Por alguns segundos, achei que tinha ouvido errado.
— Minha mãe verdadeira?
Márcia levou a mão à boca, como se tivesse se arrependido no mesmo instante em que pronunciou aquelas palavras. Beatriz também a encarava, mas havia algo diferente em seu rosto. Não era surpresa completa. Era medo.
Foi isso que me fez perceber que ainda havia mais.
— Mãe, olha para mim.
Ela não conseguiu.
— Márcia.
Foi a primeira vez na vida que a chamei pelo nome.
Minha mãe ergueu os olhos devagar, e a dor que vi neles quase me fez recuar. Quase.
— Eu sou sua mãe — disse ela.
— Então por que você acabou de falar da minha “mãe verdadeira”?
— Porque eu falei errado.
— Não. Você falou rápido demais para conseguir inventar.
Felipe tentou se aproximar.
— Juliana...
— Não toca em mim.
Ele parou imediatamente.
Eu estava tremendo, mas não sabia mais se era de raiva ou medo. Nove dias antes do meu casamento, eu descobrira que meu noivo conhecia um acordo envolvendo nossas famílias, que minha irmã havia sido considerada antes de mim e que existia uma página de um documento antigo contendo o nome de outra mulher ligada à minha origem.
Olhei para Beatriz.
— Você sabia?
Ela demorou demais para responder.
— Sabia que existia uma dúvida.
— Que dúvida?
— Sobre o seu nascimento.
Senti as pernas enfraquecerem.
— Desde quando?
— Desde que eu tinha vinte e dois anos.
A mesma idade que ela mencionara na gravação com Helena.
Minha mãe levantou-se.
— Beatriz, não faça isso dessa maneira.
— E qual seria a maneira certa? — minha irmã explodiu. — Esperar mais nove dias? Deixar ela entrar naquela igreja sem saber por que todo mundo está tão interessado nesse casamento?
— Eu estava tentando protegê-la!
— Vocês passaram anos protegendo documentos, não a Juliana!
Antes que minha mãe respondesse, a campainha tocou.
Ninguém precisou perguntar quem era.
Helena.
Felipe fechou os olhos por um instante.
— Eu vou falar com ela.
— Não — respondi. — Ela entra.
— Juliana...
— Ela entra, Felipe.
Minha voz não tremeu daquela vez.
Pouco depois, Helena apareceu na cozinha. Elegante como sempre, cabelo perfeitamente arrumado, bolsa de couro presa ao braço. Mas seu rosto perdeu toda a serenidade quando viu nós quatro ao redor da mesa.
Seus olhos foram imediatamente para Felipe.
— Você mostrou?
— Ainda não — ele respondeu.
— Mostrar o quê? — perguntei.
Helena respirou fundo.
— Juliana, há coisas que aconteceram antes de você nascer e que não deveriam interferir na sua vida.
— Engraçado. Porque aparentemente estão interferindo até no homem com quem eu vou me casar.
Ela olhou para Márcia.
— Você contou?
— Só o necessário.
Beatriz soltou uma risada amarga.
— Essa família tem uma definição muito conveniente de “necessário”.
Helena ignorou.
— Felipe, onde está o documento?
Meu noivo permaneceu imóvel.
— No meu apartamento.
— Então vá buscar.
— Não.
A resposta dele surpreendeu até a mãe.
— Como é?
— Eu passei meses fazendo o que você queria. Chega.
Helena empalideceu.
— Você não entende o que está fazendo.
— Acho que finalmente estou começando a entender.
Felipe se virou para mim.
— Vem comigo.
Eu deveria ter recusado. Parte de mim queria mandar todos embora e cancelar o casamento naquele mesmo instante. Mas havia uma pergunta martelando minha cabeça.
Quem era a mulher da página sete?
Vinte minutos depois, Felipe e eu entrávamos no apartamento onde, em nove dias, eu deveria começar oficialmente minha vida de casada.
O silêncio no elevador havia sido insuportável.
Assim que a porta fechou atrás de nós, perguntei:
— Você sabia sobre minha mãe?
— Não.
— Não minta outra vez.
— Eu sabia que havia um nome diferente no documento. Não sabia o que significava.
Ele foi até o escritório.
Eu o segui.
Felipe abriu um armário embutido, retirou uma pequena caixa metálica e digitou uma senha. Dentro havia uma pasta marrom.
— Foi isso que encontrei entre as coisas do meu pai.
Ele colocou a pasta sobre a mesa.
O papel estava amarelado nas bordas. Havia assinaturas, carimbos e anotações feitas à mão. Felipe virou as páginas lentamente.
Um.
Dois.
Três.
Meu coração batia cada vez mais forte.
Na página quatro aparecia o nome do meu pai: Augusto Almeida.
Na cinco, Alberto Farias.
Na seis, uma cláusula extensa sobre transferência de participações societárias.
Felipe parou.
A página seguinte não estava lá.
— Cadê?
Ele ficou imóvel.
— Não pode ser.
— Felipe.
— Estava aqui.
— Você está brincando comigo?
— Não.
Ele começou a retirar tudo da pasta.
A página sete havia desaparecido.
Meu celular vibrou.
Era Beatriz.
Atendi imediatamente.
— Ju, vocês encontraram?
— A página sumiu.
Silêncio.
Então ouvi minha irmã respirar fundo.
— Volta para cá.
— Por quê?
— Porque a mãe do Felipe foi embora.
Olhei para ele.
— E daí?
— Ela levou alguma coisa da bolsa da mãe antes de sair.
— Quem?
— A Helena.
Meu coração acelerou.
— O que ela levou?
— Uma chave.
Felipe ouviu e ficou tenso.
— Pergunta como era.
Repeti a pergunta.
Beatriz descreveu uma pequena chave antiga com uma etiqueta metálica onde havia apenas um número.
Felipe perdeu a cor.
— O que foi?
Ele pegou o telefone da minha mão.
— Qual número?
Beatriz respondeu.
Felipe ficou em silêncio.
— Fala comigo — exigi. — O que essa chave abre?
Ele devolveu o aparelho.
— Um cofre bancário que pertencia ao meu pai.
— E o que tem lá?
— Eu nunca consegui abrir. Precisava de duas chaves.
— Duas?
Ele assentiu.
— Meu pai guardava uma. A outra ficou com Augusto.
Meu pai.
De repente, lembrei de uma pequena caixa que Márcia mantinha trancada desde a morte dele.
A mesma caixa que ela nunca permitira que eu ou Beatriz tocássemos.
Voltamos para a casa da minha mãe quase sem conversar.
Quando chegamos, Helena já tinha ido embora.
Márcia estava sentada na sala, segurando a caixa de madeira do meu pai sobre o colo.
— Ela levou a chave? — perguntei.
Minha mãe assentiu.
— Por que você tinha uma chave do cofre do pai do Felipe?
— Porque era do seu pai.
Felipe ajoelhou-se diante da caixa.
— Dona Márcia, precisamos abri-la.
Minha mãe segurou meu olhar.
— Antes disso, Juliana precisa saber uma coisa.
Sentei-me diante dela.
Márcia abriu a caixa.
Havia fotografias antigas, documentos, um relógio do meu pai e um envelope fechado com meu nome escrito à mão.
Reconheci imediatamente a letra de Augusto.
Juliana.
Minha garganta fechou.
— Meu pai escreveu isso?
— Pouco antes de morrer.
— E você nunca me entregou?
Lágrimas apareceram nos olhos dela.
— Ele me fez prometer que só entregaria se a família Farias voltasse a procurar você.
Felipe ficou imóvel.
Peguei o envelope.
Dentro havia uma carta e uma pequena chave.
A segunda chave.
Mas foi a primeira frase da carta que fez minhas mãos começarem a tremer.
“Juliana, se você está lendo isto, significa que os Farias descobriram que você não é apenas minha filha.”
Parei.
Beatriz se aproximou.
— Continua.
Respirei fundo e li a linha seguinte.
“Existe uma razão pela qual seu nome aparece sozinho na página sete, e essa razão começa com a mulher que morreu três dias depois do seu nascimento.”
Levantei os olhos para Márcia.
— Quem morreu três dias depois que eu nasci?
Minha mãe começou a chorar.
— Minha irmã.
O ar pareceu desaparecer da sala.
Eu conhecia aquela história. A irmã mais nova de Márcia, Carolina, morrera muito jovem. Quase nunca falávamos dela.
Olhei novamente para a carta.
Havia mais uma linha escrita por meu pai.
“Carolina Almeida não era apenas sua tia.”
Minha mão parou sobre o papel.
Márcia fechou os olhos.
E Beatriz, ao meu lado, sussurrou:
— Meu Deus.







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