Augusto continuou segurando o exame como se aquele pedaço de papel tivesse peso suficiente para esmagá-lo. Durante todos os anos em que o conheci, eu o vira passar por dificuldades, construir uma empresa, perder negócios e recomeçar, mas nunca o tinha visto daquele jeito. Não havia raiva em seu rosto. Ainda não. Havia uma espécie de vazio.
— Isso pode ser falso — disse ele.
Osvaldo não respondeu.
— Eu disse que isso pode ser falso.
— O exame é verdadeiro.
Augusto avançou um passo.
— Como você conseguiu meu DNA?
— Eu não consegui.
Osvaldo apontou para a data.
O exame tinha menos de um ano.
— Eduardo conseguiu.
Augusto soltou uma risada amarga.
— Claro. Eduardo consegue tudo, não é?
— Augusto... — tentei intervir.
— Não, Lúcia. Quero ouvir.
Ele virou para Osvaldo.
— Você desapareceu por vinte e sete anos, deixou todo mundo acreditar que estava morto e agora aparece com um exame dizendo que o homem que eu passei metade da vida odiando é meu pai. Então fala tudo.
Osvaldo respirou profundamente.
Helena Farias, mãe de Augusto, trabalhara durante algum tempo na contabilidade da antiga empresa. Foi ali que conheceu Eduardo. Os dois tiveram um relacionamento breve, numa época em que ela já estava separada informalmente do homem que Augusto conheceu como pai, embora o casamento ainda existisse legalmente.
— Seu pai soube? — perguntei.
— Antônio suspeitava — respondeu Osvaldo. — Mas escolheu criar Augusto como filho.
Augusto fechou os olhos.
— E minha mãe?
— Nunca confirmou publicamente.
— Então como Eduardo sabe?
— Porque Helena contou para ele.
O silêncio ficou pesado.
— Quando?
— Pouco antes de morrer.
Augusto se virou para a parede. A mãe havia morrido havia muitos anos. Eu sabia que aquela ferida nunca desaparecera completamente.
— Por que ela faria isso?
Osvaldo retirou outra folha do cofre.
— Porque Eduardo estava pressionando sua família.
Era uma cópia de uma carta escrita por Helena.
Augusto leu em silêncio.
A cada linha, sua expressão endurecia.
Helena dizia que Eduardo havia começado a desconfiar da paternidade quando Augusto ainda era adolescente. Ela implorava que ele se mantivesse afastado. Antônio sabia da possibilidade e, apesar disso, jamais tratara Augusto como algo diferente de seu filho.
Foi então que compreendi uma parte da história.
— Por isso Antônio investigava Eduardo.
Osvaldo assentiu.
— Não era apenas dinheiro. Ele queria manter Eduardo longe de Augusto.
Augusto largou a carta sobre a mesa.
— E Eduardo destruiu financeiramente o homem que me criou.
— Sim.
— Meu pai perdeu a casa por causa dele.
— Sim.
— Morreu endividado.
Osvaldo abaixou os olhos.
— Sim.
A raiva finalmente apareceu.
Augusto bateu a mão contra a mesa metálica.
— Então aquele homem não é meu pai.
Ninguém respondeu.
Eu me aproximei.
— Biologia não apaga quem criou você.
Ele me olhou.
Por um instante, vi novamente o rapaz de dezenove anos sentado sob a chuva.
Mas havia outra pergunta.
— Por que descobrir isso agora?
Osvaldo fechou o cofre.
— Porque Eduardo está doente.
Marcelo franziu a testa.
— Que tipo de doença?
— Não sei detalhes. Só sei que começou a organizar a sucessão patrimonial.
Augusto riu sem humor.
— Não quero um centavo dele.
— O problema não é você querer.
Osvaldo abriu uma das pastas modernas.
Dentro havia registros de empresas, participações societárias e estruturas de investimento.
— Eduardo acumulou um patrimônio enorme. Parte oficialmente. Parte usando empresas de terceiros. RVM é apenas uma delas.
Marcelo começou a entender.
— E Augusto é herdeiro.
— Possivelmente o único filho biológico reconhecível por DNA.
Augusto empurrou os documentos.
— Renuncio.
— Não é tão simples.
Osvaldo apontou para algumas empresas.
— Existem ativos que foram registrados usando estruturas vinculadas ao nome de Augusto sem que ele soubesse.
Marcelo empalideceu.
— Isso explica as autorizações corporativas.
— Exatamente. Sérgio e Renata não estavam apenas desviando dinheiro. Estavam criando uma ligação financeira entre Augusto e empresas de Eduardo.
Meu estômago apertou.
— Para quê?
— Para que, quando Eduardo morrer, Augusto pareça ter participado de tudo.
Agora entendi a verdadeira armadilha.
Não era apenas roubar funcionários.
Era construir um histórico.
Uma assinatura aqui.
Uma transferência ali.
Uma autorização digital.
Quando alguém investigasse, encontraria Augusto no centro.
— E eu? — perguntei. — Onde entro nisso?
Osvaldo olhou para mim.
— Você era a única pessoa capaz de conectar o esquema atual ao antigo.
— Por causa da caixa?
— Por causa de algo que você testemunhou.
Franzi a testa.
— Eu não testemunhei nada.
— Testemunhou. Só não sabia o que estava vendo.
Ele retirou uma fotografia antiga.
Eu aparecia ao fundo, empurrando um carrinho de limpeza por um corredor.
Na frente, Eduardo entregava uma pasta para Sérgio.
Sérgio.
Muito mais jovem.
Meu coração acelerou.
— Eles já se conheciam.
— Desde aquela época — confirmou Osvaldo.
Augusto ficou olhando para a foto.
— Então Sérgio entrou na minha empresa anos depois de propósito.
— Sim.
A traição era muito maior do que imaginávamos.
Quinze anos de confiança.
Quinze anos ao lado de Augusto.
— E Renata? — perguntei.
Osvaldo hesitou.
— Renata entrou depois. Não sei quando Eduardo a recrutou.
Meu celular tocou.
Era Marta.
Atendi.
— Lúcia, onde vocês estão?
— No banco.
— Saiam daí.
A urgência na voz dela me fez levantar.
— O que aconteceu?
— A auditoria encontrou uma coisa.
Ouvi papéis sendo movimentados.
— Renata não recebeu dinheiro da RVM.
— Então por que ela ajudava Sérgio?
— Porque alguém estava pagando as dívidas dela. Mas não era Eduardo.
— Quem?
Marta respirou fundo.
— Marcelo.
Virei lentamente.
Marcelo estava do outro lado da sala.
Ele percebeu meu olhar.
— O que foi?
Marta continuou:
— Encontrei transferências da conta pessoal dele para uma empresa que quitou quase quatrocentos mil reais em dívidas de Renata.
Meu coração disparou.
Augusto percebeu que algo estava errado.
— Lúcia?
Afastei o telefone do ouvido.
— Marcelo... você pagou as dívidas de Renata?
Ele não respondeu.
Osvaldo levantou-se.
Augusto ficou entre nós.
— Responde.
Marcelo fechou os olhos por alguns segundos.
Quando os abriu, parecia ter tomado uma decisão.
— Sim.
Augusto deu um passo para trás.
— Por quê?
Marcelo olhou primeiro para ele.
Depois para mim.
— Porque Renata estava sendo chantageada.
— Por Eduardo?
— Não.
— Por Sérgio?
Marcelo balançou a cabeça.
— Então por quem?
Ele respirou fundo.
— Pela própria Marta.
O telefone quase caiu da minha mão.
Do outro lado da ligação, Marta tinha ficado completamente em silêncio.







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