Por alguns segundos, ninguém teve coragem de dizer em voz alta o que aquelas iniciais significavam.
R.A.
Roberto Almeida.
Meu tio.
Ou pelo menos o homem que eu havia passado a vida inteira acreditando ser meu tio.
— Não — Beatriz disse primeiro. — Isso não pode significar o que parece.
Eu também queria acreditar nisso. Queria encontrar qualquer interpretação menos monstruosa, menos capaz de transformar Carolina numa desconhecida e minha própria origem num labirinto de mentiras.
Felipe puxou o notebook para perto.
— A anotação diz “comparar amostra”. Não diz que houve resultado.
— Procura — respondi.
Abrimos cada arquivo oculto do cartão. Havia extratos, contratos, fotografias digitalizadas e correspondências de Alberto. Nenhum segundo exame.
Até Helena perceber uma sequência de números ao lado da anotação.
— Isso parece protocolo de laboratório.
Felipe pesquisou nos documentos de Alberto e encontrou uma fatura de três anos antes emitida por um laboratório particular de Salvador. Ligamos. Por questões de sigilo, recusaram-se a fornecer qualquer resultado por telefone, mas confirmaram que existia um exame associado àquele protocolo.
— Em nome de quem? — perguntei.
A atendente hesitou.
— Alberto Farias solicitou o exame. Mas existe uma observação determinando que o laudo fosse entregue exclusivamente a outra pessoa.
— Quem?
— Juliana Almeida.
Meu coração disparou.
Quarenta minutos depois, acompanhada de Felipe e Beatriz, eu estava diante da recepção do laboratório. Helena ficou na casa de Márcia com os policiais, tentando rastrear qualquer novo contato.
Apresentei meus documentos.
O envelope demorou quinze minutos para chegar.
Pareceram quinze anos.
Quando finalmente o colocaram diante de mim, não consegui abri-lo.
Beatriz segurou minha mão.
— Seja o que for, você não precisa enfrentar sozinha.
Rasguei o envelope.
O exame comparava uma amostra atribuída a mim com outra identificada apenas como R.A.
Li a conclusão duas vezes.
Vínculo biológico de paternidade excluído.
Fechei os olhos.
Roberto não era meu pai.
O alívio veio misturado com vergonha por senti-lo. Porque ainda existia uma pergunta muito pior: por que Alberto suspeitara dele?
Felipe continuou lendo.
— Tem outra observação.
Peguei o laudo.
A amostra de Roberto apresentava compatibilidade suficiente para indicar parentesco próximo.
— Ele era irmão de Augusto — Beatriz disse. — Isso seria normal.
— Só que Augusto também não era meu pai biológico.
O silêncio voltou.
Então compreendi.
— O parentesco não vem de mim.
Felipe ergueu os olhos.
— Vem de Carolina.
Beatriz ficou imóvel.
— Roberto tinha parentesco biológico com Carolina?
Aquilo não fazia sentido. Roberto era irmão de Augusto. Carolina era irmã de Márcia. As famílias não tinham qualquer laço sanguíneo conhecido.
Peguei o telefone e liguei para Helena.
Ela atendeu imediatamente.
— Encontramos o exame. Roberto não é meu pai. Mas existe parentesco.
Helena ficou em silêncio.
— Helena?
— Voltem.
— Por quê?
— Porque encontrei uma coisa na caixa de documentos que a polícia recuperou no quintal.
— Que coisa?
— A certidão de nascimento de Roberto.
Quando chegamos, Helena estava esperando com um papel antigo.
O nome da mãe de Roberto era o mesmo que eu conhecia.
Mas o pai não.
Augusto e Roberto não eram irmãos biológicos.
— O pai de Roberto era Antônio Almeida — expliquei.
— Oficialmente — Helena respondeu. — Nesta certidão original aparece outro homem.
Ela virou o documento.
Samuel Nogueira.
Beatriz franziu a testa.
— Quem era?
Márcia teria sabido.
Mas Márcia continuava desaparecida.
Foi Helena quem respondeu.
— Pai de Márcia e Carolina.
Senti meu estômago afundar.
Roberto não era irmão biológico de Augusto.
Era meio-irmão de Márcia e Carolina.
Portanto, tio biológico de Carolina.
A suspeita de Alberto agora ganhava uma dimensão terrível, embora o exame tivesse descartado Roberto como meu pai.
— Então por que comparar minha amostra com a dele?
Felipe respondeu lentamente:
— Para descobrir se seu pai vinha da mesma linhagem.
Antes que pudéssemos avançar, Beatriz recebeu outra mensagem do telefone de Márcia.
Dessa vez havia um endereço.
Um antigo galpão próximo ao porto.
E uma frase:
“Uma hora. Tragam o cartão.”
A polícia montou uma operação sem que o remetente soubesse. Eu aceitei levar uma cópia do cartão; o original ficou com os investigadores.
Felipe queria entrar comigo.
— Ele pediu que eu fosse sozinha.
— E você acha que vou assistir de longe?
— Acho que, pela primeira vez, você vai respeitar uma decisão minha.
Ele ficou ferido, mas assentiu.
Entrei no galpão às duas e dezessete da manhã.
Márcia estava sentada ao fundo.
Corri até ela.
— Mãe.
Ela me abraçou com tanta força que por alguns segundos esqueci tudo.
— Ele está aqui?
Márcia começou a chorar.
— Juliana, você precisa ir embora.
— Roberto?
Ela negou.
— Então quem trouxe você?
Uma voz respondeu atrás de mim.
— Eu.
Virei-me.
Um homem idoso saiu da penumbra.
Não era Roberto.
Eu o reconheci do vídeo antigo e das fotografias encontradas no cofre.
Mais velho, cabelos completamente brancos, mas os mesmos olhos.
Eduardo Vasconcelos.
Vivo.
— Você me sequestrou? — Márcia perguntou.
— Eu tirei você daquela casa antes que Roberto chegasse.
— Então por que mandar aquelas mensagens?
— Porque eu precisava saber se Juliana encontraria o cartão antes dele.
A raiva tomou conta de mim.
— Você poderia simplesmente ter aparecido.
Eduardo sorriu tristemente.
— Eu tentei aparecer trinta anos atrás. Foi quando quase me mataram.
— Quem?
Ele olhou para Márcia.
— Pergunte a ela.
Minha mãe baixou os olhos.
— Chega — eu disse. — Eduardo não é meu pai. O exame provou.
— Eu sei — ele respondeu.
Aquilo me fez congelar.
— Você sempre soube?
— Carolina me contou na noite do acidente.
— Então por que deixou seu nome na minha certidão?
— Para proteger você do verdadeiro pai.
Minha voz falhou.
— Quem era ele?
Eduardo caminhou até uma mesa e colocou uma fotografia diante de mim.
Carolina aparecia ao lado de um homem jovem.
Eu nunca o tinha visto.
— O nome dele era Daniel Nogueira.
Márcia começou a chorar.
— Não.
Eduardo continuou:
— Daniel era filho de Samuel Nogueira de outro casamento.
Olhei para Márcia.
Samuel era pai dela.
Portanto Daniel era...
— Meio-irmão de Carolina.
Minha garganta fechou.
Eduardo percebeu meu horror.
— Carolina não sabia quando se envolveu com ele. Nenhum dos dois sabia. Samuel manteve duas famílias durante décadas.
Senti as pernas enfraquecerem.
— E Daniel?
Eduardo demorou a responder.
— Descobriu a verdade quando Carolina já estava grávida.
— Onde ele está?
Eduardo olhou para o relógio.
— Essa é a razão pela qual precisamos sair daqui agora.
Um barulho metálico ecoou na entrada do galpão.
Márcia segurou meu braço.
Eduardo empalideceu.
Passos se aproximaram.
Então uma voz masculina veio da escuridão:
— Você sempre fala demais, Eduardo.
Um homem apareceu sob a luz fraca.
Eu não o reconheci.
Mas Márcia reconheceu.
— Roberto...
Ele sorriu.
E apontou para Eduardo.
— Agora conta para ela a parte que você continua escondendo.
Eduardo não respondeu.
Roberto olhou diretamente para mim.
— Conta para Juliana quem matou Daniel Nogueira na noite em que Carolina descobriu que estava grávida.
Então voltou os olhos para Márcia.
— Ou eu conto.







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