Márcia apertou meu braço com tanta força que suas unhas atravessaram o tecido da minha blusa.
— Não escuta ele, Juliana.
Roberto soltou uma risada curta.
— Trinta anos escondendo a verdade e ainda quer decidir o que ela pode ouvir?
Eduardo deu um passo à frente.
— Você não chegou até aqui para contar histórias. O que quer?
— O cartão.
— A polícia já tem uma cópia — menti.
O sorriso de Roberto desapareceu por um segundo. Foi suficiente para eu perceber que aquela era a única coisa que realmente o assustava.
— Então você não entendeu o que existe nele.
— Entendi que você desviou dinheiro da Costa Norte.
— Dinheiro? — Roberto balançou a cabeça. — Alberto passou a vida acreditando que tudo se resumia a dinheiro. Por isso morreu sem compreender metade do que aconteceu.
Olhei para Márcia.
— Quem matou Daniel?
Ela começou a chorar.
— Eu estava lá naquela noite.
Meu coração disparou.
— Onde?
— Na casa de praia de Samuel, em Itapuã.
A voz dela saiu quebrada. Carolina havia acabado de descobrir que Daniel era seu meio-irmão. Samuel confessara que mantivera duas famílias e implorara para que ninguém revelasse o escândalo. Daniel, devastado, queria ir embora de Salvador. Carolina estava grávida e não sabia como seguir em frente.
— Roberto apareceu — Márcia continuou. — Ele já sabia da gravidez e da participação de Carolina na Costa Norte.
Roberto cruzou os braços.
— Conta direito.
— Você queria que ela assinasse uma procuração.
— Porque ela estava emocionalmente destruída.
— Porque você queria controlar as ações dela!
Roberto avançou um passo, mas Eduardo se colocou entre os dois.
— E Daniel recusou — Márcia disse. — Eles discutiram. Daniel ameaçou procurar Augusto e contar tudo.
— E então? — perguntei.
Minha mãe fechou os olhos.
— Houve uma briga.
O silêncio do galpão tornou-se sufocante.
— Roberto empurrou Daniel?
Ela negou.
— Não.
Roberto sorriu.
— Finalmente.
Márcia olhou para Eduardo.
Foi aí que compreendi.
— Eduardo?
Ele não tentou fugir da pergunta.
— Daniel veio para cima de Roberto. Eu tentei separá-los. Ele caiu.
— Caiu onde?
— Da varanda.
Minha garganta fechou.
— Você matou meu pai?
— Não intencionalmente.
— Isso deveria fazer diferença para mim?
Eduardo baixou os olhos.
— Passei trinta anos fazendo essa pergunta.
Roberto interrompeu:
— Agora conta o que aconteceu depois.
Márcia respirou fundo.
Daniel ainda estava vivo quando chegaram até ele. Samuel queria chamar uma ambulância. Roberto não permitiu.
— Por quê?
— Porque Daniel ainda conseguia falar — disse Eduardo. — E disse que Roberto havia provocado tudo.
— Mentira — Roberto rebateu.
— Você tinha adulterado contratos, ameaçado Carolina e tentado me tirar da empresa.
— Mas não empurrei Daniel.
Eduardo permaneceu em silêncio.
Aquela era a parte terrível: Roberto podia ser culpado de muitas coisas, mas talvez estivesse dizendo a verdade sobre a morte do meu pai.
— Daniel morreu antes da ambulância chegar — Márcia continuou. — Samuel entrou em pânico. Disse que a verdade destruiria duas famílias. Roberto sugeriu que tratássemos como acidente.
— E vocês aceitaram?
— Eu tinha vinte e seis anos, Juliana. Minha irmã estava grávida, em choque, e Augusto...
— Não me diga quantos anos você tinha. Diga o que fez.
Ela chorou em silêncio.
— Eu menti para a polícia.
Fechei os olhos.
Trinta anos de silêncio começaram ali.
Eduardo assumiu publicamente a responsabilidade por uma discussão menor ocorrida naquela noite, mas pouco depois sofreu o acidente que todos acreditaram tê-lo matado. Carolina percebeu que alguém estava eliminando quem sabia demais.
— Roberto tentou matar você? — perguntei.
Eduardo olhou para ele.
— Nunca consegui provar.
Roberto deu uma risada amarga.
— Porque não fui eu.
— Então quem foi?
— Alberto.
Helena havia dito que Alberto suspeitava de Roberto. Alberto, no vídeo, afirmara que Eduardo fora ameaçado. Cada pessoa possuía uma versão diferente.
— Por que Alberto tentaria matar Eduardo?
Roberto apontou para o cartão em minha mão.
— Porque Eduardo descobriu que Alberto estava desviando dinheiro usando minhas contas.
Felipe e a polícia deviam estar ouvindo tudo através do pequeno transmissor escondido sob minha roupa. Eu precisava manter Roberto falando.
— E Carolina?
O rosto de Roberto mudou.
— Carolina descobriu a mesma coisa.
Márcia negou.
— Alberto esteve no hospital antes dela morrer.
— Esteve — Roberto confirmou. — Para convencê-la de que eu era o culpado.
— Você também esteve lá?
Ele demorou.
— Sim.
Márcia ficou branca.
— Você disse que nunca entrou naquele hospital.
— Eu menti.
Roberto olhou para mim.
— Carolina me chamou. Queria saber a verdade sobre Daniel e Eduardo. Quando cheguei, ela já tinha decidido entregar todos os documentos para Augusto.
— E você tentou impedir.
— Não. Pela primeira vez, eu queria ajudá-la.
Eduardo soltou uma risada amarga.
— Você espera que alguém acredite nisso?
Roberto tirou lentamente um envelope do bolso interno do casaco.
— Não precisam acreditar em mim.
Colocou-o sobre a mesa.
— Acreditem nela.
Dentro havia uma carta escrita por Carolina no hospital.
Reconheci a letra pelas anotações encontradas no cofre.
Minhas mãos tremiam enquanto lia.
Carolina descrevia a descoberta sobre Daniel, o medo de Roberto e as suspeitas sobre Alberto. Mas nas últimas linhas havia algo que ninguém mencionara.
“Se alguma coisa acontecer comigo, Márcia sabe onde está a gravação. Eu contei a ela tudo o que Alberto confessou hoje.”
Levantei os olhos.
— Que gravação?
Márcia parecia aterrorizada.
— Eu achei que tivesse sido destruída.
Roberto sorriu.
— Não foi.
Eduardo avançou.
— Onde está?
— Augusto escondeu.
— Onde?
Roberto olhou para mim.
— No único lugar que ninguém da Costa Norte poderia tocar.
Meu celular vibrou.
Era Felipe.
Uma mensagem curta:
“Não reage. Polícia entrando em 30 segundos.”
Mantive o rosto imóvel.
— Onde Augusto escondeu a gravação?
Roberto se aproximou.
— Dentro do presente que deixou para você antes de morrer.
Pensei na caixa de madeira. No relógio. Nas fotografias.
Então me lembrei.
O relógio de Augusto.
Roberto percebeu pelo meu rosto.
— Você entendeu.
Nesse instante, ouvi sirenes.
Roberto virou-se para a entrada.
Eduardo tentou segurá-lo, mas ele o empurrou e correu para uma saída lateral. Policiais invadiram o galpão segundos depois.
Felipe apareceu e veio diretamente até mim.
— Você está bem?
— Estou.
Mas meus olhos procuravam apenas Márcia.
— Onde está o relógio?
Ela respirou fundo.
— Na caixa.
— A caixa que desapareceu.
Márcia negou lentamente.
— Não, Juliana.
— Como assim?
— A caixa que Roberto levou era uma cópia.
Fiquei imóvel.
— Onde está a verdadeira?
Minha mãe olhou para Beatriz, que acabara de entrar no galpão acompanhada por um policial.
Beatriz parou.
Seu rosto perdeu a cor.
— Não — ela sussurrou.
Olhei de uma para a outra.
— O que está acontecendo?
Márcia finalmente respondeu:
— Augusto não deixou o relógio para você.
— Então para quem?
Minha mãe olhou diretamente para Beatriz.
— Para ela.
Beatriz começou a chorar.
E então disse algo que fez todo o resto desaparecer.
— Ju... eu encontrei a gravação há onze anos.
— Você ouviu?
Ela assentiu.
— Ouvi.
— E o que Alberto confessou?
Beatriz demorou alguns segundos para conseguir responder.
— Que Carolina não morreu por causa de uma hemorragia.
Meu coração parou.
— Então como ela morreu?
Minha irmã fechou os olhos.
— A gravação diz que alguém alterou a medicação dela.
— Quem?
Beatriz abriu a boca.
Mas antes de responder, Márcia disse:
— Não foi Alberto.
Olhei para minha mãe.
Ela estava chorando.
— Fui eu quem entregou o medicamento para Carolina naquela noite.







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