

— Tem mais.

Ela apontou para uma data no relatório.

A investigação sobre mim havia começado oito meses antes.

Muito antes dos primeiros descontos.

— Então eles já sabiam quem eu era — murmurei.

De repente, lembrei da maneira como Renata me abordara naquela noite.

Talvez realmente soubesse.

Talvez quisesse me humilhar para me tirar dali antes da chegada de Augusto.

— Como descobriram minha ligação com ele?

Marta abaixou os olhos.

— Foi isso que eu estava tentando entender quando encontrei uma correspondência entre Sérgio e Eduardo.

— O que dizia?

— Que alguém tinha localizado “a mulher da caixa”.

O depósito da casa de minha mãe.

Meu sangue gelou.

— Augusto...

Ele já estava pegando o telefone.

— Vou mandar alguém verificar a casa agora.

Liguei para meu irmão também.

Nada.

Tentamos novamente.

Nenhuma resposta.

Quinze minutos depois, o segurança enviado por Augusto telefonou.

Ele colocou no viva-voz.

— Senhor Augusto, cheguei ao endereço.

— E?

— A porta dos fundos foi arrombada.

Olhei para a pasta azul que tínhamos trazido conosco.

— Levaram alguma coisa?

— Parece que mexeram em tudo.

Augusto perguntou pelo meu irmão. Felizmente, ele não estava lá.

Respirei aliviada.

Então o segurança acrescentou:

— Tem outra coisa. Encontrei uma câmera pequena instalada em frente ao depósito.

Marta empalideceu.

Se a câmera estava funcionando, alguém sabia que tínhamos encontrado a caixa.

Augusto olhou para a chave.

— Precisamos descobrir o que ela abre antes deles.

Marcelo pesquisou o endereço indicado na carta. A agência original havia fechado, mas o banco fora incorporado por outra instituição. Os cofres antigos tinham sido transferidos para uma unidade na região central.

Marta se aproximou.

— Amanhã vocês não podem simplesmente aparecer lá.

— Por quê?

Ela abriu o celular e mostrou uma mensagem que recebera minutos antes.

Era de um número desconhecido.

Havia apenas uma fotografia.

Mostrava a entrada do banco.

Tirada naquela noite.

Abaixo, uma frase:

“Estamos esperando Lúcia trazer a chave.”

Fiquei olhando para a tela.

Augusto também.

Mas foi Marcelo quem percebeu o detalhe no reflexo da porta de vidro.

Ampliou a fotografia.

Um homem aparecia segurando o celular que havia tirado a imagem.

Não era Sérgio.

Nem Eduardo.

Augusto aproximou o rosto.

E ficou completamente imóvel.

— Eu conheço esse homem.

— Quem é?

Ele demorou alguns segundos para responder.

— É Osvaldo.

Meu coração pareceu parar.

— Isso é impossível. Osvaldo morreu há vinte e sete anos.

Augusto ampliou ainda mais a fotografia.

O homem estava envelhecido.

Cabelos brancos.

Mas o rosto era inconfundível.

E naquele instante percebemos que a carta que acabáramos de encontrar talvez não tivesse sido deixada por um homem morto.

Talvez tivesse sido colocada naquela caixa muito recentemente.

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